vandalismo ou golpe de teatro? – Observador

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Esta é a história do dia da Rádio Observador: assalto ao Chega. Vandalismo ou golpe de teatro?
Foi detetado que o gabinete onde trabalho na Assembleia da República e onde o Chega tem o seu centro de trabalho na zona nobre do Parlamento, alguém lá se introduziu, vandalizando o próprio gabinete.
Era manhã de terça-feira quando começaram a chegar às redações vídeos do próprio Chega a mostrar o gabinete revirado de André Ventura. Papéis pelo chão, livros abertos, portas de armários por fechar. Alguém tinha estado ali e quis que essa presença fosse notada. E depois os documentos e as pens com informação importante que alegadamente tinham desaparecido.
Não só pelo que desapareceu, como pela forma como foi feito, é pelo menos um ato de intimidação e é um ato de condicionamento. E nós não podemos lidar com o condicionamento.
Isto não é encenação, está em condições de garantir que não foi ninguém do Chega?
Espero que a investigação faça o seu trabalho.
Só que há muitas coisas nesta história que não batem certo. E, por isso, eu hoje vou conversar com a jornalista de política do Observador, a Mariana Lima Cunha, que passou o dia de ontem a fazer perguntas em conjunto com o editor de sociedade, o Pedro Rainho, para tentar perceber o que aconteceu realmente no gabinete de André Ventura, quem entrou lá dentro, o que é que desapareceu e por que esta história tão grave está rodeada de pequenos detalhes que causam estranheza. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de quarta-feira, 29 de julho. Olá, Mariana.
Olá, Pedro.
Vou te pedir que nos leves até o início deste dia, desta terça-feira, em que acontece uma coisa muito surpreendente no gabinete de André Ventura.
Sim, esta terça-feira começou anormalmente cedo para um dia de férias parlamentares. Nós estamos em período de verão e, portanto, não há trabalhos parlamentares, não há os debates que costumamos ver na televisão, e portanto há muito menos gente no Parlamento. Ainda assim, havia duas pessoas que entraram muito cedo no Parlamento e na sala do Chega. Uma delas era responsável pela limpeza, uma funcionária parlamentar que estava responsável por limpar a sala do Chega e que chegou entre as 6h30 e as 7h. A outra era um deputado do Chega, o deputado madeirense Francisco Gomes, que chegou muito cedo, por volta das 7h, ao Parlamento. Segundo o que percebemos, para gravar um TikTok. Ele ia gravar um TikTok à sala do grupo parlamentar do Chega e depois publicou nas suas redes sociais. E terão sido estas as duas primeiras pessoas que se aperceberam, passaram pela sala de André Ventura, pelo seu gabinete privado, e perceberam que estaria todo remexido, com papéis no chão, com uma cadeira no chão, e que, no caso desta funcionária parlamentar, deram o alerta.
Nós sabemos quem é que deu o alerta, exatamente? Essa questão está perfeitamente resolvida e perfeitamente clara?
No caso, há algumas contradições sobre esta cronologia que eu estou aqui a explicar e por isso é que eu digo que foram as duas primeiras pessoas a chegar. E isso é uma certeza que temos. As primeiras informações a que nós tivemos acesso, de fontes que acompanharam este processo e esta manhã muito agitada no Parlamento, diziam-nos que o deputado Francisco Gomes era a primeira pessoa que tinha chegado à sala do Chega. As informações que vêm do próprio Chega, e que foram adiantadas por André Ventura, foi que a responsável pela limpeza tinha chegado ainda antes do deputado e que tinha falado com a GNR, que está sempre ali a fazer a segurança da Assembleia da República 24 horas por dia. E, portanto, isto é um aparente detalhe muito importante para explicar se aquele cenário é encontrado primeiro por uma pessoa alheia ao Chega, que não tem qualquer interesse na situação. Ou se é uma parte do Chega, neste caso um deputado, uma vez que isto é um caso um bocadinho rocambolesco e que veio logo levantar algumas sugestões à boca pequena de que poderia ter sido uma encenação, por exemplo.
Já lá iremos a essa questão da encenação, mas o que temos é um deputado que chega às 7h para supostamente gravar um TikTok e uma empregada de limpeza que também chegará por volta dessa hora e, portanto, entre os dois, alguém terá dado conta daquilo que efetivamente se tinha passado. Agora, normalmente, quando acontece esse tipo de coisas, há câmaras de videovigilância que permitem perceber exatamente o que aconteceu. Neste caso, não é exatamente assim e eu gostava que tu me explicasses porquê.
