CNDH aciona ONU e FIFA contra racismo na Copa do Mundo e cobra punição; ataques cresceram 33%
O Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) do Brasil pediu à Organização das Nações Unidas (ONU) e à FIFA que atuem em conjunto contra o que classificou como “padrão transnacional de racismo” praticado ao longo da Copa do Mundo, nos Estados Unidos, México e Canadá.
A entidade justificou o pedido ao mencionar, entre outros, o caso contra o atacante francês Kylian Mbappé. Na disputa pela artilharia da copa, o astro da seleção francesa foi alvo de insultos racistas vindos de autoridades, como a senadora paraguaia, Celeste Amarilla, e o ex-primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy.
Em comunicado enviado à imprensa, a entidade brasileira solicitou que os países-sede, a FIFA e a ONU investiguem os casos, responsabilizem os autores dos insultos e, por fim, estabeleçam medidas de reparação às vítimas.
O CNDH mencionou dados da própria FIFA para ilustrar a gravidade do contexto da Copa do Mundo 2026. De acordo com os dados do Sistema de Monitoramento da FIFA, só na primeira fase do torneio 89 mil das mais de seis milhões de mensagens rastreadas continham conteúdos abusivos, incluindo racismo.
O número representa um aumento de 33% no volume de publicações e comentários injuriosos em relação à mesma fase da Copa de 2022. Segundo a entidade, 11% das mensagens ofensivas tinham caráter racista.
“A Copa do Mundo reúne milhões de pessoas e deveria representar o encontro entre povos e culturas”, afirmou Ivana Leal, presidenta do CNDH
Ao longo do evento, foram identificados casos de racismo praticados por comentaristas esportivos, ex-jogadores, treinadores e autoridades políticas. Entre os episódios, a mais emblemática foi a tese repetida por diversas pessoas a respeito da nacionalidade dos jogadores da França.
Em sua participação no É de Manhã, da Rádio Brasil de Fato, o historiador e professor Diogo Xavier avaliou que o racismo estrutural se manifesta de maneira global e perniciosa. Muitas vezes, por estar no contexto do futebol, ataques racistas são encarados como uma “brincadeira”, como foi o caso do canto criado pela torcida argentina.
“É uma música dos torcedores argentinos dizendo que os jogadores franceses vêm todos de Angola, que também é uma burrice histórica, porque Angola foi colônia portuguesa e não francesa. Nem o estudo historiográfico tem sobre o que é colonialismo”, criticou.
Xavier afirmou que o racismo é bastante impulsionado por movimentos internos do país, no caso da França, a extrema direita.
“A gente vai ter uma pressão, inclusive, muito dentro da França. Esse racismo, primeiro, vem de dentro, muito representado pela extrema direita, sobretudo lá atrás pelo Jean-Marie Le Pen e depois pela Marine Le Pen. Ou seja, essa representação é muito racista dentro da França e se expressa na negação da identidade francesa para pessoas negras, que são descendentes de africanos. Dos 26 jogadores que estão defendendo a França, 23 são descendentes de pessoas que vieram das ex-colônias e nasceram em território francês”, explica.
Lei Vini Jr
A Copa do Mundo 2026 também é um marco pela implementação de um regra inédita de cobate ao racismo dentro de campo. É a Lei Vini Jr, que recebe esse nome pelo fato de o jogador brasileiro tem uma atitudade combativa contra o racismo dentro e fora de campo.
Nesta edição, a regra foi aplicada duas vezes contra os jogadores Miguel Almirón, do Paraguai, e Piero Hincapié, do Equador. Ambos por taparem a boca durante uma discussão dentro de campo.
O gesto foi proibido após o jogador argentino do Benfica, Gianluca Prestianni, proferir ofensas racistas contra o brasileiro Vinícius Júnior, que defendia o Real Madrid, da Espanha, durante partida da Liga dos Campeões.
O atleta argentino foi expulso após o árbitro acionar o protoclo antirracismo. Além disso, Prestianni foi punido pela Uefa com seis partidas afastado dos gramadas por “conduta discrminatória”.
