tratar ou “aguentar”? – Observador

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Este é o “Tratar da Saúde”, da Rádio Observador, com a dra. Vanessa Mendes, diretora clínica dos Centros de Saúde CUF. Olá, doutora, bom dia. Bem-vinda.

Olá, bom dia. Obrigada.

Assinala-se hoje, dia 28 de maio, o Dia Internacional da Saúde Feminina, uma data que pretende chamar a atenção para temas muitas vezes subvalorizados na saúde da mulher. E um desses temas é precisamente a menopausa e o impacto que pode ter na qualidade de vida. Durante muitos anos, a terapia hormonal de menopausa ficou associada a medo, a risco e a desconfiança, mas, nos últimos anos, a evidência científica mudou significativamente a forma como olhamos para este tratamento. Doutora Vanessa, estamos finalmente a assistir ao fim do medo em torno da terapia hormonal?

A terapia hormonal de substituição da menopausa consiste na administração de estrogênios, de forma isolada ou associada à progesterona, com o objetivo de compensar a diminuição hormonal característica desta fase. Está indicada sobretudo para mulheres com sintomas moderados a intensos, como sejam eles afrontamentos, alterações do sono, secura vaginal, alterações do humor ou impacto significativo na qualidade de vida. E hoje sabemos que quando corretamente indicada, pode ter benefícios muito relevantes.

Mas, como eu dizia no início, durante muitos anos falou-se muito dos riscos.

Sobretudo após estudos que foram publicados no início dos anos 2000, que geraram grande preocupação relativamente ao risco cardiovascular, trombótico e até ao câncer de mama, que ainda hoje se fala muito. Isso levou, inclusivamente, à introdução de black box warnings pela FDA. São os alertas de segurança mais graves utilizados nos medicamentos, e aqui a FDA relativamente aos Estados Unidos. No entanto, ao longo dos últimos anos, a reanálise da evidência científica vem mostrar que muitos desses riscos foram extrapolados de forma excessiva, sem adequada individualização. E isso foi tão relevante que a própria FDA fez recentemente a revisão e a remoção de parte destes alertas, reconhecendo a necessidade de uma abordagem mais atualizada e baseada na evidência científica atual.

Então, para quem faz sentido considerar a terapia hormonal?

De uma forma geral, os melhores resultados observam-se em mulheres com menos de 60 anos ou até 10 anos após o início da menopausa. É aquilo a que chamamos a janela de oportunidade terapêutica. Nestas situações, quando existem sintomas relevantes e ausência de contraindicação.

É muito importante também.

Os benefícios tendem a superar naturalmente os riscos, sobretudo ao nível do controle dos afrontamentos, a qualidade do sono, a saúde óssea, tão importante, da própria sexualidade e até da parte cognitiva, com a melhoria, por exemplo, da concentração e da energia da mulher.

E há situações em que a terapia hormonal não deva ser utilizada?

Sim. E aqui é muito importante destacá-las, porque as pessoas acham que é igual para toda a gente e não pode ser. A terapia hormonal de substituição não é indicada para todas as mulheres e aqui então existem contraindicações importantes, como antecedentes de câncer de mama, principalmente os hormônio-dependentes, doenças tromboembólicas, doenças cardiovasculares não controladas, mulheres que já tenham tido um AVC, por exemplo, ou doença hepática significativa. Além disso, iniciar terapêutica muitos anos após a menopausa ou até em idades mais avançadas pode também alterar o perfil de risco e por isso a decisão deve ser sempre individualizada e acompanhada clinicamente.

E doutora, que lida com tantos pacientes, sente que hoje a menopausa está finalmente a ser encarada de outra forma?

Sim, e não apenas pelas mulheres. Mas também pela própria comunidade médica, e isto é um fato importante. Pois durante muito tempo a menopausa foi encarada quase como uma fase natural, que a mulher tinha que simplesmente suportar e saber lidar. Mas hoje sabemos que pode ter um impacto muito significativo na saúde física, mental, sexual, metabólica e na qualidade de vida como um todo. E portanto, felizmente, temos atualmente mais conhecimento, mais opções terapêuticas e uma abordagem muito mais personalizada e baseada em evidência científica. Por isso dizer que as mulheres não precisam ter medo da terapêutica hormonal de substituição. O mais importante é garantir que tenham acesso à informação rigorosa, avaliação adequada e acompanhamento ao longo desta fase de vida.

tratardasaude@observador.pt, para onde pode enviar as suas dúvidas. Se preferir, também nos pode enviar o seu áudio por WhatsApp 910024185. Doutora Vanessa, até amanhã.

Até amanhã. Obrigada.





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