Uma desventura com Carlos Alberto Parreira nos Estados Unidos

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Tomemos uma estrada para o passado, de 2026 para 1994. Os tempos eram outros, sem celular, sem internet, e sem redes sociais. As notícias – tal qual o mundo – giravam mais devagar. Dava para correr antes que elas chegassem, e me explico. Foi uma interessante experiência com Carlos Alberto Parreira, calmo, educado e solícito. Na Copa do Mundo de trinta e dois anos atrás, nos Estados Unidos, VEJA decidiu tê-lo na capa da revista. Como um dos enviados especiais ao torneio – ao lado de Eurípedes Alcântara, Carlos Maranhão e o repórter fotográfico Marcos Rosa – fui designado a preparar o perfil de Parreira. Dez dias antes do início do Mundial, já em Los Gatos, na Califórnia, onde a seleção ficaria hospedada, o treinador da canarinho chegou a me receber em seu quarto – conversamos longamente, ele mostrou um livro de gestão empresarial que estava lendo, e que o ajudaria no comando do escrete; contou ter ligado pessoalmente para o zagueiro Ronaldo, que atuava no Japão, convocado de última hora no lugar de Ricardo Rocha; desenhou quinze (15!) esquemas de jogo que pretendia usar na estreia, contra a Rússia, no Stanford Stadium.
Naquele tempo, reafirme-se, tudo era mais lento, de tecnologia ainda na infância. Dois dias depois de enviar a reportagem – e acho que ficou bacana – recebi pelo fax do hotel a edição finalizada. Tudo muito bem, à exceção de uma ideia engraçada que cutucava Parreira. Na capa: “O Itamar da seleção”. E mais: “Com uma equipe organizada, disciplinada e obediente, mas sem ousadia, o técnico Carlos Alberto Parreira entra na luta pela conquista do tetracampeonato.” Itamar, é sempre bom beber da história, era o presidente que ocupara o lugar de Fernando Collor de Mello, que renunciara depois do processo de impeachment, cuja denúncia inaugural foi da VEJA, em entrevista do repórter Luis Costa Pinto com Pedro Collor. Itamar era insosso, sem graça, o homem errado na hora certa. Intuí, talvez com algum exagero, que Parreira poderia ter se sentido traído por mim – abrira as portas de seu quarto, até de seu coração, e virara Itamar Franco.
Preocupado, eu que permaneceria na Califórnia até o início da Copa, decidi pegar um avião para Edmonton, no Canadá, onde o Brasil faria um amistoso com a equipe local. Meu plano: falar com Parreira, dar uma amaciada, entregar a notícia ruim antes que ele soubesse por outra pessoa. Foi o que fiz, ele ouviu pacificamente e disse: “Tudo bem, depois leio com atenção e conversamos”. Dias depois alguém fez chegar a Parreira a reportagem, muito provavelmente também por fax, ou por telefone. À saída de um treino, ao passar por mim, o técnico me pegou pelo braço e disse: “Li lá, ficou legal, tudo bem, vocês da imprensa têm o direito de criticar”. Parreira foi sempre assim, um gentleman. Eu me desesperara à toa.
