‘Postura neocolonial’: analistas criticam apoio de Milei à censura de símbolos das Malvinas na Copa

‘Postura neocolonial’: analistas criticam apoio de Milei à censura de símbolos das Malvinas na Copa


A Argentina passa pela Inglaterra e garante vaga na final da Copa do Mundo contra a Espanha. A semifinal emocionante aconteceu nesta quarta-feira (15) e terminou com placar de 2 a 1 de virada. A rivalidade entre as seleções, no entanto, vai para além dos gramados por causa de uma disputa de décadas sobre as Malvinas.

A Fifa, inclusive, havia proibido a entrada de bandeiras, camisetas e cartazes com referência à ilha, localizada no extremo sul da América do Sul. Em 1965, a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou uma resolução que classificou as Malvinas como território em “situação colonial pendente”. As negociações são costumeiramente ignoradas por Londres. O presidente da Argentina, Javier Milei, chegou a elogiar a censura da Fifa.

Para o historiador e analista de geopolítica Miguel Stédile, o episódio histórico se soma a outros fatores ocorridos nesta edição do mundial, que é considerado um dos mais politizados dos últimos tempos. “A Copa acontece nos Estados Unidos de Donald Trump e tem todas as questões da Fifa. Tivemos que assistir como o Irã foi tratado nos EUA, as manifestações do Egito pró-Palestina”, destaca durante O Estrangeiro, o podcast de política internacional do Brasil de Fato.

Após mandar a Inglaterra para casa nesta quarta-feira, a seleção argentina abriu uma faixa com os dizeres: “As Malvinas são argentinas”. Ainda assim, avalia Stédile, o duelo considerado clássico chega menos politizado do que em 1986, quando os argentinos venceram os ingleses pouco tempo após a derrota militar nas Malvinas. “Serviu, de certa forma, como uma revanche.”

Miguel Stédile resume o momento político dos dois países que se enfrentaram em campo na semifinal. “Eu acho que convém muito a um governo Milei ter uma seleção que unifique o país num momento de crise econômica, como o que a gente está vivendo. E a Inglaterra é um país que tem uma monarquia no século 21. Então, cheira alguma coisa anterior à naftalina, para além do seu passado colonial. É um país que está numa situação geopolítica bastante secundária, desde que eles saíram da União Europeia. Quer dizer, isso não deu mais protagonismo ao país; eles continuam sendo uma espécie de braço secundário dos Estados Unidos”, avalia.

Para o jornalista argentino Gabriel Vera Lopes, o Gabo, correspondente do BdF em Cuba, a postura de Milei é de “administrador neocolonial”. “É um governo que tem uma aliança estratégica com as potências imperiais dos Estados Unidos, da Inglaterra e do Estado de Israel. Então não é surpresa isso. Depois, eu acho que tem um problema simbólico e tem um problema político. O problema político, diplomático, é que a reivindicação diplomática da Argentina pela soberania das Malvinas começou em janeiro de 1833, que foi um momento em que a Inglaterra ou o Reino Unido invadiu as Malvinas. Tem quase 200 anos de luta pela soberania das Malvinas. Então, não aceitar que a torcida argentina possa usar um símbolo nacional durante o jogo, que é um símbolo de identidade, que é um símbolo de luta anticolonial, é uma medida de subordinação imperialista e uma medida diplomática muito complexa, porque é aceitar que não é uma reivindicação legítima da Argentina”, define.

Admirador confesso de Margaret Thatcher, primeira-ministra britânica que comandou a vitória da Inglaterra na Guerra das Malvinas, Milei chegou a defender a autodeterminação da população local das ilhas, uma posição que contraria a tradição diplomática histórica do Estado argentino. Gabo ressalta que as Malvinas são um dos símbolos mais reproduzidos na cultura popular argentina, presente em tatuagens e em muros pelo país, por exemplo. “Proibir é uma coisa bem pesada para a história e a identidade argentina.”

O programa também abordou os casos de racismo que dominaram a Copa do Mundo, reforçados por um dos próprios países-sede, os EUA. Houve caso cometido por um torcedor argentino no jogo contra o Egito e uma canção criada pela torcida, mas também cantada pelos jogadores, teria conteúdo discriminatório.

Para Gabriel Vera Lopes, o debate sobre o racismo na sociedade argentina tem crescido, mas a extrema direita no poder utiliza esses discursos como uma “força identitária”, o que dificulta o combate a atitudes discriminatórias que também se refletem no ambiente do futebol. “Ao mesmo tempo que tem esse racismo muito forte nos setores que têm muita influência na sociedade, porque estão nos meios de comunicação, estão na política, estão nas universidades, estão em diferentes setores de poder da sociedade, ao mesmo tempo, os setores populares da Argentina têm uma forte identificação com a ideia de ser negro. Porque é o jeito de desprezar o que a oligarquia tem para falar dos setores populares da Argentina”, explica.

Confira o programa completo no link abaixo:

Para ouvir e assistir

O podcast O Estrangeiro vai ao ar semanalmente às quartas-feiras às 15h, disponível nos canais do Brasil de Fato.





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