Indefinição de Cleitinho embaralha disputa em MG; ‘resultado é indeterminado’, diz especialista
A poucos dias do prazo final para registro das candidaturas, a indefinição do senador Cleitinho Azevedo (Republicanos) sobre disputar o Governo de Minas Gerais provocou uma reconfiguração no tabuleiro eleitoral do estado e abriu um impasse no campo da direita.
Nesta quarta-feira (29), o Republicanos divulgou uma nota responsabilizando o parlamentar pelo fracasso das articulações para viabilizar sua candidatura, afirmando que o partido aguardou por meses uma decisão que nunca foi formalizada.
Embora a direção estadual do Republicanos considere o projeto encerrado, a assessoria de Cleitinho afirmou posteriormente que o senador continua pré-candidato ao Palácio Tiradentes.
Em entrevista ao Conexão BdF – 2ª Edição, o cientista político Juarez Guimarães, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), afirmou que, diante da indefinição, o cenário em Minas torna-se indeterminado.
Para ele, há uma crise política no campo bolsonarista, especialmente a partir de desgastes recentes envolvendo corrupção e o imbróglio envolvendo Michele Bolsonaro.
“Isso levou, inclusive, a outra dimensão importante que é a desorganização do bolsonarismo no estado de origem no Rio de Janeiro. Foram presas várias lideranças fundamentais, mostrando relações dessa família com crime organizado”, analisa. “Isso tudo se revela no cenário de MG, na incapacidade de conseguir apoio de [Romeu] Zema e estabelecer bases nas principais lideranças da direita no estado”, explica o especialista.
O cenário embaralha-se ainda mais, segundo ele, devido ao fato de que a liderança política do Cleitinho emergiu a partir da onda bolsonarista, sendo um sujeito com ‘escassa identidade política’.
Para o sociólogo Rubens Goyatá Campante, pesquisador do Centro de Estudos Republicanos Brasileiros (Cerbras/UFMG), antes de qualquer análise é preciso reconhecer que a situação ainda permanece em aberto. Há quem diga, por exemplo, que essa pode ser uma estratégia do senador.
“Ele já disse: ‘Eu só não vou me candidatar se me puxarem o tapete’. Apresentar-se como vítima do sistema, como o cara de quem os poderosos puxaram o tapete e não deixaram concorrer, pode ser sim uma estratégia, já que ele finge ser antissistema”, explica o especialista.
“Ele é um político que se fez basicamente nas redes sociais e na antipolítica. É representante de uma longa tradição de políticos brasileiros que dizem não ser políticos. Isso vem desde Jânio Quadros, lá em 1960, passando por Collor e Bolsonaro: todos são políticos, mas surfam no sentimento da antipolítica no Brasil, que sempre foi insuflado inclusive pelas classes dominantes”, continua Goyatá, ao destacar também a movimentação do ex-deputado Marcelo Aro (PP), que passou a ser tratado como alternativa da direita caso a candidatura de Cleitinho não se concretize.
Saída de Cleitinho altera o cenário eleitoral?
A indefinição ocorre justamente quando Cleitinho aparece como principal nome da corrida ao governo mineiro. Segundo levantamento Genial/Quaest divulgado nesta semana, o senador lidera os cenários em que é incluído, com cerca de 35% das intenções de voto. Sem ele na disputa, porém, o quadro muda significativamente: Alexandre Kalil (PDT) passa a liderar numericamente, com 15%, seguido por Patrus Ananias (PT), com 13%, empatados na margem de erro, enquanto o vice-governador Mateus Simões (PSD) aparece com 9%. O número de eleitores indecisos também cresce de forma expressiva.
Na avaliação de Campante, a principal consequência da eventual saída do senador não é a transferência automática de seus votos para outro candidato. Pelo contrário, grande parte desse eleitorado, para ele, tende a migrar para a indecisão ou para o voto branco e nulo.
“Grosso modo, a ausência do Cleitinho aumenta o número de indecisos e de pessoas que pretendem anular ou votar em branco. A direita tem mais condição de ganhar esses votos, porque esse público que diz que vai votar nulo ou em branco é justamente o pessoal antissistema, que consome a antipolítica de forma rasa”, analisa.
Juarez Guimarães, por outro lado, acredita que, diante de um cenário em que Cleitinho não disputa, o campo progressista pode crescer com Ananias.
“O nome de Patrus faz parte da tradição política de esquerda em MG. Não estamos falando de um candidato artificial como Cleitinho. Tem 50 anos de militância social e política, foi prefeito de BH com grande aprovação popular. Estamos falando de uma liderança que é reconhecida e tem potencial de crescimento muito importante”, analisou.
Embora Kalil tenha sido o candidato apoiado nas últimas eleições, “ele preferiu seguir por uma identidade idiossincrática”, reforça Guimarães.
“Kalil não é um homem de partido, era presidente do Atlético mineiro e passou a ter atividade política. Não é um homem agregador. Uma diferença de Patrus, que sempre foi muito respeitado até pelos seus adversários”, acrescenta.
Palanque para Flávio Bolsonaro fica comprometido
A indefinição também produz efeitos na estratégia nacional da direita. O plano articulado entre PL, Republicanos e União Progressista previa Cleitinho como candidato ao governo de Minas, oferecendo um palanque competitivo para a candidatura presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL). Com a possibilidade de o senador mineiro não disputar o Executivo estadual, partidos passaram a acelerar um plano alternativo tendo Marcelo Aro como cabeça de chapa.
Nos bastidores, a preocupação das legendas é evitar que a ausência de um nome competitivo fragilize a campanha presidencial em um dos maiores colégios eleitorais do país. O rearranjo também busca preservar o espaço das candidaturas ao Senado, reduzindo conflitos entre aliados.
Dificuldades conjunturais
Embora o episódio revele dificuldades da direita para construir uma candidatura unificada em Minas Gerais, Campante pondera que a situação não representa um enfraquecimento estrutural desse campo político.
“Mostra dificuldades conjunturais de articulação e de construção de alianças, mas não uma fragilidade estrutural. A direita continua tendo uma base social muito forte no Brasil e em Minas Gerais”, afirma.
Segundo o pesquisador, fatores como insatisfação econômica, conservadorismo religioso, disseminação de discursos antipolítica e o uso intensivo das redes sociais seguem alimentando a força eleitoral da direita e da extrema direita.
