Achar que não existe deterioração fiscal é patético, diz Gustavo Franco, ex-presidente do BC

Achar que não existe deterioração fiscal é patético, diz Gustavo Franco, ex-presidente do BC


Para o economista carioca Gustavo Franco, o maior problema do Brasil no século XXI é o mesmo de sempre: um Estado que gasta mais do que arrecada, endivida quem ainda não nasceu e, em troca, entrega pouco. Professor da PUC-Rio e doutor por Harvard, Franco ficou conhecido como um dos arquitetos do Plano Real — o programa que, em 1994, encerrou a hiperinflação que corroía os salários brasileiros semana a semana.

Trabalhou ao lado de Pedro Malan, Edmar Bacha e André Lara Resende, e chegou à presidência do Banco Central, cargo que exerceu entre 1997 e 1999. Foi nesse período que o Brasil adotou o câmbio flutuante e o regime de metas de inflação — pilares que sustentam a política monetária até hoje. Depois de deixar o governo, fundou a Rio Bravo Investimentos e nunca saiu do debate público: é colunista, palestrante e autor de mais de 16 livros sobre macroeconomia e história econômica brasileira.

Sua autoridade na discussão atual vem de uma combinação rara — viveu por dentro a maior transformação econômica do país e, três décadas depois, continua acompanhando de perto as contas que o Brasil ainda se recusa a fechar.

No Amarelas On Air apresentado por Ernesto Neves, ele analisa os desafios do país. “Teremos juros de primeiro mundo quando tivermos finanças públicas de primeiro mundo. E a gente não tem.”

Como o senhor vê o Brasil entrando nas eleições de 2026? A gente está numa situação econômica melhor ou pior do que quatro anos atrás?

Estamos mais ou menos no mesmo lugar. As candidaturas e projetos em circulação hoje se parecem muito com os do pleito anterior. Não houve mudança praticamente nenhuma na agenda econômica — um pouco mais de fadiga de um lado, um pouco mais de hostilidade do outro. Mas a economia não é o principal assunto da conversa.


O governo Lula conseguiu estabilizar as expectativas econômicas ou ainda governa sob desconfiança do mercado?

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Sim e não. Em relação às versões mais alarmistas do que seria um governo petista, sim — Lula já esteve presente em todas as eleições desde 89, não é mais um personagem assustador. Mas este governo trouxe uma novidade: Fernando Haddad é, dos 21 ministros da Fazenda desde a Constituição de 88, o primeiro que se dispôs a resolver o problema fiscal pelo lado da receita, aumentando impostos. Os outros sempre evitaram esse assunto. Haddad o colocou na soleira da porta, ganhou memes a respeito. Foi uma novidade que não foi bem recebida e, acho, não deu certo.


3- Pergunta: Há uma deterioração fiscal real ou é reação ideológica do mercado?

Resposta: Claro que existe deterioração real — e muito real. Achar que não existe é patético. O problema fiscal é uma constante em democracias com ambições maiores do que a capacidade de execução. A nossa não é exceção. Só que estamos esticando essa corda há muitos anos. A dívida pública é gigantesca, subavaliada — nem tudo que é dívida é contabilizado como tal. Entre os países emergentes, somos de longe os piores. Estamos a dois degraus abaixo do grau de investimento por qualquer padrão internacional. Fingir que esse problema não existe é uma perda de tempo.


4- Pergunta: O Brasil vive um conflito entre responsabilidade fiscal e ambição social, ou essa dicotomia é falsa?

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Resposta: Essa dicotomia existia de forma muito flagrante na época da inflação alta. Foi preciso a experiência do Plano Real para demonstrar que ela é falsa. O que é necessário para manter a economia estável não é contrário às ambições sociais — ao contrário, o impacto social do Plano Real foi melhor do que qualquer outro programa feito no Brasil nos últimos tempos. Depois do Real, essa discussão murchou bastante.


5- Pergunta: A política econômica atual tem direção clara ou transmite sinais contraditórios?

Resposta: Tem contradições, mas que são normais em democracia — diferentes aspectos da política econômica são tocados por agências que perseguem pautas distintas. O exemplo mais flagrante é o Banco Central, cuja missão é manter a inflação baixa, mas que não faz política fiscal. E a política fiscal é claramente inconsistente com o regime de metas. É o próprio governo quem fixa a meta pelo Conselho Monetário Nacional, o Banco Central pratica uma taxa de juros consistente com ela, e o governo acha essa taxa muito alta. Não há esquizofrenia — são agentes diferentes praticando a política econômica.


6- Pergunta: O Brasil está preso a um modelo de crescimento baseado em consumo e expansão do gasto público?

