Portugal até goleia, mas real teste vai ser contra Colômbia – Observador

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Deu em fartura a escassez do primeiro jogo. Depois do empate frente ao Congo, Portugal aplicou ontem chapa cinco ao Uzbequistão e com Cristiano Ronaldo em grande, marcou duas dessas chapas. Mariana Fernandes aqui conosco, também o Gabriel Alves e o Augusto Inácio. Eu sou o Nelson Ferreira, mas Mariana, ok que o Uzbequistão é das seleções menos cotadas do ranking da FIFA neste mundial, mas ainda assim a exibição portuguesa encheu o olho. Onde achas que esteve a chave para estas melhorias que vimos ontem na equipa das Quinas?
Desde logo, as alterações foram feitas ao 11 inicial, ou seja, a saída do Bernardo Silva e a entrada do João Félix e a troca de lado do Pedro Neto. Isso não significa que o João Félix seja melhor jogador que o Bernardo Silva ou que o Pedro Neto mereça ficar mais no 11 inicial do que o Bernardo. A questão é que um dos grandes erros de Roberto Martínez no primeiro jogo contra o Congo foi colocar Bernardo Silva titular naquele sítio, ou seja, a extremo. Bernardo Silva não é extremo há muitos anos. No Manchester City, pelo menos. Parece que na seleção continua a ser. Os anos vão passando, ou seja, é normal que os jogadores vão mudando de posição e vão para sítios onde se sentem mais confortáveis e não precisam de correr tanto e não precisam de equilibrar tanto. E vemos isso até com o Cristiano Ronaldo. Que ao longo dos anos deixou de ser um extremo para neste momento ser, não um puro nove, mas uma referência ofensiva, um jogador de grande área. E isso também está a acontecer com o Bernardo, que já não é extremo há muito tempo e que no Manchester City tem jogado sempre no meio-campo. Eu acho que a saída de Bernardo, um jogador que não acrescentou nada contra o Congo e a entrada de João Félix, acabou por ajudar muito naquela que foi a dinâmica ofensiva da seleção nacional, principalmente da primeira parte. Depois, olhando para um cômputo geral e para um comportamento um pouquinho mais coletivo, eu acho que todos os jogadores subiram de rendimento. Ou seja, vemos um Bruno Fernandes muito mais ativo, Vitinha e João Neves a olhar e a jogar muito mais virados para a frente do que para trás e para os lados, como aconteceu na semana passada. Do ponto de vista mais defensivo, mas um defensivo ofensivo, João Cancelo também a meter-se muito mais por dentro, a fazer aqueles movimentos que acabaram por dar a assistência para o primeiro gol. O Nuno Mendes, para mim, é o melhor jogador em campo. Para além do gol, faz uma exibição brutal e que acaba também por deixar claro que a ideia de uma fragilidade física não é assim tão real, ou pelo menos não é assim tão clara no que diz respeito ao Nuno Mendes. Portanto, houve um comportamento coletivo muito diferente, que eu acho que tem a ver também com esse resultado da semana passada. Ou seja, era uma equipa claramente a querer dar uma resposta àquilo que se tinha passado contra o Congo, e isso foi notório. Agora, aquilo que tu dizes também no início, também é verdade. Se é certo que não é fácil ganhar um jogo por 5 x 0 e não sofrer gols num campeonato do mundo, também é preciso sempre recordar e ter cautelas e lembrarmo-nos de que foi contra o Uzbequistão, uma equipa que é estreante neste campeonato do mundo, e que é das mais acessíveis e frágeis também desta edição do Campeonato do Mundo. Claro que isso vale o que vale, mas é preciso que Portugal tenha noção de que esta equipa não era o Congo e também não será a Colômbia.
Muito bem. Tinha aqui uma pergunta também para o Augusto Inácio. Augusto, muito bem-vindo, boa tarde. Sentiste que de alguma forma os jogadores portugueses jogaram revoltados, sentiram-se injustiçados com as críticas que receberam ao longo dos últimos dias e que tornaram também isso combustível para a performance que apresentaram ontem?
