Como o dinheiro público financia shows de artistas-fazendeiros
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- Entre jan 2024 e mar 2026, 100 artistas receberam mais de R$ 5 bi em cachês de prefeituras e governos estaduais.
- Natanzinho Lima, Henry Freitas e Wesley Safadão lideram contratos bilionários firmados sem licitação.
- O dossiê “Farras”, do De Olho nos Ruralistas, analisou 20 mil contratos e apontou oligopólio no setor de eventos.
- R$ 483,78 mi foram destinados a exposições agropecuárias, rodeios, cavalgadas e vaquejadas, revelando vínculo com o agronegócio.
A retórica da extrema direita brasileira que há anos ataca a Lei Rouanet, além de mobilizar parte do eleitorado, serve para ocultar o maior ralo de dinheiro público da cultura nacional. Entre janeiro de 2024 e março de 2026, um seleto grupo de cem artistas acumulou mais de R$ 5 bilhões em cachês pagos por prefeituras e governos estaduais. Desse montante, nomes como Natanzinho Lima, Henry Freitas e Wesley Safadão lideram uma fatia bilionária de contratos firmados sem qualquer licitação.
Os dados alarmantes compõem o dossiê “Farras: como os shows com dinheiro público conectam artistas, bets, política e agronegócio”, produzido pelo De Olho nos Ruralistas. Fruto de seis meses de investigação em mais de 20 mil contratos, o relatório escancara a formação de um oligopólio no setor de eventos, frequentemente bancado por municípios que enfrentam crises financeiras ou decretos de emergência.
Segundo o levantamento, a indústria dos shows bancados por recursos públicos funciona quase como uma extensão do agronegócio. Um montante de R$ 483,78 milhões foi destinado exclusivamente a exposições agropecuárias, rodeios, cavalgadas e vaquejadas.
A disparidade de investimentos evidencia o caráter ideológico dos repasses. Enquanto o circuito do agronegócio consome centenas de milhões, eventos dedicados à agricultura familiar receberam ínfimos R$ 2,66 milhões no mesmo período. É uma proporção de 56 vezes mais recursos para o agronegócio. Como define o relatório, o sistema funciona como uma “imensa colheitadeira a serviço de uma determinada ideologia”.
“O alinhamento da música sertaneja com o agronegócio se manifesta nas letras, na estética — com direito à influência do country estadunidense — e no próprio circuito cultural“, aponta o dossiê.
Artistas-fazendeiros e a aliança política
O dinheiro público não apenas financia a estética do “agronejo”, mas vai direto para o bolso de grandes proprietários. “Muitos artistas e produtores do top 40 são fazendeiros e/ou têm outras atividades ligadas ao agronegócio; em particular, o circuito de vaquejadas”, diz o levantamento. Amado Batista, por exemplo, possui quase 39 mil hectares de terras distribuídos em oito fazendas, enquanto Leonardo é dono de 11 mil hectares, incluindo a Fazenda Talismã.
Outro nome destacado é o de Zezé de Camargo. “Com um patrimônio estimado em R$ 680 milhões, o cantor bolsonarista é dono da Fazenda É o Amor, um imóvel de 1.234,30 hectares em Araguapaz (GO) que leva o nome de seu principal sucesso. Lá ele cria Nelore PO (Puro de Origem) e cultiva soja”, aponta o relatório. “Ele atua ainda como ‘embaixador’ de empresas agropecuárias, como a Milagro, de nutrição animal, e a Roça Agronegócio, dona de 3 mil hectares de soja em Novo Mundo (MT).”
Essa engrenagem é azeitada por uma forte aliança política com uma convergência direta entre os artistas mais contratados e prefeituras comandadas por partidos de direita, como PSD, União Brasil e PP.
O dossiê denuncia ainda que grande parte desses gastos bilionários sequer está devidamente registrada no Portal Nacional de Contratações Públicas.
Confira as reportagens sobre o dossiê.
