Brasil mostra poder de reação com apostas de Ancelotti para seguir sonhando com hexa

Brasil mostra poder de reação com apostas de Ancelotti para seguir sonhando com hexa





Virada do Brasil contra o Japão saiu nos acréscimos do segundo tempo

Virada do Brasil contra o Japão saiu nos acréscimos do segundo tempo

Foto: EPA / BBC News Brasil

“Muito mais difícil do que a gente esperava, mas é Copa do Mundo, fazer o quê? Vamos enfrentar os melhores”, disseram torcedores na saída do estádio à BBC News Brasil.

A frase resume bem a sensação que ficou no ar do NRG Stadium, em Houston, depois que o Brasil derrotou o Japão por 2 a 1 e garantiu uma vaga nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026 — mas longe da tranquilidade que o favoritismo histórico fazia crer.

Realmente, o jogo não começou como o esperado para a Seleção e teve um primeiro tempo inteiro de agonia para o torcedor brasileiro.

O time sofreu para encontrar seu jogo diante de um Japão muito organizado, que fechou bem os espaços, acelerou nos contra-ataques e castigou a equipe brasileira quando teve a chance.

O duelo começou equilibrado, com o Brasil dominando a posse de bola e criando as primeiras oportunidades, mas sem conseguir converter as chances em gol.

As estatísticas do primeiro tempo até favoreciam o Brasil — oito tentativas de finalização contra três do adversário —, mas de nada serviram diante da eficiência cirúrgica dos japoneses.

O sufoco brasileiro nasceu de uma falha da própria defesa. Aos 28 minutos, Danilo errou um passe pelo lado direito do campo, e Kaishu Sano aproveitou a sobra para conduzir a jogada, ajeitar o corpo e bater de fora da área, rasteiro, sem chances para Álisson.

A lição ficou clara: um simples deslize na saída de bola, em um lance que aparentava ser rotineiro, foi suficiente para o Japão mostrar sua eficiência.

Os japoneses não bombardearam o gol brasileiro durante a partida, mas souberam aproveitar a única brecha real que surgiu: converteram o erro defensivo em vantagem no placar e, dali em diante, recuaram as linhas para administrar o resultado.

Esse desequilíbrio resumiu bem a primeira etapa: o Brasil com a posse, o Japão com o gol. A seleção foi para o intervalo atrás no placar mesmo tendo levado mais perigo ao ataque rival, um contraste que ajuda a explicar por que o duelo foi sentido como tão “duro” pelos torcedores que acompanhavam o jogo nas arquibancadas e nos corredores do estádio.

A reação na etapa final

Após um primeiro tempo marcado por nervosismo, erros de passe — como o que resultou no gol japonês — e controle adversário, a equipe de Carlo Ancelotti conseguiu pressionar na etapa final e, principalmente, teve paciência para insistir até o fim.

O Japão foi eficiente defensivamente durante grande parte do jogo, acumulando oito bloqueios de defesa e 51 rebatidas, além de contar com duas defesas importantes do goleiro Zion Suzuki.

Mas o Brasil insistiu no jogo aéreo e na ocupação de espaços. Aos seis minutos da segunda etapa, Danilo cruzou da direita e Bruno Guimarães, de cabeça, exigiu grande defesa de Suzuki.

Aos oito, em nova bola alçada na área, Casemiro tentou escorar e o zagueiro Tomiyasu salvou em cima da linha. A insistência valeu a pena logo depois: Gabriel Magalhães recebeu de Vinícius Júnior pela esquerda, cruzou na medida, e Casemiro, subindo mais que o marcador Keito Nakamura, cabeceou para empatar a partida.

O gol equilibrou o jogo no placar, mas também — e talvez principalmente — no aspecto emocional: animou o Brasil e assustou o Japão, que até então parecia confortável administrando a vantagem.

Na sequência, o Brasil chegou a ter uma chance clara de virada com Vinícius Júnior, que fez jogada individual pela esquerda, passou a bola entre as pernas de Tomiyasu, invadiu a área e finalizou de bico, acertando a trave — um lance que resume bem a mistura de talento individual e falta de pontaria/sorte que marcou a tarde brasileira.



Kaishu Sano abriu o placar contra o Brasil

Kaishu Sano abriu o placar contra o Brasil

Foto: Getty / BBC News Brasil

O herói: Martinelli, saído do banco

Foi nos acréscimos que o Brasil finalmente conseguiu a recompensa pela insistência. Martinelli, que entrou no segundo tempo, recebeu uma bela bola de Bruno Guimarães e, sozinho, finalizou no cantinho de Suzuki para virar o placar e levar o Brasil às oitavas de final.

