«Pinto da Costa foi das pessoas mais importantes na minha vida»
Depois de sair do Futebol Clube do Porto, de forma atribulada, Sérgio Conceição guardou para si as palavras. Nunca comentou a forma como deixou o clube, na sequência das eleições que levaram ao fim do «reinado» de Pinto da Costa e à entrada de André Villas-Boas, muito menos a forma como foi substituído pelo seu antigo adjunto, Vítor Bruno.
Em sete temporadas nos Dragões tornou-se no treinador mais titulado da história do clube, cultivou uma imagem de técnico astuto, capaz de anular equipas teoricamente mais fortes, de montar equipas competitivas com poucos recursos, mas também de ser humano temperamental.
Sete temporadas em que não vestiu apenas a pele do FC Porto, vestiu mesmo a pele do clube. No fundo, garante, como fez em todos os clubes que representou. Mas a intensidade da passagem pelo Dragão foi tal, que dificilmente se imagina a treinar outro dos grandes em Portugal.
Esteve em Itália, no Milan, e na Arábia Saudita, no Al-Ittihad. Em ambos os casos, apanhou «o comboio em andamento», entrou a meio da época em momentos complicados. Ganhou e perdeu. Lutou. A sua imagem de marca.
Esta entrevista foi feita no dia em que passavam precisamente dois anos da saída do FC Porto. Revisitar o tema era obrigatório. Mas falou-se de muito mais: do ser humano, das origens, da família e do futuro. Que deve passar pelo estrangeiro.
Entrevista a Sérgio Conceição: parte VI
Sérgio Conceição não esconde que a relação de amizade, de confiança, que tinha com Pinto da Costa era especial. Refere-se ao antigo líder portista como «o senhor presidente» e assegura que foi a proximidade entre ambos que permitiu superar muitas das dificuldades vividas no Dragão durante sete temporadas.
MF: Sérgio, já falámos aqui da ligação a Pinto da Costa e até do facto de ter assinado o contrato e de ter, de repente, nas eleições, ficado em um dos lados. O que é que foi para si Pinto da Costa?
Sérgio Conceição: O presidente foi alguém muitíssimo importante, das pessoas mais importantes na minha vida profissional.
Eu cheguei jovem, com 16 anos, ao Futebol Clube do Porto. Andei emprestado por três equipas, voltei ao clube, tive dois anos maravilhosos enquanto jogador e depois regressei numa situação muito difícil, muito difícil, ao Futebol Clube do Porto, onde privei com o presidente de uma forma muito intensa. Vivemos momentos difíceis, outros momentos de grande euforia por conquistas.
Já com dificuldades financeiras?
Muitas, muitas. Nós tivemos três anos, não podemos esquecer, em que o clube estava sob a alçada do fair-play financeiro. Meteu-se no meio também a tal pandemia de que ninguém gostou, a Covid, durante dois anos.
Enfim, foram sete anos muito difíceis, com muitas barreiras, muitos obstáculos a ultrapassar, mas com a persistência, com toda essa determinação que o presidente tinha e que nós tínhamos, fomos ultrapassando com distinção, com mérito, com títulos, com muito trabalho, muita determinação.
Mais realizado como treinador do FC Porto ou como jogador do FC Porto?
Eu posso dizer como treinador do Futebol Clube do Porto, sim.
Apesar de Eriksson ter dito, num documentário, que de todos os jogadores que teve oportunidade de treinar, o Sérgio seria o único que não acreditava que se tornasse treinador. Entende porque é que ele disse isso?
Não sei, talvez… eu tinha um feitio muito especial.
E tem?
E tenho.
Mas não era um jogador fácil…
E não sou um treinador fácil, admito isso.
Mas é uma pessoa fácil?
Depende… (risos).
Como é que o treinador Sérgio Conceição lida com um jogador como era o Sérgio Conceição? Aquela azia de ficar no banco?
Não é fácil lidar. Eu já disse várias vezes que não gostaria de ter um jogador com o feitio que eu tinha. Nunca foi um feitio de prejudicar ou de passar por cima de alguém, mas foi uma ambição muito grande de jogar. Acho que ninguém gosta de perder, já ouvi isto e ouço isto sempre, mas eu lido muito mal com a derrota. Acho que a derrota… não é normal, acho que a vitória é normal.
E essa exigência que eu incuto naquilo no que é a minha vida, a minha vida profissional, leva-me a ser muito rigoroso, a ser um treinador – e, na altura, um jogador – que não é fácil, não era fácil lidar.
E sente que tem essa imagem temperamental, até de alguma rispidez?
Eu acho que na vida só conseguimos ter êxito quando temos determinadas características. Não pode ser num dia queremos treinar ou temos vontade de treinar e no outro dia não temos. Podemos não estar com tão boa disposição, mas o compromisso, essa ambição tem de estar sempre presente no nosso trabalho. Só assim é que melhoramos.
O futebol, a vida é um recomeçar constante, mas se nós não recomeçarmos com a mesma ou com mais ambição, determinação, que tivemos ontem, acaba por ser difícil acompanharmos, porque uma vitória consegue-se, muitas vitórias até se conseguem, títulos já é mais difícil.
Quer dizer, o trajeto de vitórias até chegar a títulos é muito importante e se nós não formos consistentes naquilo que é a nossa performance, no fundo naquilo que damos à nossa profissão, acabamos por perder muito mais vezes do que ganhamos.
Eu senti isso de miúdo, porque o meu percurso foi muito difícil enquanto jogador, e fui criando aqui alguma carapaça, no fundo, da minha própria personalidade, não é?
Pinto da Costa dizia que o Sérgio Conceição é muito boa pessoa, ao contrário do que todos pensam. Como é que interpreta isto?
Não consigo enganar o presidente. Havia uma ligação muito forte entre nós.
Mas sente esta discrepância entre a sua imagem pública e a pessoa que é?
No meio do futebol há muita gente que me conhece para lá daquilo que é o campo e que tem outra opinião, mas eu não ando a bater à porta das pessoas para dizer “não sou assim”.
Eu visto o fato, a pele do clube que estou a representar. Foi uma expressão engraçada que tiveram há pouco tempo em relação a mim, disseram que eu vesti, não só o fato do Futebol Clube do Porto, vesti a pele do Futebol Clube do Porto. Mas eu visto a pele de todos os clubes por onde passo.
As pessoas que vão passando na minha vida, mesmo jogadores, dirigentes, presidentes – e que têm a oportunidade de me conhecer melhor – depois a opinião muda um bocadinho, mas com um grande público é difícil de passar isso. Também porque, lá está, eu se calhar provoco pouco essas situações para que o público goste mais do Sérgio Conceição pessoa do que o Sérgio Conceição treinador.
Será por isso que tem má imprensa? Por nunca falar daquilo que é mais humano? De só ser conhecida a sua parte mais temperamental, mais…
Sim, mas eu vivo bem com isso. Obviamente que eu também provoco alguma… Eu tenho essa noção, de que não tenho tão boa imprensa como alguns colegas meus, mas isso faz parte. Agora, nunca vou expor a minha família ou utilizar algumas pessoas que se vão deparando da minha vida e que eu vou, aqui ou ali, ajudando – e que são algumas – mas não faz parte da minha forma de estar. Deixava de ser uma ajuda genuína e passava a ser algo um bocadinho mais público e de promoção. Eu não sou assim.
