Penetra: «Não me surpreendeu o que Farioli conseguiu fazer no FC Porto»

Penetra: «Não me surpreendeu o que Farioli conseguiu fazer no FC Porto»


A experiência no futebol neerlandês permitiu a Alexandre Penetra evoluir fisicamente. Isso, conjugado com o entendimento tático do jogo que desenvolveu na formação em Portugal, fá-lo sentir-se, hoje, «muito mais jogador».

Nos Países Baixos, o defesa português foi vítima de duas expulsões polémicas, que recorda entre elogios ao treinador do FC Porto, Francesco Farioli, que foi capaz de se reerguer depois de ter vivido no Ajax «uma daquelas situações que, se calhar, acontece uma vez na vida».

Penetra acredita ainda que a estreia do clube onde se lançou como sénior, o Famalicão, nas competições europeias, negada na última época pela conquista da Taça de Portugal pelo Torreense, acabará por surgir com naturalidade.

Internacional jovem português, Alexandre Penetra admite ainda que poder chegar à Seleção principal «passou de ser um sonho a um objetivo».

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Como é a vida de emigrante? Gosta ou ainda lhe custa?

Como saí cedo da casa dos meus pais acabou por ser algo fácil para mim. Obviamente que há momentos mais difíceis, mas já estou habituado e corre tudo bem. Gosto muito do país.

Quais são esses momentos mais difíceis?

Às vezes, no futebol, estamos numa fase menos boa, seja individual ou coletivamente. Há, por vezes, momentos familiares em que não estamos presentes, porque estamos longe. São coisas desse género. Depois, há momentos mais difíceis, sobretudo no inverno. Em Portugal estamos habituados ao bom tempo e aqui não é propriamente das melhores coisas.

Os portugueses que jogam na Liga neerlandesa costumam juntar-se?

Não é muito fácil. Onde estavam mais portugueses acabou por ser no Fortuna Sittard, onde estava o Ivo (Pinto). São três horas de distância para onde eu estou. Agora, mais recentemente, veio o Gonçalo Borges (para o Feyenoord). Costumamos falar depois dos jogos, trocamos camisolas, é um momento sempre bom. Mas, fora isso, acaba por ser um bocado complicado devido às distâncias.

Gosta de jogar na Eredivisie? O que tem ela de especial?

A Liga deu-me o que me faltava quando saí de Portugal, que foi a parte física. É uma Liga em que se joga ‘um contra um’ praticamente no campo todo. Há muito pouca estratégia tática. Tem um ou outro ponto (distinto) de jogo para jogo, mas, no geral, as equipas jogam todas ‘olhos nos olhos’ no campo todo. Isso ajudou-me a preparar-me para o próximo passo que irei dar. Hoje, sinto-me muito mais jogador.

Portugal acabou por me dar a parte tática. É o que me distingue quando jogo lá (nos Países Baixos). É um dos pontos em que me elogiam mais, a minha capacidade tática, porque a minha escola foi toda em Portugal, onde temos os melhores treinadores, seja na formação ou no futebol profissional. São treinadores que ligam muito a essa parte e é sempre bom ter algo diferente dos outros para nos destacarmos.

No meio desse processo evolutivo, foi protagonista de alguns episódios caricatos nos Países Baixos.

Um foi no jogo com o Ajax. Foi um lance complicado. Eu estava com amarelo e um jogador do Ajax tinha sido expulso dois ou três minutos antes. Estávamos a jogar fora, o jogo estava empatado, faltavam dez minutos para o fim. Fiz um ‘carrinho’ na bola, só que do ângulo em que estava era difícil para o árbitro ver. Ele deu-me o amarelo, e como era o segundo não podia rever as imagens. Acabou por me expulsar. No fim, ele reconheceu o erro, mas já não havia muita coisa a fazer.

O outro foi na meia-final da taça, com o Heracles (em 2024/2025). Estávamos nos penáltis. Fui bater um, marquei e quando a bola ressaltou na rede voltou para mim. Como ela vinha na minha direção, agarrei-a e comecei a andar para trás, para dá-la ao jogador do Heracles. Só que, sem ter reparado, o guarda-redes do Heracles empurrou-me. Já tinha um amarelo do jogo e (depois do empurrão) o árbitro acabou por dar um amarelo a mim e ao guarda-redes. Tive de cumprir o jogo de suspensão na final. Quando agarrei a bola, foi sem maldade, ela veio na minha direção. Foi, se calhar, o momento mais duro nesse ano.

No ano passado conversámos sobre a, na altura, vantagem dos Países Baixos sobre Portugal no ranking de clubes da UEFA. De lá para cá tudo mudou. Isso surpreendeu-o, sobretudo pela diferença pontual expressiva entre os dois países que se registou no final da época?

Acabou por não me surpreender porque sabia da qualidade que havia em Portugal. Na altura, faltava, se calhar, dar um pouco mais de apoio às equipas que participam (nas provas europeias) e dão pontos. O último ano foi muito importante e isso sentiu-se, principalmente, quando vi o Sp. Braga e o FC Porto a avançarem na Liga Europa e o Sporting na Champions. Aí percebeu-se que os portugueses estavam com as equipas e que toda a gente queria ver até onde é que elas iam. Foi um ponto de viragem. Acho que até começou na época anterior, com o Vitória de Guimarães na Conference League. Como não é um dos ‘três grandes’, acaba por ser mais fácil de apoiar.

