João Pedro Luís – Observador

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Seja bem-vindo a um episódio especial do “Geração V”, teu programa de comentário político jovem da Rádio Observador, feito em parceria com o voto, que está em antena há mais de dois anos, todas as sextas-feiras à noite, onde já trouxemos dezenas de convidados e vamos continuar a dar espaço à nossa geração. Hoje temos conosco o João Pedro Luís, que é estudante universitário, mas que está cá na qualidade de candidato à liderança da Juventude Social-Democrata. Olá, João Pedro, bem-vindo ao “Geração V” e obrigado por teres aceitado o nosso convite.
Olá, boa tarde aos dois. Muito obrigado eu pelo convite e pela oportunidade de poder falar sobre o futuro da JSD, mesmo estando à distância.
Sim, obrigado nós. Para dizer que eu sou o Vasco Calhado e ao meu lado tenho o José Paulo Soares, comentador do “Geração V”, que vai conduzir comigo esta entrevista. Olá, Zé Paulo.
Olá a todos, olá, Vasco. Olá, João Pedro.
Olá, boa tarde.
Muito bem, antes de avançar, quero dar a nota de que ontem, terça-feira, recebemos a outra candidata à liderança da JSD, Clara de Sousa Alves, e o episódio já está disponível em todas as plataformas. Muito bem, João Pedro, tal como eu, também outras pessoas que vão ver ou ouvir este episódio não são da JSD ou não estão próximas das Jotas e podem não te conhecer. Por isso começamos mesmo por aí e faço-te a mesma pergunta que fiz à Clara: quem é o João Pedro Luís e como é que chegaste até aqui?
Muito obrigado pela questão, naturalmente uma questão complexa e interessante de responder em causa própria, mas eu diria que o João Pedro Luís é um jovem do interior, de Portalegre, mais concretamente, do distrito com menos população do nosso país.
Que elege menos deputados.
Que elege menos deputados no nosso país, o único dos círculos nacionais que elege apenas dois deputados e que, aos 14 anos, na sequência de uma iniciativa que ainda hoje existe, que é o Parlamento dos Jovens, decidiu, após participar nessa iniciativa, que queria filiar-se numa organização partidária de juventude. Escolheu a JSD, como se sabe, e desde aí, ao longo destes 10 anos de militância, isso tem-me permitido conhecer muito bem a JSD e conhecer muito bem o país. E isso significa que hoje, ao fim destes 10 anos de militância e de dirigismo, estou em condições de conhecer bem aquelas que são as preocupações dos militantes da JSD, saber quais são os anseios dos militantes da JSD e conhecer bem a realidade interna nacional da JSD nas suas mais variadas estruturas. Mas naturalmente que estes 10 anos também me permitiram conhecer bem o país, o país real, o país lá fora, externo à dinâmica partidária da JSD e naturalmente que essa visão nacional, quer da JSD enquanto organização, quer do país e da juventude lá fora, creio que marcam naturalmente estes 10 anos desde a entrada na JSD até ao momento em que nos encontramos.
Muito bem, José Paulo, passo-te a bola.
Sim, João Pedro, já foste aflorando também a resposta à primeira pergunta que tinha aqui pronta para ti, mas gostava de perguntar exatamente por que é que te quiseste candidatar à liderança da JSD. Porquê agora?
Muito bem. A decisão de me candidatar à liderança da JSD foi verdadeiramente muito aprofundada e refletida, e resulta, sobretudo, da conjugação de dois fatores: vontade pessoal e condições políticas. A vontade pessoal, e eu falei um pouco disso, é verdade, na resposta anterior, nasce destes 10 anos de dedicação à JSD, com grande sentido de missão e que naturalmente me permitiu conhecer bem aqueles que são os desafios que esta grande organização tem. Mas naturalmente, há uma avaliação de condições políticas que deve ser feita antes de avançar com uma candidatura, na minha conceção. E essa foi muito positiva, através da perceção junto dos militantes e dirigentes da JSD, aqueles com quem boa parte deles tenho feito caminho na política dentro desta casa ao longo dos últimos anos, de uma expectativa criada de que protagonizasse uma candidatura à liderança da Comissão Política Nacional. Mas, sobretudo, candidato-me à JSD porque entendo que há muito caminho para fazer nesta organização. Tenho muito orgulho dos nossos 52 anos de história, mas efetivamente uma organização da democracia portuguesa, como é a JSD, tem muito caminho para fazer e nós temos todas as condições para iniciar um novo ciclo com uma nova ambição, com uma JSD mais aberta, mais plural e efetivamente mais representativa da voz, dos anseios, das preocupações das novas gerações, porque não há dúvida nenhuma que esse deve ser o papel da JSD, ser a voz da juventude portuguesa.
