Azul: parceria com American não reduz concorrência – 16/06/2026 – Painel S.A.
American Airlines e a Azul apresentaram ao Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) nesta segunda (15) um parecer afirmando que a compra de 8% da companhia aérea brasileira pela norte-americana não cria incentivos para que as duas empresas reduzam rivalidade entre si.
Segundo o documento assinado pelo economista Thiago Caliari, com apoio da LCA Consultoria, a parceria entre as empresas pode ser boa para a concorrência no setor aéreo, pois fortalece financeiramente a Azul num momento em que a companhia ainda se recupera da saída do Chapter 11 (a recuperação judicial nos Estados Unidos).
O parecer foi apresentado em resposta a três entidades que questionam a operação no Cade, entre elas o grupo Abra, controlador da Gol e da Avianca, que argumenta que a união das companhias enfraquece sua posição competitiva no mercado.
Os consultores avaliam que a participação acionária da American Airlines na Azul é pequena demais para gerar qualquer ganho relevante com uma eventual redução da concorrência.
Como exemplo, são citadas rotas operadas pelas duas companhias entre Brasil e Estados Unidos, que não estariam sobrepostas. Enquanto a American voa para grandes hubs como Dallas, Miami e Nova York saindo do aeroporto de Guarulhos e Galeão, a Azul conecta cidades como Belém, Campinas e Recife a Fort Lauderdale e Orlando.
Em canais em que há sobreposição possível, a Latam aparece como concorrente forte o suficiente para disciplinar qualquer tentativa de aumento de preços.
Segundo o parecer, mesmo que a American quisesse se beneficiar financeiramente de um aumento de tarifas da Azul, o retorno representaria menos de 3% das perdas que ela própria sofreria, o que seria economicamente inviável.
Como explicação, o documento indica o trecho São Paulo-Miami, principal corredor em que as duas empresas competem, hoje dominado pela Latam. O argumento é o de que, se a American aumentar suas tarifas, os passageiros vão naturalmente migrar para a Latam, não para a Azul.
Além da Abra, tentam entrar no processo como partes interessadas para questionar a operação dois institutos que se apresentam como entidades de defesa do consumidor, o IBCI (Instituto Brasileiro de Concorrência e Inovação) e o IPSConsumo, que no início do ano teve papel ativo no Cade na tentativa de barrar a entrada da United Airlines na Azul.
Nas últimas semanas, a Abra apresentou pareceres técnicos ao Cade contra a entrada da American Airlines na Azul sustentando que a operação cria vínculos estruturais que reduzem a independência concorrencial através do Comitê Estratégico da Azul, além de facilitar a troca de informações sensíveis sobre malha, ASK (métrica que aponta capacidade com assentos-quilômetros oferecidos) e frota.
O grupo também argumenta que a participação incentivaria a AA a esvaziar seus acordos com a Gol, criando um cenário de “foreclosure”, e formaria um duopólio de blocos estratégicos entre AA e Azul contra Delta Airlines e Latam no corredor Brasil-EUA.
Na última sexta-feira (12), Azul e AA apresentaram parecer ao Cade contestando as afirmações do concorrente. Disse que o comitê estratégico da Azul está sujeito a regras de compliance que impedem troca de informações sensíveis e que nem American Airlines, nem United teriam direito a veto ou voto afirmativo no colegiado.
O documento disse também que a parceria entre as companhias não é exclusiva, que a AA não tem incentivo para abrir mão do feed da Gol e que a Gol tem alternativas internas para contornar rotas internacionais, como a Avianca, além do planejamento interno da companhia de iniciar voos próprios para Nova York, Orlando, Lisboa e Paris, anunciados em março.
O parecer enquadra a operação como uma aliança estratégica para preservar um parceiro relevante de feed doméstico. Hoje, a Azul tem a maior malha doméstica do país, com 340 rotas e mais de 294 mil decolagens em 2025. Desse montante, 278 rotas operam sem sobreposição regular com a Gol.
Isso representa acesso potencial a municípios com 14,6 milhões de habitantes e R$ 721 bilhões em PIB de cidades que a AA não alcança diretamente. Como paralelo, os consultores da LCA afirmam que, após sair do Chapter 11 e firmar parceria com a Delta, a Latam conseguiu expandir participação de mercado e malha, enquanto Azul e Gol precisaram racionalizar suas operações em momento de fragilidade econômica.
“O investimento da AA constitui um elemento central da reestruturação da estrutura de capital e das obrigações financeiras da Azul, bem como do plano geral de reorganização da companhia, cujo objetivo é estabilizar sua posição financeira e assegurar sua viabilidade de longo prazo”, diz a petição conjunta da Azul com a AA.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
