Vendeu tudo para sustentar o filho e agora é o herói que derrubou a Alemanha
Há quatro anos, Orlando Gill vendia as camisolas, as chuteiras e praticamente tudo o que tinha para ajudar a sustentar a família. Esta segunda-feira, tornou-se o herói de todo um país em Boston.
Depois de manter a albirroja em jogo durante 120 minutos, defendeu os penáltis de Kai Havertz e Nick Woltemade e ajudou a eliminar uma das maiores potências do futebol mundial, quebrando um registo histórico: foi a primeira vez que a Alemanha perdeu uma série de grandes penalidades num Campeonato do Mundo.
No final, Gill não escondia a emoção. «É um privilégio. Eliminámos um campeão do Mundo. Isto é para todo o povo paraguaio», afirmou.
De médio-centro a dono da baliza
Nascido em San Lorenzo, nos arredores de Assunção, nem sequer começou a carreira como guarda-redes. Entre 2012 e 2013 jogava como médio-centro no modesto 13 de Junio, onde os antigos companheiros recordam que era «o diferente» da equipa. Mais tarde mudou de posição e encontrou o caminho que o levaria ao futebol profissional.
Depois de se destacar no San Lorenzo do Paraguai, mudou-se em 2024 para o San Lorenzo de Almagro, na Argentina.
Passou um ano inteiro na equipa secundária até conquistar a oportunidade na formação principal. Em 2025 assumiu definitivamente a titularidade e transformou-se num dos melhores guarda-redes do campeonato argentino, sendo peça fundamental na campanha da equipa, que alcançou as meias-finais do Torneio Apertura.
Quando vender tudo foi a única solução
O caminho até ao sucesso esteve longe de ser fácil.
Quando nasceu o filho Lautaro, Gill ainda dava os primeiros passos no futebol profissional e a situação financeira da família era muito delicada. O bebé enfrentou problemas de saúde e as despesas aumentaram de forma significativa.
Foi então que o guarda-redes tomou uma decisão que dificilmente esquecerá.
Segundo revelou a mulher, Melissa Ávalos, nas redes sociais, vendeu praticamente tudo o que tinha ligado ao futebol: equipamentos do clube, chuteiras e até a camisola da seleção paraguaia de sub-20, uma recordação que nunca conseguiu guardar.
«Vendeu tudo. Literalmente tudo. O importante era conseguirmos pagar as despesas e cuidar do nosso filho», recordou Melissa.
O Mundial que apresentou Gill ao mundo
As boas épocas no San Lorenzo abriram-lhe finalmente as portas da seleção orientada por Gustavo Alfaro.
A estreia aconteceu já em 2026 e a aposta revelou-se certeira. Gill foi um dos guarda-redes mais consistentes da fase de grupos, somando 17 defesas e transmitindo uma serenidade que rapidamente conquistou colegas, adeptos e treinador.
Faltava apenas uma noite para deixar de ser uma revelação e passar a ser um protagonista. Ela chegou diante da Alemanha. Depois de uma exibição segura ao longo de 120 minutos, defendeu dois penáltis e conduziu o Paraguai aos oitavos de final, assinando uma das maiores surpresas da competição.
O futebol gosta de criar heróis improváveis. Orlando Gill não precisou de marcar golos nem de fazer discursos. Bastaram-lhe duas defesas para colocar o Paraguai na história dos Mundiais mas, a partir de agora, o seu nome será lembrado muito para lá de Boston.