Eu gostava agora de te perguntar na sequência, tu és hoje secretário-geral da JSD há dois anos, desde o início do mandato do João Pedro Louro. Há uma certa tradição na JSD dos secretários-gerais sucederem os líderes na frente da JSD. Achas que de certa forma esse fator de continuidade, essa normalidade, pode ser uma dificuldade que podes levar para o Congresso deste fim de semana?
Creio que não. É verdade que nas organizações partidárias de juventude, e a JSD não é exceção, muitas vezes os secretários-gerais acabam por ser presidentes, mas também já houve vários secretários-gerais que não foram presidentes e vice-presidentes que foram. Portanto, isso foi dependendo de eleição para eleição. Mas não vejo no meu percurso dentro da JSD uma desvantagem. Antes pelo contrário, entendo que para fazer o que é preciso fazer daqui para frente, é importante conhecer bem a JSD, conhecer bem a militância da JSD, conhecer bem as estruturas da JSD espalhadas pelo país, que como compreenderão, são muito diferentesEntre si não é igual ser militante no Porto, em Braga, em Vila Real, em Portalegre ou em Evora. E portanto, esse conhecimento da JSD, das pessoas da JSD, porque como todas as organizações, a JSD é feita de pessoas, é feita de militantes, são eles o nosso maior ativo e acho que conhecer bem os militantes da JSD não pode ser nunca encarado como uma desvantagem, ou pelo menos eu não encaro isso como uma desvantagem para o Congresso da Juventude Social-Democrata.
Como é que avaliarias neste momento e até agora o mandato do João Pedro Louro? Que tipo de críticas é que farias?
O mandato do atual líder, que durará até domingo, creio eu, é marcado por um aumento muito substancial da representatividade da JSD. Vejamos, a JSD hoje tem um grupo de deputados na Assembleia da República muito numeroso, tem um grupo de deputados na Assembleia Legislativa Regional da Madeira, um grupo de deputados na Assembleia Legislativa Regional dos Açores e tem, gostava de particularmente destacar isto, tem hoje cerca de sete centenas de autarcas, presidentes de junta de freguesia, membros de executivos de freguesia, deputados municipais, presidente da assembleia municipal, vereadores líderes da oposição, vereadores com pelouros, uma presidente de câmara municipal, inclusiva, a Raquel Soares Lourenço, em Sobral de Monte Agraço. E portanto, a JSD aumentou muito aquilo que é a sua voz em centros de decisão muito importantes da política nacional e local do nosso país. E creio que isso hoje nos dá argumento e nos dá uma oportunidade política para, com esta capacidade instalada toda, diversificada nos vários órgãos de centros de decisão, para que a JSD dê um passo em frente, para ter uma nova ambição e uma nova agenda que consiga fazer chegar aos centros de decisão onde está representada por todos estes intervenientes, por todos estes militantes da Juventude Social-Democrata.
Hoje és estudante, deverás ser, se ganhares, o primeiro presidente da JSD estudante em alguns anos, com certeza. Achas que isso é um handicap?
Não, não creio. Em primeiro lugar, não estou certo de que se vencer o congresso seja o primeiro estudante. Mas de qualquer forma, não vejo de todo isso como um handicap nesta candidatura. A JSD é uma organização partidária de juventude que vai dos 14 aos 30 anos e, portanto, nas suas fileiras tem estudantes e tem trabalhadores, naturalmente. E entendo que a JSD ter, não só no seu presidente, mas nos seus órgãos nacionais, jovens mais jovens, também é muito relevante para a identificação que pretendemos que a juventude portuguesa faça com a nossa organização.
