Estados Unidos enviam ajuda humanitária a Cuba, mas mantêm asfixia energética e pressão econômica
O primeiro carregamento de ajuda humanitária prometido pelo governo dos Estados Unidos em meados de maio chegou a Havana nesta terça-feira (21). Trata-se de um envio inicial de 18 toneladas, referentes ao programa de assistência humanitária de até 100 milhões de dólares, cujos recursos serão repartidos pela Igreja Católica.
A destinação ficará a cargo da Cáritas Cuba, que informou, em comunicado, que “o envio inicial inclui kits de alimentos e higiene que beneficiarão 700 famílias da Arquidiocese de Havana, cuja distribuição será realizada segundo os critérios de vulnerabilidade definidos para esse tipo de ajuda”.
Além disso, a organização explicou que a entrega “será realizada por voluntários das comunidades paroquiais, que já estão organizados para garantir a eficiência do processo”.
Estiveram presentes na cerimônia de recebimento da doação o cardeal Juan de la Caridad García Rodríguez, arcebispo de Havana; a diretora da Cáritas Cuba, Carmen María Nodal Martínez; o diretor da Cáritas Havana, Ángel Miguel Gutiérrez Valdivia; além de representantes das autoridades governamentais.
Segundo informou o subsecretário de Estado para Assistência Exterior, Assuntos Humanitários e Liberdade Religiosa dos Estados Unidos, Jeremy Lewin, o programa prevê beneficiar 196 mil famílias com futuros envios por via aérea e marítima.
Por sua vez, em comunicado, o Ministério do Comércio Exterior e do Investimento Estrangeiro (Mincex) afirmou que, embora “Cuba não se oponha a esse tipo de ajuda, desde que beneficie seu povo”, Havana considera que “essa assistência contrasta com a realidade da punição coletiva” imposta pelo bloqueio dos Estados Unidos.
Asfixia econômica e crise humanitária
A chegada do primeiro carregamento ocorre em um contexto de intensificação das agressões econômicas de Washington contra Cuba, que têm provocado uma grave deterioração da situação social no país caribenho.
A falta de energia paralisou, em grande medida, a atividade econômica cubana. Segundo estimativas da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), o Produto Interno Bruto (PIB) do país deve cair 6% neste ano.
A situação deteriorou praticamente todos os aspectos da vida social. Nos lares, a escassez no fornecimento de energia elétrica se traduz em apagões que, em algumas regiões, ultrapassam 48 horas de duração.
Na área da saúde, segundo dados oficiais, a taxa de sobrevivência de crianças com câncer caiu de 85% para 65%, uma redução de 20 pontos percentuais em relação aos níveis registrados antes da asfixia energética. Isso significa que duas em cada dez crianças que antes conseguiam superar a doença com o tratamento adequado agora já não conseguem, devido à falta de recursos nos hospitais.
O bloqueio energético contra Cuba se intensificou no fim de janeiro, quando o governo dos Estados Unidos emitiu uma ordem executiva por meio da qual ameaçou impor sanções a qualquer país que venda ou forneça petróleo à ilha. Desde então, Cuba — que produz apenas cerca de 35% do petróleo de que necessita para gerar eletricidade — não conseguiu importar combustível suficiente para manter em funcionamento o sistema elétrico nacional.
Paralelamente à asfixia energética — denunciada por especialistas em direitos humanos da ONU como uma grave violação dos direitos humanos —, Washington ampliou as chamadas sanções secundárias contra entidades e empresas não estadunidenses que mantêm relações comerciais com o Estado cubano. Essas medidas provocaram a retirada de empresas ligadas a setores estratégicos, como o turismo e a exploração mineral, gerando perdas milionárias para a já fragilizada economia cubana.
Junto com a escalada das agressões econômicas, o governo dos Estados Unidos também reiterou ameaças de uma possível incursão militar na ilha.
No início de junho, especialistas independentes em direitos humanos das Nações Unidas (ONU) afirmaram que a pressão exercida pelos Estados Unidos contra Cuba reproduz práticas associadas ao período colonial, viola princípios fundamentais do direito internacional e representa uma ameaça à soberania da ilha.