Sim, neste caso, não é exatamente assim, portanto falta o que poderia ser uma peça essencial para percebermos o que aconteceu exatamente. O que acontece é que o sistema de segurança do Parlamento só inclui câmaras de videovigilância na parte de fora. Portanto, nós só temos acesso neste momento, aliás, nós não, mas as autoridades e a investigação têm acesso às imagens de quem entra no edifício. E por isso é que foi logo noticiado nesta terça-feira que estava confirmado que Francisco Gomes entrou às 7h no Parlamento. Portanto, terá sido, de certeza, das primeiras pessoas a chegar ao Parlamento neste dia. O que não temos depois são imagens do interior da Assembleia da República, porque os corredores não são filmados. O que acontece em termos de segurança é que existem os agentes da GNR Que estão no interior da Assembleia da República a fazer a sua vigilância, que fazem rondas e que também nesta madrugada fizeram rondas pela Assembleia da República e não detectaram ou não reportaram nenhuma anomalia, nenhum barulho estranho, não se percebeu nenhuma agitação. E da parte de fora, temos os agentes da PSP que fazem a defesa e a segurança da porta do Parlamento. E portanto, este é o sistema de segurança que temos. Já foi debatido no passado se não deveria ser mais robusto, mas de facto não há imagens que nos digam preto no branco quem é que entrou no gabinete entre a saída do André Ventura no dia anterior e a chegada destas duas pessoas no dia seguinte.
Mariana, tu disseste que a questão da segurança já foi debatida no Parlamento. O que foi debatido e em que ponto é que está essa questão da segurança parlamentar?
Sim, já houve discussões sobre isto. Aliás, houve uma muito recente, porque em fevereiro deste ano houve um caso de um jornalista da revista Sábado que estava no Parlamento a abordar deputados do PSD, num local que não é assim tão comum que estejam lá jornalistas e foi abordado, depois reconheceu-se que erradamente, e foi-lhe dito que não teria direito a estar naquele local por um erro de avaliação de uma funcionária parlamentar. Mas isso depois evoluiu para uma discussão, que foi aliás tida pelos líderes parlamentares em reunião e foi depois conhecida a ata dessa reunião e nessa ata havia vários deputados de vários partidos que reconheciam que havia uma necessidade de haver medidas de segurança um pouquinho mais apertadas, coisas simples. Por exemplo, a identificação das pessoas devia estar visível, de quem circula dentro do Parlamento e o próprio presidente da Assembleia da República, José Pereira Branco, dizia que era preciso pensar numa maneira mais séria e mais profissional de fazer a segurança, porque não se pode pensar na segurança como ela era há 15 ou há 20 anos, eram as palavras dele. Porque para quem conhece a realidade do Parlamento há de facto um clima de alguma informalidade que em parte penso que beneficia muito os jornalistas, por exemplo, porque há uma facilidade em aceder aos deputados, em conversar com eles, que não é comum noutros parlamentos internacionais. Mas é verdade, e acho que nós que vamos ao Parlamento e que despenhamos isso, estamos conscientes disso, que nem sempre há um rigor absoluto na identificação das pessoas que circulam. Os jornalistas, em teoria, têm de estar sempre identificados. E mais do que isso, os deputados, neste momento, não são obrigados a ser identificados. E isso era uma das coisas que os próprios deputados diziam que talvez fosse uma medida a adotar, porque não é difícil pensar que em casos como este, por exemplo, talvez fosse mais fácil para quem está responsável pela segurança, está a fazer a ronda, identifique quem é deputado realmente, quem deve estar lá, quem não deve estar lá. E portanto, podia haver aqui alguns ajustes. Chegou também no ano passado a haver uma ordem para apertar esta questão das identificações, obrigar toda a gente a ter a identificação visível. E nós jornalistas sentimos isso na altura, mas eu diria isto, um pouco da minha experiência pessoal, que essa questão não está totalmente coberta e resolvida.