Certo, aí está. Se ganhares as eleições, tens 24 anos, portanto serás dos presidentes mais jovens da JSD. Podes ser presidente da J por seis anos, portanto, três mandatos. Esse horizonte está em vista?
Muito honestamente, se vencermos o congresso no próximo domingo, sobre isso creio que se não serei o mais jovem, serei claramente dos mais jovens presidentes da JSD e naturalmente, isso permite que exista um horizonte de estabilidade de um novo ciclo político. Mas naturalmente não estou a pensar neste momento, ao longo deste caminho até ao Congresso, em quantos anos é que poderei ser ou não presidente da JSD.
Uma coisa de cada vez, não é?
A questão é muito simples, porque efetivamente nós temos um congresso no domingo e é certo que daqui a dois anos há outro congresso e daqui a quatro haverá outro Congresso Nacional e quem vai ditando aquilo que é o rumo da JSD, quem é a liderança da JSD, são naturalmente os militantes. Estou neste momento muito empenhado em que nós possamos vencer este Congresso Nacional para iniciar, sim, um novo ciclo político, que naturalmente pode ter, se essa for a vontade dos militantes, um horizonte de estabilidade da JSD.
Certo. Deixa-me só insistir, porque se ficasses três mandatos, ficasses seis anos, serias o líder da JSD com mais tempo em funções, ultrapassando Passos Coelho, que por pouco não chegou aos seis anos. Ser Passos Coelho, que tem esse recorde, tem um sentimento especial?
Efetivamente, a JSD tem nos seus ex-líderes grandes figuras do PSD e do país, como se conhece, naturalmente. Ser detentor desse recorde, como dizias, um ex-primeiro-ministro de Portugal, tem o seu simbolismo, mas naturalmente não estou muito preocupado em ultrapassar essa marca. A única marca que quanto muito tenho vontade de ultrapassar, porque é uma consequência direta de vencermos o Congresso, é efetivamente poder ser presidente da JSD jovem, ou seja, a JSD ter um líder jovem, efetivamente jovem, porque isso sim, depende diretamente do Congresso e acho que é um bom sinal que a JSD dá à juventude portuguesa.
Nas últimas eleições, também muito do facto do distrito de Portalegre, por onde foste candidato, ser eleger de dois deputados, não foste eleito deputado à Assembleia da República. Achas que isso será uma dificuldade na gestão que pretendes fazer da JSD e do teu grupo parlamentar dentro do Parlamento?
Vejamos, nas últimas eleições legislativas, eu fui candidato no círculo eleitoral de Portalegre como número dois atrás do atual ministro da Economia e da Coesão Territorial, Manuel Castro Almeida. Efetivamente, nós não alcançámos o objetivo pretendido e, portanto, o distrito de Portalegre continua sem representação parlamentar, vice-institutos de ser o distrito que elege menos deputados no território nacional. Mas não vejo nisso uma desvantagem, vejo nisso uma circunstância. Efetivamente, a JSD tem de fazer um trabalho no Parlamento, mas a JSD tem um grupo de deputados para assegurar esse trabalho. Eu tenho nesta candidatura e a apoiar-me vários dos deputados da JSD e conto com todos eles a seguir ao CongressoSe nós o vencermos por vontade maioritária dos delegados, poder fazer algo muito efetivo, que é estreitar laços e articular posições com o grupo de deputados da JSD. Eles são os nossos representantes no muito relevante centro de decisão da vida política diária do nosso país e, portanto, seria um desperdício que o presidente da JSD, por não estar no Parlamento, não apostasse naquilo que tem que ser uma voz que a JSD tem de ter na Assembleia da República e terá. Não terá diretamente pela voz do João Pedro Luís, naturalmente, mas terá pela voz de vários intervenientes, de vários deputados. A JSD não é uma organização unipessoal e comigo é presidente, não será de todo. Mas naturalmente que a atividade política da JSD não se esgota na sua ação parlamentar.
Claro.
É uma aposta, naturalmente, e ela será assegurada pelo nosso grupo de deputados, em articulação com a Diretora Nacional da JSD, naturalmente, mas a nossa ação política e a ação política da Diretora Nacional e do presidente, em particular, não se esgota naturalmente na atividade parlamentar. E eu estarei naturalmente muito focado à vida política na JSD, para além do Parlamento, e nós também teremos um grande foco nessa dimensão.