Boa tarde a todos. É só ver e ouvir aquilo que eles disseram depois, quando acabou o jogo. O que os jogadores disseram? O que o treinador disse? Simplesmente só isto: aumentamos a velocidade, aumentamos a atitude, fomos mais intensos. Eles é que disseram isso. Ou seja, no outro jogo não tinha sido assim. Por isso as críticas valem o que valem no momento em que as coisas acontecem. E depois os elogios também valem o que valem, também nos momentos em que as coisas não estão bem. Os jogadores e os treinadores têm que começar a perceber que a crítica e o elogio faz parte da vida deles. Agora, claramente que a Mariana tocou aí em pontos que também achei muito importantes. A chegada do João Félix, o Pedro Neto na direita, podia ser o Trincão, podia ser um outro jogador, menos o Bernardo Silva, que nunca podia jogar naquela lado. E bem explicado pela Mariana, porque já não é jogador para fazer aquela ala, tem que jogar muito mais por dentro. E depois também tivemos o xerife e o líder da defesa. O Rúben Dias dá uma segurança à defesa que os jogadores sentem realmente uma grande confiança. E depois tivemos aquilo do Nuno Mendes. O Nuno Mendes saiu do outro jogo, porque a explicação foi que estava desgastado fisicamente. Estava realmente com alguns problemas musculares. E eu pensei: bem, é capaz de o Nuno Mendes não jogar este jogo para se poupar para o jogo da Colômbia. E o Nuno Mendes aparece em grande. E eu digo: mas o Nuno Mendes está assim com estas debilidades todas, então deixem-no estar assim, porque ele assim é que está bem, que o jogo que ele fez ontem foi extraordinário. E depois também tivemos o reaparecimento do Cristiano Ronaldo. Queremos, quer não, é um jogador que eu sempre disse e continuo a dizer, eu gosto dele, eu admiro este jogador. Sei que há momentos em que as coisas não estão tão bem, mas ontem jogou naquilo que é o seu habitat natural. Não fugiu muito da área, não veio buscar muito a bola cá atrás, já não tem aquele pique, aquela velocidade, aquele do um contra um, marcar a diferença como era noutros tempos, mas tem outras características que podem ajudar a seleção nacional. Esteve ali ontem em grande. Ainda bem que isto aconteceu, ainda bem que os jogadores entraram naquilo que é o Campeonato do Mundo, é não deixar andar e batalhar e lutar por aquilo que é os objetivos. As coisas correram bem, esperemos que a Colômbia também corra bem, mas sinceramente, gostei muito da resposta de Portugal.
Gabriel Alves, um dos mais criticados nos últimos dias foi Cristiano Ronaldo. Já aqui falamos noutras edições de “O Campeão é como é”. Farol para elogios e críticas por ser também das figuras mais midiáticas do mundo. Algumas das críticas visavam Cristiano por não ser jogador de equipe. Eu acho que ele ontem quis contradizer esses críticos em vários momentos do jogo e se calhar até naquele livre que Nuno Mendes concretiza em gol, quando todos esperavam que fosse Ronaldo o marcador.
Boa tarde. Eu acho que ele ontem quis contradizer muita coisa durante o jogo. Não só o que tu acabaste de observar, mas também. Primeiro, não precisa de ser substituído, jogou os 90 minutos. Saiu, terminou o jogo, portanto, em bom plano físico. Depois, a questão do livre. Eu acho que há trabalho e foquei-o durante a transmissão e continuo a sublinhar, trabalho nas bolas paradas de Portugal, que é de elogiar com garrafais, porque é de facto um trabalho muito importante naquilo que são os jogos extraordinariamente fechados e a bola parada, mais do que nunca hoje, é um trabalho específico. Sempre foi, mas hoje mais do que nunca, importante e necessário. Depois, obviamente, disseste que ele é mediático. Bom, vais rever a imprensa mundial hoje, quer dizer, a inglesa, a italiana, a italiana nem lá está, a espanhola e por aí fora, a alemã. O Ronaldo hoje é que naturalmente mexe nisso tudo. E eu diria mesmo, até aquele momento da entrevista em que há uma jornalista que lhe pergunta sobre Messi e ele põe-se a andar, não lhe responde e avisa o próximo que: “Vê lá a pergunta que vais fazer, porque eu então não te respondo”. Mas a verdade é que já também se pensa, se vai vaticinando. O mundo está de olhos num tal sábado, 11 de julho de 2026, onde poderá acontecer um Portugal-Argentina, um Cristiano Ronaldo-Messi. Anda tudo. Isso já anda a aparecer em tudo o que é comunicação, que essa hipótese é possível. E daí que Ronaldo e Messi mexeram 20 anos em Espanha e vão continuar a mexer enquanto estiverem a jogar. E depois de jogarem, vamos continuar a ter