Quanto à Holanda, no ano passado, a qualificação acabou por ser um pouco complicada. Normalmente vão sempre (às competições europeias) o Ajax, o Feyenoord, o PSV, o AZ e o Twente, mas no ano passado o Twente acabou por não estar.  Foram o Go Ahead Eagles e o Utrecht, equipas com menos experiência na Europa, e isso pode ter pesado. Não é a mesma coisa jogar de oito em oito dias ou de três em três. Isso requer alguma experiência e outro tipo de trabalho. Essas equipas foram logo para a Liga Europa e, no geral, também foi um ano mais fraco para as grandes equipas. O Ajax, o PSV e o Feyenoord, com este novo formato, costumam passar a primeira fase, mas no ano passado esse não foi o caso. Em sete equipas, só uma é que passou, que fomos nós, na Conference, em que fomos eliminados nos quartos de final. Fomos a equipa que somou mais pontos, mas foi um ano muito negativo (para os Países Baixos).

Sentiam que podiam ter chegado um bocadinho mais longe na última Liga Conferência?

Sim. Na altura em que disputámos os quartos de final da Conference, estávamos num período complicado porque também tínhamos a final da taça (dos Países Baixos), que ia ser jogada depois da segunda mão da Conference League. Acabou por ser complicado, porque a taça também era um dos grandes objetivos do clube, dos adeptos e dos próprios jogadores, porque a tínhamos perdido um ano antes. Também tínhamos muitos lesionados e jogadores em risco de, se tivessem jogado a eliminatória, provavelmente não poderem jogar a final (da taça). Lembro-me de que, na primeira mão, na Polónia, que é onde joga o Shakhtar, tivemos de fazer alguns ajustes na equipa. Até estávamos a fazer um jogo decente, estava 0-0, sentíamos que podíamos levar a eliminatória para casa, só que, em 15 minutos, acabámos por sofrer três golos, que nos ‘matam’ para a segunda mão. Aí, o treinador já fez uma gestão diferente, poupou mais jogadores para a final (da taça dos Países Baixos). Focámo-nos mais nela porque a distância entre os jogos era de três dias e a época já ia longa.

Continua a acompanhar o futebol português?

Acompanho sempre. Acabou por ser uma temporada dominadora do FC Porto, do início ao fim. Não me surpreendeu o que Farioli conseguiu fazer no FC Porto. Já o tinha feito no Ajax, mas infelizmente para ele perdeu o título nos últimos três jogos. Mas o método de trabalho dele é muito eficaz e soma muitos pontos. O Sporting também apresentou um excelente nível até uma certa altura, mas depois acabou por, se calhar devido a alguma incapacidade física, não conseguir dar luta até mais longe. Para o Benfica acabou por não ser um ano fácil, mas teve uma reta final positiva.

A mudança de Francesco Farioli para o FC Porto, depois daquele ano traumático no Ajax, surpreendeu nos Países Baixos?

O desfecho foi muito complicado. Depois daquilo que aconteceu, seria difícil para ele continuar, até para o próprio clube. Mas a qualidade estava lá, toda a gente viu. É daquelas situações que, se calhar, acontece uma vez na vida. Só que foi tão marcante que fez da saída dele (do Ajax) normal.

E com que imagem ficou de Francesco Farioli no ano em que foi seu adversário no Ajax?

Os jogos que disputámos foram sempre muito equilibrados. Um deles até foi o da expulsão com o Brobbey. Sei que é um treinador muito focado na parte tática. Pegou numa equipa que tinha ficado no quinto lugar e meteu-a a lutar pelo título até à última jornada. No cômputo geral, e apesar do que aconteceu na parte final, acabou por ser uma época de sucesso. Percebi logo que era um treinador que trabalhava muito a parte tática e que, para ele, o jogo posicional era muito importante. Isso notava-se em campo.

Há ainda o Famalicão, que conseguiu a melhor classificação de sempre na Liga. Isso surpreendeu-o?

Acabou por não ser uma surpresa. Para o Famalicão é uma questão de tempo até estar a lutar constantemente com os de cima. O projeto está muito bem feito. As pessoas ainda continuam lá todas e o clube vai crescendo de ano para ano. Infelizmente, na época passada, não tiveram a sorte de o vencedor da Taça de Portugal ser um dos de cima para dar o acesso (às competições europeias), mas certamente, nos próximos anos, isso irá acontecer. Fico muito contente por eles. Ainda tenho muitos amigos lá, estou sempre a torcer por eles.

Ao nível das seleções nacionais, subiu na hierarquia até aos sub-21. Foram anos especiais para si?

É sempre muito importante. Acaba por ser um pouco uma recompensa pelo nosso trabalho. Nunca é fácil, porque sabemos bem da geração que temos, mas é sempre muito importante representar a Seleção. São muitos dias de estágio, de hotel juntos, muitos jogos, muitas brincadeiras e conversas entre nós. Muitas das ligações que criei foram na Seleção e ainda hoje tenho amigos que fiz lá.

Só lhe falta estrear-se pela Seleção principal. Pensa muito nisso?

Até há um ano não pensava, mas agora começo a pensar. Passou, se calhar, de ser um sonho a um objetivo. Já são três anos consecutivos a jogar em competições europeias, já me sinto a bater de frente com os melhores. Já defrontei alguns dos melhores avançados da Europa e sempre tive boas prestações. Tenho de trabalhar para que isso aconteça.

Já integrou listas de pré-convocados, no passado. Vê nisso um sinal?

Sem dúvida. Sei bem da dificuldade que é, mas também da minha qualidade. Se calhar ainda não estou a lutar de igual para igual, porque acabo por estar numa liga inferior, mas estou a trabalhar para conseguir atingir esse nível. Se continuar assim, vou consegui-lo e aí a decisão será do treinador. Há que respeitá-la e compreendê-la.



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