Muito bem, João Pedro, eu queria te perguntar também que balanço é que tu fazes destes dois anos de governo da AD?
O balanço é positivo. Efetivamente, nós vamos com dois anos de liderança do primeiro-ministro Luís Montenegro e do governo da Aliança Democrática, que é liderado pelo partido onde a JSD está integrada. E efetivamente não há dúvidas que nós estamos melhor hoje do que estávamos há dois anos. Sobre isso eu não tenho nenhuma dúvida. Mas naturalmente, a circunstância do PSD hoje liderar o governo, dá à JSD uma responsabilidade muito acrescida.
Não vos tira autonomia?
Não pode retirar. Aliás, e sobre isso, antes de continuar, quero dar uma resposta muito concreta. A minha fórmula de relação com o partido e com o governo será de lealdade institucional e autonomia política. A JSD, naturalmente, e não contem com o presidente da JSD, se for eu, para isso, para se intrometer na disputa pela liderança da oposição entre José Luís Carnero e André Ventura. Esse não é o papel do presidente da JSD quanto a mim. Mas naturalmente, é papel do presidente da JSD reafirmar diariamente a nossa autonomia política. E essa autonomia política só se reafirma, só se concretiza com a JSD ter uma agenda mobilizadora para as novas gerações. Apesar de estarmos no governo, a JSD tem de ter a sua agenda, tem de ter as suas bandeiras, tem de ter as suas causas. E, portanto, esse será o caminho que faremos. Em particular, porque como dizia há pouco, a JSD tem uma responsabilidade acrescida quando nós estamos no governo. É que não se espera só que a JSD seja quem melhor interpreta as opções do jovem português. A JSD não se pode resignar ou limitar a fazer um levantamento de problemas. Nem sequer pode tampouco só ter as melhores propostas ou soluções. Da JSD exige-se resultado. Exige-se que nós consigamos influenciar positivamente as políticas públicas do governo que é liderado pelo nosso partido. E portanto, nós temos de ter essa admissão e exigência com o governo, naturalmente, mas essa admissão e exigência conosco próprios, saber qual é que é a missão da JSD neste contexto político-partidário.
É conhecida a relação nem sempre fácil entre Passos Coelho, líder da JSD, e Cavaco Silva, líder do governo. Essa relação é de alguma forma um modelo para aquilo que esperas fazer?
Não. O modelo e a fórmula é aquela que eu esclareci há pouco. Efetivamente, havia uma relação algo tensa entre o líder da JSD Pedro Passos Coelho e o presidente do partido e primeiro-ministro Aníbal Cavaco Silva. Se eu for presidente da JSD, entre o presidente da JSD João Pedro Luís e o presidente do partido e primeiro-ministro Luís Montenegro, o que haverá é efetivamente lealdade institucional, mas autonomia política. A JSD tem de ter a sua agenda e terá, naturalmente, a sua agenda, mas não participarei na querela para dizer quem é que é o líder da oposição.
Então vamos lá a essa agenda, deixamos a política, entramos nas políticas. Se tivesses que definir a tua candidatura em três, quatro eixos ao nível de policy, o que é que tu definirias?
Bem, a agenda política desta candidatura nasce de uma visão muito evidente, de que esta agenda política para a juventude não pode ser limitada por uma enumeração de problemas, exige posição. Uma organização política que quer representar uma geração, como a JSD, não pode deixar que os outros definam por si a sua identidade. E a JSD, que tem a circunstância de ser uma estrutura e uma organização moderada e, portanto, que tem à sua direita e à sua esquerda concorrentes diretos, não pode nunca existir como um espaço indiferido entre outros protagonistas. Na JSD não se pode adivinhar mais do que se afirma e, portanto, nós temos que ter posições e convicções que naturalmente são subjetivas de ser criticadas, e há quem concorde, há quem discorde. Isso é a democracia, mas creio eu que tem de haver clareza de pensamento. E esta candidatura tem, efetivamente, na área da segurança, na área da inteligência artificial, na área da natalidade e mobilidade, eixos muito estratégicos de intervenção para os próximos anos, para que a JSD consiga efetivamente ter a agenda de que eu falava há pouco, que existe para lá da agenda governativa, naturalmente, e pela qual lutaremos e teremos para vingar, porque uma geração com causas é uma geração que toma posição. É uma geração que tem uma estratégia, não pode deixar dúvidas sobre o que defende. E tenho para mim, temos para nós, que a JSD tem mesmo de ser percepcionada lá foraCom convicções e posições firmes. Eu tenho vindo a dizer muitas vezes ao longo da campanha, de forma se calhar excessivamente repetitiva, mas porque ter convicções e posições firmes que sejam palpáveis, tangíveis, suscetíveis à crítica, naturalmente, creio que é muito importante pra que a JSD consiga ter iniciativa política, liderar a agenda mediática.
