Crise climática: Onda de calor faz Europa contabilizar mais de 10 mil mortos
00:00
A+
A-
- EuroMOMO, com apoio do Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças e da OMS, divulgou que a onda de calor na segunda quinzena de junho causou mais de 10 mil mortes em excesso na Europa Ocidental.
- O pico de mortalidade ocorreu entre 22 e 28 de junho, atingindo França, Espanha, Alemanha e Reino Unido, com 10.650 óbitos adicionais em uma semana.
- Mais de 9 mil das vítimas (cerca de 90 %) tinham 65 anos ou mais.
- Cientistas atribuem o evento ao aquecimento global provocado pela ação humana, descartando outros fatores como surtos de Covid‑19.
A rede europeia de monitoramento de mortalidade EuroMOMO, apoiada pelo Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças e pela Organização Mundial da Saúde (OMS), divulgou, nesta segunda-feira (13), dados extremamente preocupantes em relação ao clima.
Houve registro de mais de 10 mil mortes em excesso (diferença entre número total de óbitos registrados em um período e a quantidade de mortes historicamente esperada para aquele mesmo intervalo) na Europa Ocidental, durante a onda de calor da segunda quinzena de junho, com o pico concentrado entre os dias 22 e 28 do mês.
Mais de 9 mil das vítimas tinham 65 anos ou mais. Cientistas afirmam que o evento teria sido “praticamente impossível” sem o aquecimento global provocado pela ação humana, e especialistas descartam qualquer outro fator relevante, como surtos de Covid-19, para explicar o salto na mortalidade.
A EuroMOMO compila estatísticas nacionais de mortalidade de 27 países europeus e contabiliza mortes em excesso por todas as causas, não apenas as diretamente atribuídas ao calor.
No período entre 22 e 28 de junho, quando a onda de calor atingiu seu ápice na França, Espanha, Alemanha e Reino Unido, a rede registrou 10.650 mortes em excesso em uma única semana. Mais de 9 mil dessas mortes ocorreram entre pessoas com 65 anos ou mais, o que representa cerca de 90% do total.
O dado ganha ainda mais peso quando comparado ao período imediatamente anterior: nas oito semanas que antecederam a onda de calor, a mortalidade combinada nesses países ficou, em média, cerca de 500 mortes por semana abaixo dos níveis habituais.
O salto, portanto, não pode ser atribuído a um acúmulo de mortes represadas. França e Bélgica foram os únicos países a atingir o nível classificado como “excesso muito alto” na última semana de junho.
Na Bélgica, segundo o instituto de saúde pública Sciensano, o excesso de mortalidade foi o maior já registrado durante qualquer onda de calor desde o início da série histórica, em 2000. A EuroMOMO não divulga os números desagregados por país, mas a classificação por si só indica uma ruptura com qualquer padrão sazonal conhecido.
A ciência por trás do calor extremo
Para Lasse Vestergaard, médico-chefe do Instituto Statens Serum da Dinamarca, instituição que coordena a EuroMOMO, o volume de mortes não deixa margem para interpretações alternativas. “É difícil explicar esse alto excesso de mortalidade por qualquer outra causa que não seja o calor extremo”, afirmou Vestergaard.
O mecanismo pelo qual o calor mata é múltiplo e frequentemente subestimado. O calor extremo pode causar morte direta por hipertermia, mas também agrava doenças cardiovasculares e respiratórias preexistentes, aumentando o risco de infartos, acidentes vasculares cerebrais e insuficiência respiratória.
Idosos são particularmente vulneráveis porque sua capacidade de termorregulação é reduzida e porque concentram maior prevalência dessas condições crônicas. Esse perfil explica a concentração de mortes na faixa etária acima dos 65 anos.
Um estudo conduzido pelo Imperial College London, pelo Met Office do Reino Unido e pela London School of Hygiene & Tropical Medicine estimou que 2.700 pessoas morreram por causas relacionadas ao calor somente na Inglaterra e no País de Gales durante as ondas de calor de maio e junho, com 42% dessas mortes atribuídas ao calor adicional gerado pelo aquecimento global.
Cientistas afirmam, ainda, que a onda de calor do final de junho teria sido “praticamente impossível” na Europa sem as mudanças climáticas causadas pelo homem, que tornam esses eventos mais frequentes e mais intensos.
Impactos e a necessidade de políticas de adaptação
As mortes não foram o único sinal de que a Europa foi apanhada despreparada. A onda de calor interrompeu o fornecimento de energia, forçou o fechamento de escolas e deixou marcas físicas na infraestrutura: em Leipzig, na Alemanha, o asfalto derreteu ao redor dos trilhos de bonde e autoestradas “estouraram” pelo país.
A Organização Mundial da Saúde já havia alertado para a possibilidade de novas semanas de calor intenso e aumento da mortalidade no continente, sinalizando que o episódio de junho pode não ser um evento isolado.
O que os dados da EuroMOMO tornam difícil de ignorar é que a crise climática não mata de forma igualitária. Quando 90% das vítimas de uma onda de calor têm mais de 65 anos, o que está em jogo não é apenas um fenômeno meteorológico, mas a ausência de uma rede de proteção social capaz de amparar quem é mais vulnerável ao calor extremo.
Quais políticas públicas de adaptação climática e proteção social para idosos estão sendo implementadas ou discutidas nos países mais afetados, e se há desigualdade no acesso a mecanismos de resfriamento entre populações de baixa renda, são questões que os dados levantam, mas que ainda demandam apuração aprofundada junto aos governos europeus.
O que já está confirmado é que a ciência estabeleceu a causa, os números identificaram as vítimas preferenciais e a OMS sinalizou que há mais por vir. A pergunta que resta é política: quem será protegido na próxima onda?