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Resposta: Sim. O Brasil adotou desde sempre a cultura de que o gasto público é bom e o setor público é o grande responsável pela redenção econômica e social do país. Isso pode ter sido verdade no passado; não é mais. Hoje o grande ator do progresso é o setor privado. O governo é cada vez mais uma âncora — no sentido de peso. Ele é grande, pode ajudar, mas atrapalha. A ideia de que é ele quem vai conduzir a próxima etapa do desenvolvimento ficou para trás.


7- Pergunta: Existe risco de o Brasil entrar numa espiral de perda de confiança semelhante à do pré-impeachment de Dilma?

Resposta: Isso é uma constante, está presente o tempo inteiro. A taxa de juros expressa um tanto disso: é o preço que se paga a quem empresta dinheiro a uma entidade muito endividada, cujos credores têm legítimas dúvidas sobre o cumprimento das obrigações. Toda hora o governo deixa de honrar algum compromisso — pergunte aos donos de precatórios. É um devedor em condições financeiras precárias, e a rolagem da dívida reflete esses medos.


8- Pergunta: O governo atual melhorou a qualidade do debate econômico ou houve regressão institucional?

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Resposta: Não andou muito. Sinto falta de uma identidade, de um programa econômico. As ações são muito micro, muito midiáticas, parecem orientadas por marqueteiro. É muito personalista — tenho a impressão de que o Brasil não tem ministro da Fazenda. O ministro da Fazenda é o presidente. E é muito difícil para qualquer ministro exercer essa função quando o presidente quer trabalhar como se ele não existisse.


9- Pergunta: O senhor vê na direita alguma proposta que leve o país a um rumo melhor?

Resposta: Não quero entrar nesse assunto. Mas reafirmo: não vejo a economia como o tema central dessa eleição, como não foi na anterior. A polarização brasileira não se dá tanto na economia. Pareceria que a direita estaria mais próxima de uma postura pró-mercado, mas não sei se isso ficou tão claro. Não está muito evidente que a polarização política e cultural se observe também na economia.


10- Pergunta: Qual é hoje o principal ponto de fragilidade da economia brasileira?

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Resposta: O fiscal, certamente. E a estagnação da produtividade. O Brasil tem setores exemplares — o agro, algumas empresas com liderança global —, mas no geral o panorama de produtividade é muito ruim. Continua sendo uma economia muito fechada. Para cada bom exemplo tem um péssimo.


11- Pergunta: O Banco Central agiu corretamente ao manter os juros elevados por tanto tempo?

Resposta: Concordo que acertou, mas é preciso ter clareza: o Banco Central não fixa os juros como uma canetada. Ele sanciona uma taxa que reflete um conjunto de circunstâncias que ele não domina. Os juros altos refletem uma tragédia fiscal em andamento, uma inflação querendo subir e uma situação internacional difícil. Se o fiscal não fosse tão caótico, os juros poderiam ser muito menores. Mas quem faz a política fiscal não é o Banco Central — é o presidente da República.


12- Pergunta: A autonomia do Banco Central saiu fortalecida ou fragilizada?

Resposta: Super fortalecida. Foi um grande progresso que, infelizmente, não se repetiu nas instituições que regulam a política fiscal. A independência do Banco Central resolve um conflito de interesse clássico: o governo, como acionista controlador da fábrica de dinheiro, tem incentivo a emitir demais, gerando inflação e prejudicando a população. O Banco Central funciona como uma agência reguladora que protege esse interesse difuso. Deveríamos ter proteção equivalente no terreno fiscal — para impedir que o governo endivide quem nem nasceu ainda. Com uma dívida de cerca de 80% do PIB e um PIB de 2,3 trilhões de dólares, cada brasileiro nasce devendo cerca de 8 mil dólares.


13- Pergunta: O regime de metas de inflação ainda funciona bem no Brasil?

Resposta: Sim, tem funcionado muito bem desde o começo — um track record notável para um país tão confuso. Ficou fortalecido com a Lei Complementar 179, que deu mais estabilidade aos dirigentes do Banco Central. Com isso, a polarização política das últimas eleições não se traduziu em turbulência financeira. O presidente tensionou esse assunto, se queixava da taxa de juros quando o presidente do BC não era o de sua escolha. Agora a política está igualzinha e as queixas cessaram. Ou ele se convenceu de que está tudo certo, ou estava fazendo teatro antes.


14- Pergunta: O Brasil se acostumou a conviver com juros estruturalmente altos?

Resposta: Sim. Há quem associe isso à ansiedade brasileira: o Brasil, país do futuro, quer antecipar a riqueza que ainda não tem — e para isso paga o preço dos juros. O juro é o preço de trazer o futuro para o presente. O resultado é um país com um pé no acelerador fiscal e um pé no freio monetário. O motor é potente, mas o carro fica cantando pneu no mesmo lugar, desperdiçando energia sem progredir.


15- Pergunta: Dado o problema fiscal, ficou impossível imaginar juros baixos de forma sustentável?

