Quando a água não sai da torneira o que falhou lá atrás? – Observador

Quando a água não sai da torneira o que falhou lá atrás? – Observador



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Hora de conhecermos do que vai a Helena Matos falar no Contracorrente desta sexta-feira. Para participar e nos dar a sua opinião em direto, só tem de ligar para o 91 002 41 85, ou então enviar-nos a sua mensagem de voz pelo WhatsApp para o mesmo número 91 002 41 85. Luís Soares.

Nos últimos dias temo-nos deparado com torneiras sem água em Almada. Há cortes no abastecimento para tentar estabilizar o sistema, o que tem levado também muita gente aos supermercados para ir buscar garrafas e garrafões com água. Entre as causas está um sistema com perdas elevadas, aumento da população, puxadas ilegais, consumos muito elevados. Mas serão estas as explicações suficientes? Bom dia, Helena Matos.

Bom dia.

Afinal, o que aconteceu em Almada para se chegar a esta situação de crise?

Tecnicamente, são vários os fatores. Administrativa e politicamente falando, foi objetivamente incapacidade de gestão. Porque estas imagens nos fazem recuar no tempo. Nós víamos isto nos anos 70, nos anos 80, 90, em Portugal. Eu nasci nos anos 60, portanto, faço parte de uma geração que viu sempre este problema da falta d’água, os garrafões em casa, era a falta d’água e falta de luz. Isto, entretanto, com novas medidas de gestão, foi sendo resolvido. E quando eu digo medidas de gestão, não estou a falar de furos. O furo é agora uma solução momentânea. De repente, parece que a ministra do Ambiente foi a Almada, licenciam-se dois furos, está resolvido. Está resolvido no sentido para este momento, e para este momento acreditemos que faz todo o sentido. A questão é que não se podem fazer furos, porque senão acabamos com água salgada na torneira. Pensemos no Algarve, onde isto foi um problema, e neste momento, no caso do Algarve, optou-se até por novas fontes, o caso da dessalinização, por exemplo. Temos a entender que aqui houve um óbvio problema de falta de antecipação, porque Almada vai buscar água ao Seixal, tudo isso já se sabe. Há a questão da taxa dos direitos de passagem, tudo isso são problemas administrativos. Temos depois a questão das puxadas ilegais e das perdas. Almada ainda tem perdas na casa dos 30 ou mais por cento. Isto remete novamente para o passado, em que o sistema de águas em Portugal, de distribuição, chegava a perder mais de 50%. Isto hoje baixou, e não me venham com a conversa de que Almada tem uma população. Pois são estas coisas que se dizem assim, que se insinuam. Claro que já sabemos que Almada tem populações pobres. Mas Amadora também tem, como é óbvio. E depois, a ideia de que de repente a população aumentou. Mas o quê? Um milhão e meio de imigrantes foi todo viver para Almada? Aumenta no verão. Pois claro que aumenta, mas também aumenta em Faro, em Albufeira e em Portimão. É óbvio que nós temos aqui um problema de não antecipação. Neste momento, o que está a ser feito é a única coisa que pode ser feita, que são cortes programados, como é óbvio. Não há alternativa, não se inventa. E a questão dos furos. Agora, nós temos aqui de perceber algumas coisas, que também têm sido referidas, e que é o elevado consumo por habitante. Ou seja, quando se rateia o consumo d’água por habitante, aparecem valores muitíssimo superiores ao de outros municípios em algumas zonas de Almada. Estou a pensar no caso Costa de Caparica, Sobreira. O que se passa? Acho que nós estamos perante uma situação que é grave, que é complexa, que tem impacto económico, social, na vida de inúmeras pessoas. Pensemos desde ULS que tiveram de fechar, creches, porque não é apenas a questão da vida da pessoa não poder tomar mais um banho, embora isso incomode bastante. Ou ter de pôr a máquina de lavar roupa a funcionar durante a noite. Não, isto tem um impacto na estruturação do quotidiano, porque ao contrário do que acontecia nos anos 70, nós já não estamos habituados a isto. Ou seja, não sabemos como viver sem. Para além da falta d’água nas torneiras, falta mesmo, temos também as questões, essas mais recorrentes, da falta de pressão. Ou seja, quando se chega aos andares mais elevados, ela tem falta de pressão. Por fim, isso é me alongar muito mais, porque hoje também já temos o Molho e Vilão.

Exatamente.

Há aqui uma outra questão e que é: isto já tinha acontecido em 2025, não com esta dimensão. A fatura da água tornou-se uma espécie de bengaleiro de taxas e taxinhas, mas nem sempre foi acompanhada da respetiva programação, monitorização, porque um dos grandes problemas é que se sabe que há furos, há imensos furos, toda a gente faz furos, a agricultura, o consumo doméstico, os ilegais, mas nada disto está monitorizado. E isto é um problema agora, e eu tenho sempre estas questões que me preocupam muito do ponto de vista ambiental, é um problema ambiental, porque a água vem do aquífero e se tira, se tira. E se não se monitoriza, não há espaços vazios no aquífero, entra a água do mar. Acho que temos muito para falar, também da questão política, como é óbvio. E agora diga adeus, porque os teus olhos já estão a andar para mim com muita ansiedade.

Mas depois das 10 vamos ter muito tempo para discutir todos esses temas. Até já, Helena.

Até já.





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