Messi e Ronaldo naquilo que são as lendas e tudo o que há à sua volta. Ronaldo esteve bem. Dizer que Bernardo Silva, e bem, muito bem, eu e a Mariana, como sempre. Bernardo Silva, Bruno Fernandes e CR7 são os jogadores mais utilizados por Roberto Martínez. Bernardo Silva tem 32 atuações, o CR7 tem 33 e o Bruno Fernandes é o mais utilizado com 37. Portanto, são três jogadores e isto para o clássico, eu vou chamar assim, Roberto Martínez, é difícil tirar um deles, mas ontem teve que fazer uma opção. Eu acho que fez bem, porque no fundo, no primeiro jogo, o Bernardo Silva foi dos jogadores. Falou-se muito do Ronaldo e o Bernardo Silva passou na sombra, mas o Bernardo Silva não jogou rigorosamente nada. Tanto que ele ontem tocou tantas vezes na bola em 10 minutos que esteve em campo, como tocou durante a primeira parte frente ao Congo. Há toda uma estratégia que já aqui foi montada e que já aqui foi declarada. E muito bem. Diz.
Rafael Leão entrou bem, o que não aconteceu no primeiro jogo também?
Olha, entrou pelo menos com outra mentalidade. Entrou para jogar, alguém lhe deve ter dito que tem que jogar, não é ficar lá na linha como espectador. Há uns espectadores que estão na bancada. Há outros que estão a trabalhar, que estão nos bancos. E ele ficou na linha a ver o jogo frente ao Congo. Ontem apareceu e marcou. Saudemos o seu regresso e esperemos que esteja em pleno no resto do campeonato.
Mariana Fernandes, já vamos às notas, mas queria também um rápido olhar para o que poderá ser o caminho de Portugal neste mundial. Ontem a Colômbia venceu, apurou-se para a próxima fase. O caminho de Portugal também depende se fica em segundo ou em terceiro no grupo. E ontem também vimos o Gana de Carlos Queiroz sacar um empate a uma Inglaterra que tinha deixado ótimas notas no primeiro jogo.
Ó Nelson, deixa-me fazer uma pergunta aqui à Mariana, porque ela viu atentamente o jogo. Está para aí uma polêmica, não está cá hoje o Pedro Henriques, uma polêmica com a arbitragem, o penalti, o Bellingham, etc.
O VAR que foi tomar café, não é?
Sim, e Carlos Queiroz tem razão. Muito resumidamente é isto: eu acho que é penalty, isso parece-me evidente, mas acho que mais grave do que o penalty é a questão do Jude Bellingham, porque já tivemos neste campeonato do mundo o Miguel Almirón do Paraguai a ser expulso pela chamada Lei Prestianni, que em Espanha é a Lei Vinícius, não deixa de ter graça. Os espanhóis mandaram todos notificações hoje de manhã a dizer que era a Lei Vinícius, nós chamamos Lei Prestianni. Tem a sua particularidade, mas já tivemos Miguel Almirón neste campeonato do mundo a ser expulso por aquilo, ou seja, por falar com a mão à frente da boca, algo que não é permitido desde aquele caso tão polémico entre o Vinícius e o Prestianni. Jude Bellingham fez exatamente isso ontem no jogo contra o Gana. E se é certo que o árbitro pode não ter visto, porque é o que é, o VAR tem de ter visto. E aí Carlos Queiroz tem razão, Jude Bellingham tinha de ter sido expulso, tal como Miguel Almirón também foi no jogo do Paraguai. Portanto, eu acho que Carlos Queiroz tem razão, tem razão nas duas situações. Ainda assim, e mesmo sem estas duas questões, o Gana faz um jogo hipercerebral e hiperinteligente, ou seja, consegue defender-se sem afundar e sem ser asfixiado por parte de Inglaterra e sempre que tinha uma nesga para soltar, soltava o contra-ataque e teve ocasiões, pelo menos situações de perigo, sem finalização, é certo, mas situações de perigo para conseguir fazer o gol. E Inglaterra acordou tarde demais, ou seja, faz uma primeira parte em que controla sem qualquer tipo de agressividade, sem qualquer tipo de assertividade e sem oportunidades de gol. Tem ali apenas um remate por cima do Declan Rice e depois acorda naqueles últimos 10, cinco minutos em que tem oportunidades, tem um remate do Kane que o guarda-redes defende, também um remate do Saka, tem um cabeçamento do Nico O’Reilly à trave, mas tirando isso não faz nada ao longo de praticamente 80 minutos. Acordou tarde demais para aquele jogo contra o Gana. As duas seleções estão praticamente apuradas para os 16 avos final, é verdade, têm quatro pontos, tinham vencido as duas na primeira jornada, mas não deixa de ficar uma boa imagem da parte do Gana e da parte, obviamente, de Carlos Queiroz, mas também uma má imagem, ou pelo menos uma imagem mais tímida, de uma Inglaterra de Tuchel que sim, na primeira jornada contra a Croácia, parecia ser uma das grandes candidatas a ganhar o Campeonato do Mundo.
