“Os hospitais estão completamente assoberbados” – Observador

“Os hospitais estão completamente assoberbados” – Observador



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Nelson Olinho é médico especialista em medicina de catástrofe. Bom dia, obrigado pela disponibilidade. Ao longo das últimas horas temos ouvido com insistência um número: 72 horas, três dias. A janela temporal considerada decisiva para o resgate com vida de vítimas do terremoto. Qual é a relação deste horizonte temporal e a capacidade de sobrevivência do ser humano?

Olá, muito bom dia. Na verdade, essa é uma regra que nós utilizamos muito na área da medicina de catástrofe, que chamamos de a regra dos três, que são, no fundo, três minutos sem oxigênio, três dias sem água e três semanas sem alimentos. Quando nós falamos nestas 72 horas, estamos a falar essencialmente do acesso à água. Há uma tendência, obviamente, de focar, eu diria, toda a atenção nestes processos de busca e salvamento imediato, porque há pessoas que de fato ainda estão retidas sob os escombros. E a probabilidade de sobrevivência dessas pessoas, que em uma primeira hora, se calhar anda em torno dos 90%, mas depois a cada 24 horas que passa cai para metade essa probabilidade de sobrevivência. Mas eu gostava de chamar a atenção que existem já bastantes feridos, e esses não só precisam de abrigo, precisam de água, precisam de alimentação, precisam de cuidados médicos. A estimativa inicial para este sismo, se nós tivermos em atenção a totalidade da população que foi afetada em uma escala de Mercalli acima de oito, estamos a falar cerca de 2 milhões de pessoas. Ora, 2 milhões de pessoas, quando nós calculamos estes números, estamos a falar em torno de cerca entre oito a 10 mil mortos, mas estes oito a 10 mil mortos implicam habitualmente cerca de 30 mil feridos. E destes 30 mil feridos, há uma porcentagem que são feridos graves e que eventualmente morrem nas primeiras horas por falta de assistência médica, estamos a falar de feridos que só sobrevivem algumas horas com as lesões que têm. Mas depois temos uma porcentagem muito grande, que são cerca de 10 mil pessoas, que são feridos moderados, ou seja, são feridos com, por exemplo, fraturas de braços, fraturas de pernas, lesões que precisam ser tratadas do ponto de vista cirúrgico e para os quais também há uma janela temporal a contar para esses. Nós muitas vezes esquecemos, mas isto implica que os hospitais neste momento estão completamente assoberbados por feridos que precisam de tratamento cirúrgico, que já lá estão. Estes feridos já existem, não são aqueles que nós estamos indo à procura. Eles, no fundo, foram feridos nos primeiros momentos do sismo.

É necessária ajuda médica internacional? Partiu do pressuposto que o sistema de saúde venezuelano, não especificamente por ser venezuelano, mas dada a magnitude desta tragédia, não tenha capacidade para dar resposta. Essa ajuda médica imediata é fundamental.

A ajuda médica é fundamental. Nós habitualmente focamos muito a atenção nesta questão da busca e salvamento, mas a busca e salvamento é, de fato, uma minoria do ponto de vista das necessidades. Ou seja, as pessoas que vão ser extraídas, principalmente ao fim do primeiro dia, em ações de busca e salvamento, são, de fato, uma minoria, comparando com aquelas que foram já feridas no momento do evento, e essas, sim, precisam de cuidados médicos hospitalares diferenciados.

Há organizações especializadas neste tipo de apoio, médicos prontos para pegarem nas mochilas e arrancarem rumo à Venezuela para prestar essa necessária ajuda?

Sim, exatamente. Nós temos, a nível internacional, por exemplo, a Federação da Cruz Vermelha, que é a federação que une todas as sociedades nacionais das várias Cruz Vermelhas a nível internacional, que é habitualmente rapidamente mobilizada nestas situações. E depois temos mecanismos altamente estruturados, como por exemplo, o Mecanismo Europeu de Proteção Civil, etc., que também têm a capacidade de mobilização. E depois há uma série de organizações não governamentais a nível internacional, umas que já operam na Venezuela e outras que obviamente estão prontas para operar, apesar de neste momento não se encontrarem lá. Eu diria que a nível internacional, neste momento, está a ser feita uma análise inicial do que é que são as verdadeiras necessidades, uma vez que convém enviar aquilo que, na verdade, são as necessidades da Venezuela e não coisas que neste momento não fazem qualquer sentido. Eu imagino que nas próximas horas vamos começar a ver e vamos começar a ter notícias da mobilização das primeiras organizações. Houve logo um pedido inicial feito pelo governo da Venezuela para ajuda internacional. Isso é importante, porque sem este pedido, as equipes não se podem deslocar para lá. Obviamente que há constrangimentos do ponto de vista logístico neste momento também na Venezuela, que tem a ver com o fato do próprio aeroporto neste momento não estar 100% funcional. Mas há aeroportos alternativos, há outras vias de entrada, e eu acho que nas próximas horas vamos começar então a ver a ajuda chegar.





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