E portanto, com o sistema como tu acabaste de descrever, acontece um episódio destes, sendo que é um episódio que ainda tem muitas perguntas por responder. Eu quando vi as imagens que circularam do gabinete de André Ventura, há ali uma coisa que a mim me chamou logo a atenção. Se foi roubado, se a intenção era roubar alguma coisa, normalmente quem consegue efetivamente aceder a estes gabinetes fá-lo de uma forma discreta. E na verdade, aquilo que nós vimos nas imagens era tudo menos discreto, era papéis por todo lado, era livros abertos, era molduras no chão com um terço por cima, era o cenário de um filme quase de ação em que alguma coisa foi roubada. Nós já sabemos concretamente o que é que foi roubado desse gabinete e já agora, como é que foi tão fácil entrar lá dentro?
Para essa última pergunta, há uma resposta fácil também, que é: André Ventura admitiu que costuma deixar o gabinete aberto e destrancado. E portanto, já recebeu até conselhos. Esta terça-feira, José Luís Carneiro vinha dizer que, já agora, como conselho de segurança pessoal, ele tranca sempre o gabinete quando não está lá. E portanto, aí é logo uma medida fácil à partida de tomar para evitar problemas destes. O que nós sabemos, e como tu dizias, aquilo que se vê nas imagens parece quase um quadro demasiado bom ou demasiado mau para ser verdade. Parece de facto um cenário de filme o que se encontrou ali. O que é que não se encontra ali e o que é que não se encontra nos documentos que é possível ver que André Ventura tem espalhados pelo chão? Segundo o próprio André Ventura, que é quem poderia detectar o que é que lhe faltava ali, são um lote de documentos que tinham a ver com Luís Neves, com o ministro que está debaixo de uma série de polémicas por causa de obras que fez e de uma série de outros desenvolvimentos. E André Ventura tinha dito na sexta-feira que ia ter acesso a um conjunto de documentos comprometedores para Luís Neves e que continuava com a sua ideia de propor uma comissão de inquérito a este caso. E diz André Ventura que de facto, documentos que tinham a ver com esse caso desapareceram. E depois também um conjunto de documentos que ele desvalorizou mais, que tinham a ver com o primeiro-ministro, mas que já tinham um ano de existência. E desapareceram, aliás, também duas pens que teriam Informações, segundo André Ventura, políticas e confidenciais também relacionadas com Luís Neves. A partir daqui, André Ventura faz uma associação que é de sugerir que isto teve alguma coisa a ver com a pressão que o Chega está a fazer ao Ministro da Administração Interna, que alguém quer condicionar o Chega, que alguém quer calar o Chega sobre o assunto.
E neste momento, sabendo essas coisas da boca do próprio André Ventura, sabemos também que o caso está a ser investigado. Tu tens alguma informação sobre as linhas que estão a ser seguidas pela investigação?
O que nós sabemos, e eu estive a trabalhar com o Pedro Rainho nestas questões também de perceber que caminho é que a investigação pode tomar, é que neste momento os cenários estão todos em aberto, porque a PJ, que foi chamada ao local e que começou a tomar conta da investigação logo nesta terça-feira e saiu de lá com vários caixotes com a informação pra analisar, esteve lá a manhã toda no Parlamento e portanto a PJ tem os cenários em aberto porque não considerou que o cenário com que se deparou quando lá chegou desse informação suficiente pra poder afunilar já numa direção em concreto. Mas sabemos que a PJ foi recolher impressões digitais, foi recolher as imagens e os documentos que ali se encontravam e foi também pedir então as tais imagens de videovigilância que podem ajudar a perceber melhor o caso, porque no limite o que nos podem dizer é se André Ventura saiu, como sabemos que saiu, às 19h da véspera do Parlamento e do seu gabinete, e se 12 horas depois entram aquelas duas primeiras pessoas, e se, de novo, com o Parlamento tão vazio porque é uma segunda-feira de férias em que não há trabalhos parlamentares, pode ser que haja um lote relativamente reduzido de pessoas que estiveram a entrar e a sair do Parlamento. Portanto, talvez isso possa trazer alguma pista, mas neste momento são estes os materiais com que a PJ está a tentar trabalhar.
E portanto, quando dizes todos os cenários estão em aberto, estamos a falar ou de vandalismo ou de encenação.
Exatamente.
Obrigado, Mariana.
Obrigada.
Eu conversei com a Mariana Lima Cunha, jornalista de política do Observador. Por enquanto, há uma certeza: a Polícia Judiciária está a investigar e nenhuma hipótese está excluída. Pode ter havido um crime, pode ter havido uma falha de segurança, mas também pode ter sido tudo um golpe de teatro. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é da Mariana Sousa Aguiar, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.
