Vieram das Honduras, de El Salvador, do México e todos pelo mesmo (já sabe o que é, certo?)
Palm Beach não é terra de multidões. O código postal exige silêncio, exclusividade e contas bancárias com muitos zeros. Mas o futebol tem o dom de subverter a geografia e, esta tarde, à porta do luxuoso hotel Four Seasons, o cenário era tudo menos o habitual.
Ao contrário do que se esperaria numa zona habitada por milionários, todos eles protegidos por muros altos e uma personalidade egocêntrica, cerca de duzentas pessoas montaram guarda nos passeios em frente do hotel, com coragem, a desafiar o calor da Florida.
Numa perspetiva otimista, os portugueses seriam cerca de metade daquela mancha humana. O resto era uma autêntica cimeira da América Latina: muita, muita gente de El Salvador e das Honduras, mas também alguns da Colômbia, do Equador, do México, enfim.
Falam todos a mesma língua e, pelo menos esta tarde, partilhavam o mesmo sonho: ver Cristiano Ronaldo. Com um pouco de sorte, talvez arrancar-lhe um autógrafo.
«Sabe se os jogadores vêm cá fora?», perguntavam aos jornalistas.
Não, os jogadores não viriam cá fora. Mas nem isso quebrava a esperança. Havia miúdos com os olhos a brilhar de emoção e graúdos artilhados com uma, duas, três camisolas do capitão nacional, sonhando com o rabisco que faria valer a pena a viagem desde longe.
O sonho, claro, esbarrou na logística. O autocarro da Seleção chegou, passou por eles, entrou no perímetro de segurança do hotel e as portas fecharam-se. Ninguém voltou a sair.
Ficaram dezenas de camisolas por assinar e várias fotografias por tirar.
Ainda assim, no meio do desencanto geral, havia quem sorrisse apenas por estar ali. É o caso de uma família que, por si só, dava um tratado de geografia. Uma verdadeira Torre de Babel humana, unida pelo sangue luso e pela paixão à Seleção Nacional.
«Somos todos portugueses, mas originários de partes diferentes. O meu pai é português, a minha mulher é venezuelana e o meu filho é americano. A minha filha nasceu no Panamá», atira o pai desta família globalizada, o único que maior ligação Portugal.
«O meu pai é do mesmo bairro que o Cristiano Ronaldo, no Funchal. Toda a família dele ainda está lá, na Madeira. Temos muitas pessoas queridas lá. Ainda vamos lá todos os anos. É que nós somos mesmo portugueses: somos portugueses de coração-»
A árvore genealógica desta família é um mapa-múndi da emigração. Os pais dele, madeirenses de gema, emigraram para a Venezuela, onde ele acabou por conhecer a mulher. A vida, empurrada pelo trabalho numa empresa multinacional, fê-los saltar da Venezuela para o Panamá – onde nasceu a filha mais velha, mas ainda uma criança. Mais recentemente, tiveram de emigrar para os Estados Unidos, onde nasceu o filho mais novo.
«Nunca tínhamos visto a Seleção Nacional e é um motivo de celebração para nós. É uma dádiva de Deus estarmos aqui.»
Com a vida dividida entre Portugal, a Venezuela, o Panamá e os Estados Unidos, a pergunta impõe-se: a Florida é a paragem final desta viagem à volta do mundo?
O pai encolhe os ombros, com a sabedoria de quem sabe que as raízes se levam no coração, e não na morada fiscal. «Não sei. Ninguém sabe. O futuro dirá.»
Por agora, o futuro está do outro lado dos portões do Four Seasons. É que esta família não se dá por derrotada e já pensa em formas de chegar a Ronaldo. Talvez através da praia, num dia em que ele vá pisar o areal. Não sabem, mas prometem não desistir.
Nem eles nem as dezenas de hispânicos que foram ver Portugal chegar, com o sonho de trocarem um olhar com Cristiano Ronaldo.
Afinal de contas ele é um fenómeno sem igual no mundo. Digam o que disserem, só quem olha nos olhos das pessoas percebe a grandeza deste nosso capitão.