Claro.
E acho que esta é a forma que nós temos de conseguir caminhar nesse sentido.
E ao nível dessas posições firmes que falavas, se pudesse elencar três ou quatro das prioridades que vais querer trazer pra agenda uma vez à frente da JSD.
Muito bem. Três ou quatro, eu vou procurar sintetizar. A mobilidade, que eu falava há pouco, tem que ser uma prioridade estratégica pra coesão territorial do nosso país. E por isso é que de forma muito evidente, nós elogiamos a iniciativa do Passe Ferroviário Verde. É indiscutivelmente pra nós uma boa proposta, e que hoje é realidade, mas nós precisamos de conseguir melhorar as ligações entre as capitais de distrito e as ligações entre estas e as duas áreas metropolitanas. Nós queremos que a ferrovia chegue a mais territórios com grande enfoque às capitais de distrito. Mas até lá, naturalmente, até nós conseguirmos que a ferrovia seja efetivamente mais abrangente, não tenho dúvida nenhuma que nós necessitamos de alargar o Passe Ferroviário Verde ao transporte rodoviário, onde a ferrovia ao dia de hoje não chega.
A que nível? Autocarros?
Eu não percebi bem, desculpe.
A que nível ou como é que fazias esse alargamento? Através de autocarros?
Sim, o transporte rodoviário inter-regional passar a ser coberto também por este programa de Passe Ferroviário Verde, porque vejamos: a Viseu, e a título de exemplo, que é onde é o nosso Congresso Nacional, nenhum jovem chegará diretamente de comboio. E portanto, acho que seria uma grande iniciativa se nós pudéssemos alargar o Passe Ferroviário Verde também a Passe Rodoviário Verde, em particular para os territórios e para as ligações que não são cobertas por ligação ferroviária ao dia de hoje. Naturalmente, temos de caminhar pra essa ligação ferroviária, mas sabendo que não é do dia pra noite que ela estará concluída, não temos dúvidas de que alargar o Passe Ferroviário Verde a Passe Rodoviário Verde também, fazer este alargamento, seria um grande sinal de preocupação com a coesão territorial do nosso país.
Sim, havia alguns temas que gostava de trazer aqui pra conversa, até porque foram temas que falamos também com a Clara. Um deles era exatamente o tema do momento, o tema que tem marcado as últimas semanas, que é a lei laboral. Alguns dos críticos da reforma que o governo propõe dizem que vai aumentar a precariedade entre os jovens e que traz muitos desafios, alguns deles inultrapassáveis para os jovens. Olhas pra lei laboral também nesse sentido ou como uma fonte de oportunidade pro futuro dos jovens?
A lei laboral que tem estado em voga nos últimos tempos no panorama político nacional, creio eu que tem uma preocupação que eu subscrevo. É que efetivamente, o mercado laboral português precisa de mais flexibilidade. Mas naturalmente que essa flexibilidade não pode ser sinónimo de precariedade, como dizia na pergunta. E portanto, flexibilidade sim, precariedade efetivamente não.
E como é que se diferenciam as duas?
