Cabras adoram bater cabeças umas nas outras, mas isso pode causar danos
Um estudo publicado pela Revista Science apontou que as cabras que dão cabeçadas em si mesmas causam lesões cerebrais traumáticas. A análise investigou se a prática de cabeçadas repetitivas em cabras está associada a marcadores comportamentais, fisiológicos e histológicos de neurodegeneração. Descoberta pode analisar a relação entre as cabeçadas dos animais e doenças em humanos.
Os pesquisadores encontraram sinais precoces de neurodegeneração em cabras que praticavam cabeçadas com apenas 1 ano de idade, conforme relatam em um artigo pré-publicado no bioRxiv neste mês. As descobertas, segundo eles, sugerem que as cabras podem ser um modelo animal útil para estudar a ligação entre traumatismos cranianos e a neurodegeneração observada em humanos.
Para o estudo, a equipe adquiriu três cabras machos de 6 meses de idade de fazendas e as transferiu para uma faculdade de agronomia próxima, onde câmeras as filmaram por 6 meses para monitorar suas cabeçadas. Mensalmente, os pesquisadores coletaram amostras de sangue, saliva e fluido cerebral para procurar biomarcadores de lesão cerebral e, no início e no final do estudo, realizaram exames de tomografia por emissão de pósitrons (PET-RM) nos cérebros dos animais para detectar qualquer dano estrutural.
Ao longo de seis meses, os três animais deram um total de 227 cabeçadas por dia. Ao final do estudo, as cabras, com apenas cerca de um ano de idade, não apresentaram sinais de danos cerebrais extensos nos exames de imagem, nem comprometimento da memória ao percorrer um labirinto simples.
No entanto, tudo indicava que haviam sofrido uma lesão cerebral leve: alguns biomarcadores excederam as concentrações normais em humanos saudáveis. Quando a equipe sacrificou os animais e examinou seus cérebros, também encontrou células imunológicas ativas e proteínas anormais que não estavam presentes em duas cabras mais jovens.
A lesão cerebral traumática (LCT) é uma característica marcante de doenças neurodegenerativas como a doença de Alzheimer e a encefalopatia traumática crônica.
Modelos animais de pequeno porte têm sido utilizados para estabelecer biomarcadores clinicamente relevantes de neuropatologia. No entanto, apresentam diferenças anatômicas significativas em relação aos humanos e são afetados por manipulações experimentais artificiais, o que os torna frequentemente inadequados para o estudo. Assim, há uma necessidade de modelos animais mais diversos e relevantes para a translação clínica, para compreender o início e o desenvolvimento da doença.
Apesar das limitações identificadas, as cabeçadas em cabras oferecem um sistema único e biologicamente relevante para o estudo dos efeitos iniciais de lesões cerebrais subclínicas repetitivas, e o aprofundamento dos estudos sobre esse modelo tem o potencial de reduzir a lacuna translacional na pesquisa em neurodegeneração.