Resposta: Do jeito que está, sim. É preciso começar ontem um programa fiscal sério. O próximo mandato presidencial vai ser inteiramente consumido em trazer o resultado fiscal para um patamar que nos permita nos aproximar do grau de investimento. Só a partir daí poderemos aspirar a juros de primeiro mundo. Teremos juros de primeiro mundo quando tivermos finanças públicas de primeiro mundo.


16- Pergunta: O senhor concorda com a crítica de que parte do mercado exagera cenários negativos para pressionar o governo?

Resposta: Não. Isso é uma besteira.


17- Pergunta: A volta de Trump alterou o ambiente econômico internacional? O protecionismo vai dominar no curto e médio prazo?

Resposta: Trump trouxe um hiper ativismo que não se via há muito tempo. A iniciativa mais reveladora foram as tarifas, reflexo de uma preocupação antiga: desvalorizar o dólar para recuperar competitividade — algo que os americanos já fizeram nos anos 80 com o Acordo do Plaza, negociando com japoneses e alemães. Desta vez não conseguiriam chamar os chineses para essa conversa. Fizeram de forma unilateral, apostando que tarifas equivaleriam a desvalorizar a moeda. Não é a mesma coisa. Conseguiram alguma desvalorização, mas pelo caminho errado — pela perda de confiança nos EUA, não pela melhora das contas americanas. E já recuaram. O perigo é que o gênio protecionista, uma vez solto da lâmpada, seja difícil de devolver. Tomara que americanos e chineses, conversando diretamente, caiam em si.

O Brasil se preparou para um mundo fechado desde os anos 30. Só que o mundo se abriu a partir dos anos 50, e nós perdemos esse bonde. A Ásia enriqueceu apostando na globalização; nós ficamos mais ou menos no mesmo lugar. A abertura econômica é, de todas as reformas, a que menos andou. Ficou solteirona. Ninguém quer saber dela.


18- Pergunta: Nossa dependência da China é uma vulnerabilidade?

Resposta: Começo discordando do vocabulário. Ter relações comerciais não é depender. Quanto maior o grau de abertura, menos vulnerável o país é. A gente faz exatamente o contrário há muitos anos.


19- Pergunta: O avanço industrial chinês ameaça a indústria brasileira?

Resposta: Sim e não. A produção industrial moderna é cada vez mais internacional — quem fabrica com qualidade e competitividade compra os melhores insumos do mundo. O melhor exemplo é a Embraer: tem índice de nacionalização pequenininho e é líder global justamente por ser aberta. Se pudéssemos importar mais, poderíamos ser competitivos em outros setores de alta densidade tecnológica. Mas essa conversa de autossuficiência e vulnerabilidade nos impede disso.


20- Pergunta: O Brasil perdeu a janela histórica de industrialização sofisticada?

Resposta: Perdemos a janela da globalização — isso sim. Mas as janelas vão aparecendo. A próxima tem a ver com tecnologia, inteligência artificial, dados. O Brasil tem bons fundamentos para participar disso — há casos de muito sucesso no âmbito de tecnologia que poderiam nos tornar líderes nessa próxima etapa. Não perdemos, mas se ficarmos olhando para o retrovisor, vamos perder, igual perdemos a globalização.


21- Pergunta: Há espaço para o Brasil se beneficiar da reorganização das cadeias produtivas globais?

Resposta: Sem dúvida. O Brasil tem algo em torno de um terço do PIB produzido por empresas estrangeiras — uma presença expressiva. O problema é que essas filiais participam muito pouco do comércio exterior, porque a orientação histórica de autossuficiência exige níveis de nacionalização muito elevados. Se não podem importar, não podem exportar, e ficamos fora das cadeias globais de valor. É um erro.


22- Pergunta: Como países emergentes como o Brasil podem se preservar no meio da disputa entre EUA e China?

Resposta: Não é uma disputa nossa. Temos que ter relações econômicas adultas com ambos. A China era emergente não tanto tempo atrás e é, em si, um exemplo de como se transita dessa condição para grande potência. Há muito a aprender e a transacionar com ela, assim como com americanos, europeus e japoneses.


A inteligência artificial pode aprofundar a desigualdade entre países desenvolvidos e emergentes, ou o Brasil tem chance de usar essa transformação a seu favor?

Ambas as coisas são possíveis. O progresso tecnológico não aprofunda desigualdades de forma determinística — ao contrário, o progresso melhora todo mundo, mesmo que uns mais do que outros. O Brasil tem oportunidades abertas na economia digital. A regulação de moeda eletrônica feita em 2013 foi muito bem-feita; daí vieram bancos digitais de sucesso e o Pix. Tem mais para acontecer. A inteligência artificial é mais uma variante desse caminho. Temos muita condição de tirar proveito.


O senhor continua otimista com o Brasil?

Sim, com certeza. Residente do Rio de Janeiro, torcedor do Botafogo — o que há de mais otimista?



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