Episódio 3. Três cadeados e uma chave – Observador

Episódio 3. Três cadeados e uma chave – Observador



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O que aconteceu com o filho do Valbom é uma atrocidade, isso não é tema de dúvidas, mas agora a decisão do candidato, de muscular a sua presença pública perante o que lhe aconteceu, parece-me, sinceramente, um suicídio político.

Mas repara, há uma coisa que é impossível perceber: que o candidato, tendo em conta o que lhe aconteceu, se mantenha na campanha. Isto ninguém percebe. Deixar a família num plano secundário, ninguém percebe.

Repara, Luiz, ele até podia ficar em casa, mas desistir da campanha perante isto é, para todos os efeitos, uma coisa que faz sentido para a maioria das pessoas. Quer dizer, era o mínimo.

No estreito de Hormuz. Na atualidade política e depois da tomada de posição pública de Vicente Valbom em não desistir da sua campanha à Câmara Municipal de Lisboa, os efeitos da mesma conferência de imprensa fazem-se sentir nas sondagens. Relembramos que o filho de Vicente Valbom foi raptado e a Polícia Judiciária ainda não conseguiu grandes respostas.

Os números desta semana falam de uma descida de 10 pontos percentuais nas intenções de voto. Vicente Valbom está a cair a olhos vistos depois desta decisão de ser uma espécie de herói importuno.

Está bem, Paula, mas vais-me desculpar. Eu acredito, e acho que todos acreditamos, que sejam tempos bastante confusos para o candidato. Não consigo, ninguém consegue imaginar o que será estar naquela situação.

Sim, eu sei, tens razão nisso, não é nada disso que eu estou a dizer, não estou a pôr isso em causa. Aliás, eu acho que é precisamente por causa disso, por causa dessa situação terrível que o candidato está a passar, que devia, de facto, desistir da Câmara, concentrar-se na família, concentrar-se na situação do filho. Eu acho que isto é o que a grande maioria dos lisboetas acha neste momento. É um homem em desequilíbrio, tem uma situação terrível em mãos, está completamente desgastado pelo que se está a passar. E, por isso, pouco ou nada se pode esperar dele nesta altura. Acho mesmo que a desistência era a melhor solução.

Mas vamos ver. Se, milagrosamente, o caso tiver um desfecho positivo, como todos nós esperamos, a bem da vida do filho do Vicente Valbom e da família do candidato. Se isso acontecer, tendo em conta que Vicente Valbom sempre foi um candidato e um político que defendeu uma justiça muscular e reforçada, isso vai acabar por favorecê-lo, naturalmente, não achas?

Estou? Olha, eu preciso falar contigo sobre a campanha. Isto não está a resultar. Arranja-me um day time qualquer pra ele ir falar. Eu preciso tê-lo no ar esta semana. O da manhã? Ok. Na quatro é o das 10h30. Mas eu preciso que ele tenha pelo menos meia hora de conversa, sim, preciso. Sim, claro, ele tem que ter tempo pra mostrar que se importa com os lisboetas. E que é um tipo confiante e que acima de tudo confia na justiça. Está bem, mas menos de meia hora, não. E no da tarde, não temos mais tempo? Uma? Uma hora das 15h às 16h. Ok. Tu na quinta não tens mais convidados pra esse, pois não? Vocês não iam chamar cada um dos tipos que se candidata? Na semana que vem. Ok. Então, mas mete-me o Vicente esta quinta pra falar da família. Tu não queres saber. Semana que vem vai como candidato, agora vai como pai. Tá. Faz-me isso e liga-me. Beijo. Filipa, pode chegar aqui? Chama o Sílvio e a Teresa, venham aqui, 15 minutos, pode ser? Teresa, fecha a porta, se faz favor. É assim, muito rapidamente. Nós temos de dar a volta a isto, ok? Eu preciso que comecemos a sério nas redes a dar a volta a esta merda. A candidatura tem duas semanas pra recuperar e isso depende de quem? Depende de nós. Eu quero que as redes sociais virem a nosso favor e desmontemos isto de forma eficaz. Portanto, Silvio, por favor, faz um cronograma de posts. Nada de muito exaustivo, nada que canse, mas que seja na musse. Conteúdos pra o Instagram que agarrem. E por favor, pensa em qualquer coisa criativo, inovador. Eu não quero mais aqueles vídeos das pessoas a andar na rua a falar pra câmera. Não, essa trend já foi. Teresa, eu preciso que hoje à tarde me entregues uma estratégia pro TikTok. Vamos ganhar nas escolas, vamos ganhar os putos pra que cheguem à casa e ao jantar estão sempre a falar sobre nós e depois ganhamos os pais, ok? Eu quero saber que prejuízos é que andam a dar likes e quero que me chamem nomes fortes pra essa meta, que se associem a isto. Temos pouco tempo. Alguma dúvida? Então vá, bora!