Eu acho que elas não são causa-efeito, muito honestamente. Porque vejamos, eu creio que era a agenda do Trabalho Digno do PS, acho que era este o termo correto, se não me estiver em nenhum erro. Mas com a agenda do Trabalho Digno do PS, efetivamente nós verificamos que houve um quase total desaparecimento dos contratos a termo, mas essa rigidez não ajudou a aumentar o salário médio. Nós não podemos atribuir a essa rigidez que a agenda Trabalho Digno do PS trouxe, uma consequência de aumentar o salário médio. Efetivamente, em Portugal, o salário mínimo tem aumentado por decreto ao longo dos últimos vários anos, mas os salários em cadeia não estão a subir. E essa rigidez não trouxe um aumento do salário médio. E naturalmente, pra quem é social-democrata, como é o meu caso, pra quem não quer nivelar por baixo, o crescimento dos salários em cadeia, em particular o salário médio, é muito relevante. E eu acho que a flexibilidade do nosso mercado laboral tem nessa componente um papel importante e representa uma grande oportunidade.
Certo. Eu estou aqui a fazer apenas a posição de advogado do diabo. A minha posição particular sobre a lei laboral é conhecida, mas a minha questão ia no sentido de que às vezes parece, quando estamos a discutir a lei laboral, que é apresentada como uma espécie de panaceia, como uma espécie de bala de prata que vai resolver os problemas. A partir do momento em que a aprovarmos, os salários médios vão aumentar. Mas não parece que seja assim.
Efetivamente, não há soluções milagrosas. O que tem de haver na política é caminhos e é estratégia. E a reforma da lei laboral, nesse campo, representa um caminho, uma reforma verdadeira no sentido da acepção da palavra. E acho que é um caminho diferente daquele que o Partido Socialista procurou ter quando liderou os destinos do país. E a conclusão que nós podemos retirar daquela estratégia de maior rigidez que o Partido Socialista procurou ter na agenda do Trabalho Digno, é que essa estratégia não fez aumentar o salário médio. Essa é uma conclusão que nós hoje podemos tirar. Naturalmente, daqui a alguns anos, veja a reforma laboral à luz do dia, nós podemos avaliar quais foram os seus efeitos, e eu também cá estarei pra isso, mas acho mesmo que a flexibilidade representa aqui uma oportunidade de nós podermos ter uma economia mais pujante e que efetivamenteFaça crescer o salário em cadeia e não só o mínimo, como tem sido a realidade do nosso país ao longo dos últimos anos.
Estamos a cerca de cinco minutos de termos de acabar o nosso podcast e a nossa entrevista. E gostava de te perguntar, na sequência do relatório mais recente do FMI, lança algumas críticas à medida do governo do IRS Jovem e que a JSD tem naturalmente apoiado. Diz que a medida não está a cumprir os seus objetivos ou pelo menos não há dados concretos que digam que está a cumprir os seus objetivos, está apenas a criar despesa fiscal e alguma injustiça intergeracional. Como é que olhas para este relatório do FMI e se de alguma forma muda a posição que a JSD tem tido nos últimos tempos?
Honestamente, quanto a mim, não muda em nada a posição da JSD. Foi na JSD que nasceram boa parte das ideias que hoje viram a luz do dia com o governo da AD nesta matéria e que o governo tem procurado implementar, dando consistência a uma prioridade política. O governo, efetivamente, tem dado uma centralidade política muito grande às novas gerações. Eu sou novo, como se sabe, mas eu não me recordo, e mesmo em conversas com pessoas com a outra idade, há pouca gente que se recorde, o governo tenha dado uma centralidade política tão grande às novas gerações. E portanto acho que isto tem que ser avaliado nessa perspectiva. Não na perspetiva da desigualdade intergeracional, mas sim de uma prioridade política às novas gerações. Efetivamente, estas medidas não resolvem o problema todo, naturalmente que não resolvem, mas representam um caminho. E um caminho que foi atuar ao nível da procura e que naturalmente tem que ser equilibrado com outras propostas ao nível da oferta. Mas efetivamente, o que o governo fez foi, nesta fase transitória, diga-se, em que efetivamente sabemos que não é fácil estabilizar o custo da habitação pelo lado da oferta rapidamente, quem é que se devia procurar apoiar mais. E foi a escolha do governo, uma opção política que tem sido reiterada por vários membros do governo, foi a juventude portuguesa. Efetivamente, eu subscrevo esta preocupação, porque acho que ninguém pode considerar que não seja prioritário no rumo da governação, nós invertermos uma sangria de jovens, uma perda de talento anual que Portugal tem vindo a enfrentar nos últimos anos. E, portanto, o governo tem tido com bastante coragem, creio eu, uma estratégia de dar motivos aos jovens portugueses para não emigrarem. Infelizmente, isto neste momento é difícil de quantificar ou de avaliar, mas acho que representa uma preocupação muito grande da juventude portuguesa que a JSD deve, quanto a mim, apoiar.
