Lula fecha acordos com Coreia do Sul para a abertura de novos mercados ao Brasil
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- Lula e Lee Jae‑Myung se encontraram em 27/07 no Palácio da Alvorada, Brasília, e anunciaram a criação de um grupo de trabalho para retomar as negociações do acordo Mercosul‑Coreia do Sul, com Geraldo Alckmin coordenando o lado brasileiro.
- Foi pactuada a visita de uma missão sanitária sul‑coreana ao Brasil em agosto para avaliar frigoríficos nacionais.
- Os dois países assinaram cinco memorandos de entendimento em áreas estratégicas e ampliaram a cooperação em minerais críticos, visando diversificar o comércio bilateral de US$ 11 bi.
- Os acordos buscam abrir novos mercados para empresas brasileiras e coreanas, reduzindo a dependência das tensões tarifárias com os Estados Unidos.
Os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Lee Jae-Myung se reuniram nesta segunda-feira (27) no Palácio da Alvorada, em Brasília, e anunciaram a criação de um grupo de trabalho para acelerar as negociações de um acordo comercial entre o Mercosul e a Coreia do Sul, além da visita de uma missão sanitária sul-coreana ao Brasil em agosto para avaliar frigoríficos brasileiros. Os dois países também assinaram cinco memorandos de entendimento em áreas estratégicas e ampliaram a cooperação em minerais críticos, num movimento que busca diversificar o comércio bilateral, hoje em torno de US$ 11 bilhões, diante das tensões tarifárias com os Estados Unidos.
Acordos e negociações
O principal anúncio da visita de Estado foi a criação de um grupo de trabalho bilateral para identificar pontos de sensibilidade e retomar as negociações de um acordo comercial entre o Mercosul e a Coreia do Sul. O vice-presidente Geraldo Alckmin coordenará o grupo pelo lado brasileiro. “Decidimos criar um grupo de trabalho que vai identificar sensibilidades dos dois lados e evitar que elas sejam um empecilho para a retomada das negociações de um acordo do Mercosul com a Coreia”, afirmou Lula em declaração à imprensa após o encontro.
O presidente sul-coreano Lee Jae-Myung foi além e classificou o acordo como urgente. “No momento em que há muitas incertezas no âmbito comercial, o acordo entre Brasil e Coreia não pode mais esperar. Ele é para agora”, disse. Para ele, o tratado abrirá oportunidades para empresas coreanas no mercado sul-americano e, ao mesmo tempo, dará ao Brasil uma nova rota de acesso ao mercado asiático via Coreia do Sul.
Além do grupo de trabalho, os dois países assinaram cinco memorandos de entendimento nas áreas de educação, energia, tecnologia industrial, atividades espaciais e esportes. Os documentos são considerados um passo preliminar para acordos formais e têm como objetivo ampliar a cooperação em setores estratégicos para ambos os países. No campo energético, o foco recai sobre biocombustíveis e a transição para fontes mais limpas. Na área espacial, a Agência Espacial Brasileira e a Administração Aeroespacial da Coreia firmaram cooperação que inclui o Centro de Lançamento de Alcântara, no Maranhão. A cooperação em minerais críticos também foi ampliada, com o objetivo de criar, nas palavras de Jae-Myung, “uma base estável de oferta” ao longo de toda a cadeia de suprimentos.
Exportação de carne
Um dos pontos de maior interesse prático para o agronegócio brasileiro saiu da reunião com prazo definido: uma missão sanitária sul-coreana virá ao Brasil em agosto para avaliar frigoríficos brasileiros. A visita é condição necessária para que a Coreia do Sul libere a importação de carne bovina brasileira, negociação que se arrasta há 17 anos sem conclusão.
O presidente Lee Jae-Myung sinalizou que a questão vai além do comércio. Ele mencionou a segurança alimentar como um dos fatores que tornam o Brasil um parceiro estratégico para a Coreia do Sul, o que indica que a demanda por proteína animal de origem brasileira tem peso político além do econômico. A avaliação sanitária de agosto será, portanto, o próximo passo concreto de um processo longo: se os frigoríficos forem aprovados, abre-se caminho para a formalização das exportações a um mercado consumidor de alta renda e com forte demanda por carne bovina importada.
Contexto geopolítico
A aproximação entre Brasil e Coreia do Sul não ocorre no vácuo. O Brasil enfrenta tensões tarifárias com os Estados Unidos, um de seus principais parceiros comerciais, e tem buscado ampliar acordos bilaterais e via Mercosul para reduzir essa dependência. O Mercosul já fechou acordos com a União Europeia e com os quatro membros da Associação Europeia de Livre Comércio, e as negociações com a Coreia do Sul seguem essa lógica de diversificação. Na mesma manhã da reunião com Jae-Myung, Lula conversou por telefone com o presidente chinês Xi Jinping e afirmou apoio ao avanço das negociações de um possível acordo entre a China e o Mercosul.
O comércio bilateral entre Brasil e Coreia do Sul somou cerca de US$ 11 bilhões em 2025, mas Lula reconheceu que o número “ainda está abaixo do potencial das duas economias”. A Coreia do Sul enxerga no Mercosul uma porta de entrada para o mercado sul-americano; o Brasil, por sua vez, vê na Coreia uma plataforma para o mercado asiático. A parceria estratégica entre os dois países foi elevada de patamar durante a visita de Lula a Seul, em fevereiro deste ano, e a visita de Estado de Jae-Myung a Brasília representa o aprofundamento desse movimento. Os dois presidentes também fizeram questão de incluir na agenda uma dimensão política: defenderam a democracia e a solução pacífica de conflitos, com Lula mencionando ataques de extremistas e Jae-Myung reforçando a importância da paz no cenário internacional.
A criação do grupo de trabalho e a missão sanitária prevista para agosto representam os avanços mais concretos da visita. Se a avaliação dos frigoríficos for bem-sucedida, o Brasil poderá, pela primeira vez em quase duas décadas de negociação, exportar carne bovina regularmente para a Coreia do Sul, com impacto direto no agronegócio e na balança comercial. A diversificação de parceiros também tem valor estratégico imediato: reduz a exposição brasileira às oscilações da política comercial norte-americana, cujas tarifas já pressionam setores exportadores.
O que não apareceu nas declarações oficiais, nos memorandos assinados nem nos discursos dos dois presidentes foi qualquer menção a critérios de sustentabilidade ambiental vinculados à expansão da exportação de carne bovina. Não houve referência ao impacto da pecuária intensiva sobre biomas brasileiros, nem a exigências de rastreabilidade ambiental como condição para o acesso ao mercado coreano. A omissão é relevante: o Brasil é signatário de compromissos climáticos internacionais, e a abertura de novos mercados para a carne pode intensificar a pressão sobre recursos naturais sem que haja, ao menos no enquadramento oficial dessas negociações, um contraponto explícito sobre práticas de produção sustentáveis. Acordos comerciais que ignoram essa dimensão tendem a tratar o problema ambiental como externalidade, e não como variável da equação.