“Happy birthday to you. Happy birthday to you. Happy birthday. Happy birthday to you”.

O Candidato Perfeito é um podcast de ficção para ouvir em oito episódios. Uma coprodução Coiote Vadio e Observador, da autoria de David Neto e Manuel Pureza. Com a voz de José Raposo, Tiago Teotónio Pereira, Madalena Almeida e a minha, Sara Matos. A música do genérico é de Artur Costa. Episódio três: três cadeados e uma chave.

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Queria um sumo de laranja e uma tosta de queijo. Mãe? Mãe, queres alguma coisa? Café? Descafeinado? Era mais um descafeinado, por favor. E um queque. Obrigada. Obrigada. Isto depois apita quando estiver, não é?

Sim, é só aguardar um pouco.

Ok, obrigada. Isto depois apita e eu vou lá buscar.

Eu sei como é que funciona.

Estás maldisposta?

Não estou nada. Tu ficas aqui enquanto eu vou à consulta ou vais à tua vida?

Fico, espero por ti e depois logo vemos onde vamos almoçar. Pode ser?

Fazemos antes assim: eu vou à consulta e depois tenho que ir ali tratar de umas coisas para a Anabela e por isso combinamos mais logo.

Mãe, mas por que não fazemos isso as duas? Eu tenho a tarde livre e podíamos perfeitamente fazer isso.

Filha, posso, por favor, ter um momento só para mim?

Sim.

Deixa-me estar um bocadinho.

Está bem.

“Mãe”, nada.

Está bem.

Já tivemos esta conversa. Eu sei que andas preocupada comigo e isso é muito querido da tua parte, mas eu não preciso que estejas sempre comigo. Eu não vou fazer nada, não te preocupes. Que estupidez, eu nem acredito que tenho que dizer isto. Filha, eu estou bem. A sério.

Mãe, estás a ser injusta. Até porque eu só estava a tentar perceber se-

Achas ou não achas que eu ando maluca?

Não.

Diz lá.

Não, Inês.

Diz. Diz lá, senão tens medo que eu me passe da cabeça.

Mãe, dá-me um segundo. Mãe, podes ter calma, se faz favor? Andas tensa, andas triste, andas preocupada e eu só te quero ajudar. O que ainda não percebeste? Olha, podemos só tomar o pequeno-almoço, por favor? Por favor. Porra!

Desculpa, filha.

Não, tem calma. Nós vamos dar a volta a isto, mãe, ok? Confia em mim.

Sim.

Sim?

Sim, filha.

Calma.

E o Zé?

Eu não quero falar disso, mãe.

Com essa história eu para aqui a chorar.

Está tudo bem. Chega, ok? Estás atrasada. Pira-te.

Sim. Eu ligo-te mais logo, pode ser?

Sim. Até já.

Até já.

Até já.

Estou?

Vicente, como está?

Inês, tudo bem contigo?

Alguma novidade?

Nada. Temos de ter paciência.

Eu sei o que se passa.

Hã?

Não se faça de estúpido comigo. Eu sei muito bem o que se está a passar. Como é que você consegue?

Mas consegue o quê?

Foi você que o raptou.

Inês, eu não te admito, ouviste bem? Mas tu és parva ou o quê?

Um senhor caiu ao Zé longe da vista por causa da campanha. Tinha medo que ele lixasse alguma coisa com os merdas dele.

Cala-te, ouviste? Cala-te imediatamente.

Eu já tinha achado estranha a prenda dele nos anos. Três semanas antes dos anos dele, o Vicente veio com aquela conversa das férias, mas eu na altura nem associei.

Passa aí a manteiga, por favor. Obrigado. Então, já pensaste no que queres para os teus anos?

Sei lá. Ainda faltam três semanas, pai.

Quando eras mais miúdo era mais fácil. Tua mãe acertava sempre. Agora, pronto, o jovem empreendedor é menos fácil de agradar.

Não sei. Não sei mesmo.

Eu já tenho prenda para ti.

Olha aí. Então, em frente ao meu pai, não.

Ei.

Que estúpido!

Olha, mesmo que quisesse alguma coisa, eu também já tinha algo em mente, mas preciso de te dizer já o que é.

Então vá.

Eu tenho reservados dois bilhetes para Bali, para ti e para a tua namorada, para uma estadia de um mês. Só que…

Só que?

Só que isto só é válido para uns dias depois dos teus anos e tenho o tempo mesmo contado. A Susana apanhou uma promoção que é de aproveitar. Só que eu não sabia se vocês queriam, se podiam.