O atacante, que começou a partida no banco, foi o nome que mudou a história do jogo: entrou, deu trabalho à marcação japonesa e decidiu no momento mais tenso possível, quando a sensação de “eliminação traumática” já rondava a torcida brasileira.

O empate nos acréscimos não apaga os problemas: faltou fluidez na criação, o ataque demorou a encontrar soluções e a pressão brasileira muitas vezes pareceu mais fruto de urgência do que de controle. Mas o gol no fim muda a narrativa da partida. O Brasil evitou uma eliminação precoce traumática e mostrou poder de reação justamente quando parecia mais perto do abismo.

A classificação vem com alívio, mas também com um sinal positivo: mesmo em desvantagem e pressionado por um cenário que parecia escapar, o Brasil não se desesperou. A equipe seguiu tentando, empatou, e depois encontrou forças para decidir a partida.

Foi uma vitória mais sofrida do que convincente, mas também uma demonstração de resistência — daquelas que podem pesar em mata-mata e que fazem os fãs continuarem acreditando.

“O Brasil, obviamente — e por diversos motivos —, tem uma postura de certa arrogância tradicionalista”, disse o comentarista de futebol da BBC Tim Vickery, especialista em futebol sul-americano.

Ele afirma que os jogadores brasileiros ficaram perto de uma “humilhação histórica”. Se o Japão ganhasse, seria a primeira vitória do país em um mata-mata de Copa do Mundo na história.

Foi então que, segundo Vickery, o técnico Carlo Ancelotti mostrou uma de suas virtudes: “Às vezes, a maior qualidade de Ancelotti é não fazer nada. Um oásis de calma em meio a todo o caos ao seu redor — e isso deu certo mais uma vez”, afirma.

Ele diz que, enquanto muitos esperavam que Ancelotti substituísse Casemiro, o técnico o manteve em campo – e foi justamente o meio-campista quem empatou a partida.

O desafio de Ancelotti

Para Ancelotti, o jogo contra o Japão funcionou como um teste de caráter — e também como um alerta.

Pela primeira vez desde que assumiu a Seleção Brasileira, o treinador italiano repetiu uma escalação titular, mantendo a aposta em Rayan no lugar do lesionado Raphinha, com o time formado por Alisson, Danilo, Gabriel Magalhães, Marquinhos e Douglas Santos; Casemiro, Bruno Guimarães e Lucas Paquetá; Vinícius Júnior, Rayan e Matheus Cunha.

A escolha de manter a base teve uma lógica de continuidade, mas o primeiro tempo mostrou o risco dessa aposta: a equipe titular voltou a repetir um problema recorrente da gestão Ancelotti à frente da seleção — dificuldade de criar fluidez ofensiva contra adversários bem postados defensivamente, somada a erros individuais de saída de bola, como o de Danilo que resultou no gol japonês.

O desafio do treinador ficou evidente: ele precisou recorrer ao banco — com a entrada de Martinelli sendo decisiva — para resolver o jogo, o que reforça a pressão sobre as escolhas iniciais e sobre a capacidade de a equipe titular impor ritmo desde o começo das partidas.

Repetir os mesmos sinais de fragilidade no início dos jogos é um problema que Ancelotti precisará resolver rapidamente, sob pena de pagar caro contra times com mais poder de fogo do que o Japão.

Vale lembrar, ainda, que historicamente o confronto era tratado como um duelo entre “mestre e discípulo”, dado o profundo respeito que o futebol japonês tem pela tradição brasileira, e o “aluno” deu trabalho ao “mestre” até os instantes finais.



Torcida brasileira assistindo ao jogo contra o Japão em São Paulo

Torcida brasileira assistindo ao jogo contra o Japão em São Paulo

Foto: Reuters / BBC News Brasil

Próximo desafio: rumo a Nova Jersey

Com a classificação, o Brasil aguarda o ganhador do confronto entre Noruega e Costa do Marfim, que se enfrentam nesta terça-feira (30/6), em Dallas.

O duelo das oitavas de final será no domingo (5/7), às 17h, em Nova Jersey, no MetLife Stadium.

A mensagem que fica do duelo com o Japão é clara: o Brasil de Ancelotti segue invicto na competição, mas está longe de ser uma máquina indestrutível.

A vitória trouxe alívio, evitou um trauma precoce e revelou personagens importantes, como Casemiro e Martinelli, mas também expôs fragilidades — erros de passe na saída de bola, dificuldade de criação contra defesas bem postadas e uma primeira etapa de muita ansiedade — que precisarão ser corrigidas antes que os adversários se tornem ainda mais fortes.



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