Pesquisa revela força da economia solidária em MG, mas aponta desafios para ampliar renda

Pesquisa revela força da economia solidária em MG, mas aponta desafios para ampliar renda


Em um país marcado por profundas desigualdades sociais, milhares de trabalhadores e trabalhadoras constroem formas coletivas de produzir, comercializar e gerar renda. Em Minas Gerais, essa realidade ganhou um retrato inédito a partir do Diagnóstico Socioeconômico e Produtivo dos Empreendimentos Econômicos Solidários, que mapeou 208 grupos distribuídos em 75 municípios do estado e revelou tanto a potência quanto as dificuldades enfrentadas pela Economia Popular Solidária (EPS).

O levantamento, elaborado pela Cáritas Regional Minas Gerais em parceria com o Instituto Ponte de Assessoria a Projetos, mostra que a economia solidária está presente em diferentes territórios mineiros, das periferias urbanas às comunidades rurais, reunindo quase 4 mil pessoas em iniciativas que apostam na autogestão, na cooperação e na distribuição coletiva da renda. Ao mesmo tempo, o estudo evidencia obstáculos históricos, como a informalidade, a dificuldade de acesso ao crédito e a falta de infraestrutura adequada para ampliar a produção.

:: Leia o relatório completo :: 

A pesquisa foi realizada entre fevereiro e agosto de 2025 e combinou questionários on-line, entrevistas remotas e visitas presenciais aos empreendimentos. Ao todo, foram ouvidos 208 grupos, número que representa cerca de 17,5% dos empreendimentos identificados no último Mapeamento Nacional da Economia Solidária em Minas Gerais, realizado entre 2009 e 2013.

Mulheres e população negra sustentam a economia solidária

Os dados revelam que a Economia Popular Solidária em Minas é majoritariamente feminina. Dos 3.919 participantes identificados pelo diagnóstico, 65% são mulheres. A pesquisa também aponta uma forte presença da população negra, com cerca de dois terços dos grupos formados predominantemente por pessoas pretas e pardas.

Embora a média seja de 19 integrantes por empreendimento, esse número é influenciado por poucos grupos de grande porte, ligados principalmente à agricultura familiar, assentamentos e povos e comunidades tradicionais. Metade dos empreendimentos possui até cinco integrantes, com destaque para coletivos de artesanato, cultura e produção de alimentos.

Outro dado que chama atenção é a estrutura de funcionamento desses grupos. Quase metade desenvolve suas atividades na casa de um ou mais integrantes, evidenciando criatividade e capacidade de adaptação, mas também a carência de espaços próprios para produção, armazenamento e comercialização.

Informalidade 

O diagnóstico mostra que mais da metade dos empreendimentos (52,4%) atua de forma informal, sem registro jurídico. As associações representam 25% dos grupos, enquanto 15,4% utilizam o modelo de Microempreendedor Individual (MEI) e apenas 6,7% funcionam como cooperativas.

Segundo a pesquisa, a informalidade limita o acesso a políticas públicas, financiamentos e mercados institucionais, além de dificultar a consolidação dos empreendimentos. Embora o MEI tenha surgido como alternativa para parte dos trabalhadores, o modelo atende principalmente ao empreendedor individual e não contempla plenamente a lógica coletiva da economia solidária.

Produção, feiras e dificuldades financeiras

A produção de bens é a principal atividade desenvolvida pelos grupos. Quase 65% atuam na fabricação e comercialização de produtos como alimentos, artesanato e hortaliças. Outros 30% concentram esforços na organização da comercialização coletiva.

As feiras seguem como principal canal de vendas, respondendo por cerca de 65% das formas de comercialização identificadas. Apesar de serem fundamentais para a geração de renda, muitas delas não acontecem semanalmente, o que torna o faturamento irregular e reforça a necessidade de ampliar outros mercados.

O cenário financeiro também preocupa, já que apenas um terço dos empreendimentos consegue manter as contas em dia e remunerar todos os participantes. Os demais convivem com diferentes graus de desequilíbrio financeiro: 34,8% afirmam não conseguir pagar nem as despesas nem as pessoas do grupo, enquanto outros 25,2% conseguem quitar as contas, mas não remuneram todos os integrantes.

Crédito, estrutura e assistência técnica 

A dificuldade de acesso ao crédito aparece entre os principais entraves ao fortalecimento da EPS. Embora quase 70% dos grupos afirmem precisar de financiamento, muitos relatam que as linhas disponíveis não dialogam com sua realidade ou exigem documentação incompatível com empreendimentos informais.

A ausência de infraestrutura também pesa, uma vez que apenas cerca de 15% dos grupos possuem sede própria. A maioria trabalha em espaços improvisados, o que limita a capacidade de produção e dificulta o atendimento de exigências sanitárias e comerciais.

Outro desafio apontado é a falta de apoio técnico. Segundo o levantamento, 43,8% dos empreendimentos não receberam qualquer tipo de assessoria no último ano. Além disso, muitas lideranças acumulam funções administrativas, produtivas e comerciais, enquanto 38% dos grupos afirmam ter dificuldades para encontrar pessoas com experiência em vendas.

O estudo ainda identifica sinais de envelhecimento dos coletivos e baixa participação de jovens, fator que pode comprometer a continuidade de parte das iniciativas nos próximos anos.

Geração de renda e fortalecimento comunitário

Apesar das dificuldades, os grupos destacam importantes conquistas alcançadas por meio da economia solidária. A principal delas é a geração ou ampliação da renda dos participantes, seguida pelo fortalecimento do trabalho coletivo, da gestão democrática e da integração entre os integrantes.

Também aparecem como resultados relevantes o fortalecimento do compromisso social, o aumento da consciência política e melhorias para as comunidades onde os empreendimentos estão inseridos.

Para a Cáritas Regional Minas Gerais, o diagnóstico reforça que a economia solidária permanece como uma importante estratégia de geração de trabalho, renda e organização comunitária. 

Além de produzir um panorama atualizado sobre o setor, o estudo dará origem a novas pesquisas desenvolvidas em parceria com a Universidade Federal de Viçosa (UFV), por meio da Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares (ITCP-UFV), para ampliar o conhecimento sobre a realidade dos empreendimentos e subsidiar políticas públicas voltadas ao fortalecimento da EPS.





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