O que quer em troca, pai?

Hã?

Tanta fruta assim é porque era alguma coisa em troca.

Estás a brincar comigo? Então já não posso dar uma prenda de anos ao meu filho?

Lamento estragar a surpresa, mas eu não vou poder ir contigo.

Então?

Um mês? Agora não consigo.

Se não fores, também não vou. Então a Sofia fica, vais tu e levas a tua irmã.

Sofia? Pai, estás feito. É a Inês, pai.

Inês, desculpa, Inês.

Não, faz mal.

Sim, o quê? E vou eu com a Pita? Alguma vez. Guarda lá a viagem que fazemos isso noutra altura.

Tu estás a recusar ir para Bali? Estás doente ou o quê?

É muito tempo, pai. Ir para Bali por menos de um mês também é estúpido como tudo. Portanto, fazemos assim: eu fico com a viagem, mas marco para outra altura. Pode ser?

Eu disse é que já não vai dar. Se não for agora, não posso usar as milhas.

O Guedes está lá fora à espera. Vou só ali à casa de banho e pedi-lhe cinco minutos. Venho já.

Mas é que pena esta coisa da viagem não dar, não é? Tu não consegues mesmo fazer-lhe a surpresa e eu mantenho isto reservado?

Não consigo mesmo, Vicente, não me leva a mal.

Eu pagava-vos tudo. Ele merece isso.

Obrigada, é muito tentador. Sim, mas eu não posso ir um mês. A minha mãe ficava sozinha.

Ela está doente, é?

Nada. Ela trabalha para si.

Para mim? Quem é?

Fátima Oliveira, Departamento de Contabilidade.

Tu és filha da Fátima, olha que giro.

Já tínhamos falado isto há uns tempos.

Desculpa, tens razão, provavelmente já tínhamos.

Sim.

Mas a tua mãe achas que ficava mal se estivesses longe três semanas?

Eu é que ficava. Eu. É mais isso.

É que era mesmo bom que ele fosse para fora, ia-lhe fazer bem, mas enfim.

Na altura, eu não percebi muito bem porque é que estava a insistir tanto naquela ideia da viagem. Nós nunca o tínhamos visto ser tão entusiasta com as viagens do Zé, mas agora percebo. Foi o Vicente que o raptou para ele desaparecer.

Estás maluca ou o quê?

Não é nada bom sentirmos a nossa vida em xeque, pois não? Foi o que você fez com a minha mãe, seu cabrão.

O quê?

Já não se lembra outra vez? Ela trabalhava para si na contabilidade. Só que você correu com ela, seu merda.

Mulher estúpida, se eu te apanho na rua, desfaço-te ao vestido.

Ou o Vicente me compensa bem pela merda que fez à minha mãe, ou eu mando o áudio que aqui tenho seu a insistir na viagem para toda a imprensa. Lembra-se? Lembra-se do áudio que me mandou? Filho da puta.

Inês, eu sou o pai do Zé. Consegui ver o teu número no telefone dele. Não estragues a surpresa, peço-te. Vê se consegues que a viagem aconteça. O Zé precisa de sair daqui para arejar a cabeça, para restabelecer energias. Eu pago tudo, já vos disse. Por favor, quando puderes, responde a esta mensagem. Ainda mantenho o voo reservado. O Zé ia gostar muito. E eu também.

Estás a dormir?

Não consegues dormir?

Eu preciso que me faças um favor.

O quê?

Espreitei lá para fora. Quando é que vês?

Só estou fino. Por quê?

Quando eu te disser, gires alto.

Para quê? Eles doem, matam-nos aos dois.

Mata o caralho. Hoje, ao almoço, saquei este garfo que tenho aqui. Quando o chamares, eu consigo espetar-lhe isto e tu sacas as chaves.

Estás maluco. A pensar, tu estás fraco como o caralho. Achas que alguma vez consegues armar-te em herói? Está mas é quieto, não contes comigo.

Ok. Tu é que sabes.

Porra! Foda-se! Vou morrer!

O que é que eu faço, Sofia? Diz-me, porra, o que é que eu faço? Esta miúda é doida, e se ela mete esta merda deste áudio na imprensa?

O que é que tem?

O que é que tem? Está a brincar comigo? Se a coisa for vista do ponto de vista errado, parece que eu tinha vontade que o meu filho desaparecesse.

Vicente, esse áudio não tem absolutamente nada por onde se possa pegar. E a linha de raciocínio dessa miúda não faz qualquer sentido.

A Sofia sabe que basta alguém inventar essa merda de que eu armei isto tudo, porque eu fico acabado.