Vamos ao teu campeão, Mariana.
O meu campeão era precisamente o Carlos Queiroz, ou seja, por essa abordagem, já expliquei, por isso não gasto mais tempo, era precisamente o Carlos Queiroz, por essa abordagem, por toda a história que já está a fazer neste Campeonato do Mundo, a ideia de ser o treinador mais velho a ganhar no Campeonato do Mundo aquela primeira jornada do Gana, mas por toda a abordagem a um jogo contra a Inglaterra que era muito difícil e onde ele deixa uma boa imagem com a seleção e deixa, porque é sempre o Gana, a ideia de que passar os 16 avos de final não é assim tão estranho, chegar aos oitavos de final do Campeonato do Mundo também não é assim tão estranho. Portanto, eu acho que teremos aí Carlos Queiroz para o mundial. Com 16.
Boa. 16 para Carlos Queiroz. Agustinasso, e a tua nota para quem?
Nota 18 para a Seleção Nacional na pessoa do Cristiano Ronaldo. Foi o jogador mais atacado e criticado no último jogo com a República do Congo e agora merece realmente os maiores elogios que possa haver. Além disso, com 41 anos, é o segundo jogador mais velho a marcar gols no Mundial, logo atrás do Roger Müller, que com 42 anos fez o gol. Eu diria que Cristiano Ronaldo dá nota 18 por tudo aquilo que ele é, vai ser e, acima de tudo, da forma como ele consegue mentalmente ultrapassar algumas coisas que poderiam deitar abaixo qualquer jogador, mas a ele não conseguem. E dá nota 17 também para o Carlos Queiroz, porque o Carlos Queiroz, quando tomou conta desta equipa do Gana, o Gana era uma seleção muito desacreditada, em que realmente ninguém dava nada por ela. E em pouco tempo, Carlos Queiroz deu uma identidade a esta seleção que faz sonhar os ganeses e por isso o Carlos Queiroz está de parabéns. Nota 17.
Gabriel, o teu campeão e com que nota?
O meu campeão vai também para Portugal, naquilo que é a figura do Cristiano Ronaldo. Vou só dar 16, porque ontem vi Colômbia contra a República Democrática do Congo e estou curioso. Tenho sede de ver o Portugal-Colômbia, porque a Colômbia é uma equipa diversificada e com bom futebol. Para já, este 16. Quero deixar aqui um 18 para Mapasi, guarda-redes da República Democrática do Congo, que guarda-redes! Fez uma exibição fabulosa frente à Colômbia. Só chamo aqui a atenção: a Colômbia não tem um jogador a rematar, tem nove, 10, tem todos. Só o Mapasi é que não remata, mas esse defende, porque nos remates à baliza, todos eles têm ordem para o fazer e têm ligeireza para o fazer e rematam de meia distância, que é algo que se vê pouco. Depois, quero deixar para o Carlos Queiroz 18 e quero deixar zero para o pateta ou patetas que têm a imprensa inglesa a aparecer num documentário, que ele deveria ter juízo porque tem 73 anos. Oh, my God, como é que isto vai? Onde vai já isto?
Gabriel Alves, Augusto Inácio, Mariana Fernandes com os campeões desta quarta-feira. Está feita a edição de hoje de “O Campeão É”.