Última pergunta. Sim, gostava então de te fazer uma questão relativamente ao cenário em que as coisas correm mal no fim de semana e perdes a eleição. Como é que contas contribuir para a JSD no futuro? Ainda serás militante da Jota alguns anos mais. Como é que contas poder contribuir no futuro para a Jota caso este congresso venha a correr mal?
Muito bem, naturalmente que o resultado do congresso está nas mãos dos delegados, que vão escolher a nova liderança e as novas equipas das várias áreas nacionais no domingo. Se o resultado ditar que a confiança maioritária da JSD foi recolhida por outra candidatura e que portanto a candidatura que eu encabeço sai derrotada, aceitarei com toda a humildade e com todo o espírito democrático. Naturalmente que tendo eu 24 anos e portanto tendo mais seis anos de militância da JSD, continuarei no quadro de militante, que é a função a que regresso passado alguns anos nessa circunstância, a dar o meu contributo. A JSD tem direção nacional, tem estruturas distritais, tem deputados, tem autarcas, mas tem sobretudo militantes. E naturalmente, se essa for a vontade do Congresso da JSD, eu continuarei a dar o meu contributo na qualidade de militante da JSD. Tenho muito orgulho nesta organização com 52 anos de história.
Uma nova candidatura daqui a dois anos faria sentido?
Acho que não é o momento para estar a pensar nisso. Estou muito focado em procurar no Congresso dizer olhos nos olhos aos delegados, porque é que entendo que esta candidatura é a candidatura que tem mais condições para iniciar um novo ciclo na JSD.
Muito bem, João Pedro, para terminar, dou-te agora um minuto para apelares ao voto dos militantes da JSD.
Muito bem, obrigado por esta oportunidade final. Mas em primeiro lugar, e não querendo tirar muito tempo com isto naturalmente, eu quero agradecer mais uma vez o convite para poder estar e para poder participar, mesmo estando à distância na Madeira, por isso queria de forma especial agradecer.
Obrigado nós, fazia todo sentido termos ambos os candidatos.
Mesmo neste formato digital alternativo.
Exato, mas o que interessa é que estamos a conversar.
Para me receberem e por isso quero agradecer. Mas efetivamente, eu creio que a candidatura A Força do Futuro conjuga uma equipa e um projeto. Uma equipa verdadeiramente representativa da JSD de todos os distritos e das duas regiões autónomas, mas tem, sobretudo, um projeto político. Um projeto político assente numa grande preocupação da JSD ser a voz das novas gerações. E creio eu que isso só se faz liderando a agenda mediática e recuperando a iniciativa política. E para conseguirmos ter iniciativa política, temos de ter convicções e posições firmes. Efetivamente, a JSD, e nós temos feito isso ao longo das últimas semanas, em temas muito diversos, ter propostas tangíveis, palpáveis, concretas, em áreas muitas vezes controversas, como na segurança. Mas efetivamente, o que eu acho que é muito importante que haja é uma estratégia para o futuro da JSD. É que haja clareza de pensamento, que haja coragem para assumir aquilo em que se acredita. Nós fizemos esse caminho, vamos continuar a fazer esse caminho no Congresso Nacional e depois naturalmente deixaremos a decisão para os delegados da JSD.
Muito bem, o nosso tempo chegou ao fim. Muito obrigado, João Pedro, por teres vindo. Tudo a correr bem e até breve. Obrigado, João Pedro.
Obrigado eu.
Obrigado também ao meu parceiro do episódio de hoje, Zé Paulo Soares. Obrigado, Vasco. Lembrar que podes ver ou ouvir a entrevista à outra candidata, Clara de Sousa Alves. O Geração V é uma parceria entre o Ó Voto e a Rádio Observador. Podes ouvir-nos na rádio, em podcast e ver-nos em vídeo no YouTube. Eu sou o Vasco Galhardo, muito obrigado por estares desse lado. Tudo a correr bem e até breve.