Vamos ter calma. A alternativa é pagar à miúda, mas se isso se sabe, então aí é que não vai haver segundas leituras. O Vicente estaria a esconder alguma coisa. Isto morre aqui. Se quiser, eu própria me encontro com essa tal…

É a Inês.

Inês, pronto. Eu tenho uma conversa com ela, não se preocupe.

Mas qual conversa? Eu não quero conversas com essa fedelha. Que delírio é esta merda toda, porra!

Acalme-se, Vicente.

Eu sinto-me a perder a cabeça com esta porcaria toda. Foda-se.

Isto vai dar a volta, Vicente. O Zé vai aparecer, a campanha vai voltar a dar cartas e ainda vai olhar para tudo isto como se fosse só um período.

Espero que sim.

Mas para isso, eu preciso que se concentre. Os próximos dias vão ser fundamentais. Amanhã mesmo temos uma ida ao programa da manhã na Quatro. Vamos mostrar o Vicente Valbom pai, preocupado e honesto

Isto foi uma exceção absoluta. Os candidatos à Câmara Municipal de Lisboa só começam a ir para a semana que vem. Por isso o Vicente vai aparecer duas semanas seguidas. Eu sei que lhe custa falar do Zé neste momento, mas a sua decisão de se manter na corrida afastou muita gente. Portanto, nós temos de mostrar que o Vicente não o fez por si, não foi por vaidade.

E não foi? Não foi mesmo. Custa-me não saber dele. Mas há qualquer coisa, não sei. Eu sinto que o meu filho está quase de volta.

Uma casa! Foda-se! Está numa casa. Ajude-me. Ajude-me! Abra a porta!

Quem é?

Não dispare, não faça mal a ninguém. Ajude-me. Deixe-me entrar.

Rapaz, o que é que te aconteceu?

Deixe-me entrar, por favor.

Entra. Estás todo escangalhado.

Eu preciso de ligar para casa. Por favor, deixe-me ligar para casa.

Caraças, isso é que vai ser mais difícil, sabes? É que eu estou sem linhas há uns dias. Com a chuva, foi tudo para o caneco. Mas não te preocupes que o meu sobrinho deve estar a chegar e ele tem telemóvel.

Onde é que nós estamos? Como é que isto se chama?

Tem calma, rapaz. Estás todo baralhado. Deixa-me ver se tenho aqui qualquer coisa para tu comeres. Deves estar cheio de fome, não?

Sim, mas eu preciso falar com o meu pai.

Mas o que é que te aconteceu, rapaz?

Eu fui raptado. Eles levaram-me, taparam-me a cabeça.

O quê? Raptaram-te?

Sim. Pediram um resgate ao meu pai. Eu sou de Lisboa.

Lisboa? Estás muito longe. Espera aí um bocado que eu vou buscar-te um copo e um bocado do meu jantar para não caíres aí para o lado.

Consegui. Consegui, foda-se. Consegui.

Toma, bebe. Este trotil é uma boa pinga. Fui eu que o fiz aqui. Vais ver que te vais acalmar.

Obrigado.

Toma lá. E tens aqui arroz e carne. Já não é muito, que eu estava a comer e ia-me deitar. Mas come. Estás pior do que eu, que não vejo comida há mais de um ano.

Obrigado.

Não te preocupes, que aqui estás seguro. Mais um bocado e entra aí o meu Luís, traz o telefone para ligares a quem tens de ligar. Estás salvo, rapaz. Não te inquietes.

Acho que comi depressa demais. Estou um bocado zonzo.

O que é que se passa? Queres vomitar?

Não.

Vê lá.

Não, está tudo bem. Está a andar um bocado a…

Estou? Tenho um miúdo caído aqui no chão. Venham buscá-lo.

“O Candidato Perfeito” é um podcast de ficção para ouvir em oito episódios, produzido pela Coyote Vadio e pelo Observador. É escrito por David Neto e Manuel Pureza, com realização de Manuel Pureza, direção de elenco de Rita Tristão da Silva e assistência à realização de Clara Godinho. A direção de som, sonoplastia e música do genérico são de Artur Costa. José Raposo é Vicente Valbom, Tiago Teotónio Pereira é José Valbom, Madalena Almeida é Margarida Valbom, Vera Moura é Sofia Rito, Paulo Calatré é João Durães, Susana Brandão é Teresa Macedo, Sara Matos é Inês Oliveira, Vicente Wallenstein é Filipe Delgado, Pedro Laginha é César Pontes, Carla Andrino é Mila Valbom, Francisco Beatriz é Aníbal Freitas. Este episódio tem a participação especial de Daniel Viana, Susana Ferrajota, Judite França, Rui Pedro Antunes, Pedro Rainho, Inês André Figueiredo, Miguel Santos Carrapatoso e Artur Costa.





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