Conservadores de ouro. Os sete prémios do Congresso do CDS – Observador

Conservadores de ouro. Os sete prémios do Congresso do CDS – Observador



Nuno Melo foi premiado pelo reforço muscular da sua liderança. Paulo Núncio fez uma pega de caras a quem quer fundir o CDS com o PSD. Francisco Rodrigues dos Santos teve honras de Trotsky nos ecrãs. Manuel Monteiro foi o “levezinho” do Congresso. Já Cristas foi uma das vencedoras do prémio ‘Isto só vídeo’. Aí estão os “Conservadores de Ouro”, os prémios criados pelo Observador para o 31° Congresso do CDS.

O CDS, como defensor do mundo rural e do prazer das carnes, não tem grande problema em chegar a fontes de proteína. O líder centrista pode, no entanto, precisar de alguns suplementos nutricionais para o que aí vem. É que Nuno Melo garante que, nos próximos anos, o partido “vai ganhar músculo junto das estruturas locais”. Tendo em conta as ausências relevantes do Congresso, a dúvida é se o músculo vai ser na categoria de pesos pesados ou nos pesos pluma.

No final do verão passado, Paulo Núncio tentou pegar um bezerro, em Vila Franca de Xira, mas acabou colhido. Desta vez escolheu uma arena mais segura, um palco político, para se atirar de caras a outra investida. Numa altura em que o partido mergulha sobre o que fazer para sobreviver a um futuro teste eleitoral, o centrista Diogo Feio apareceu a defender a fusão do CDS com o PSD. Núncio não gostou e, sem meias medidas, atirou-se ao colega de partido da forma mais direta que encontrou. “Como é possível equacionar a fusão do CDS? Que feio, que ideia mais feia.” Nesta pega não houve dúvidas sobre o que pretendia fazer o líder parlamentar do CDS. Nem cornada de volta (até ver).

Na União Soviética, Stalin mandou apagar o rival Trotsky de todas as fotografias em que apareciam juntos, para firmar a sua posição de único herdeiro legitimo de Lenin. Nos antípodas ideológicos, o CDS apresentou ensaiou a mesma tática naquilo que foi um quase apagão de Chicão das fotografias que foram passando no ecrã gigante do Congresso. A sua era começou por ser descrita pelo próprio Nuno Melo como “aventureirista” e até foi notado o seu “abraço ao preâmbulo da Constituição” – como chamou Paulo Núncio à recente aproximação do Francisco Rodrigues dos Santos das posições socialistas. E num longuíssimo filme que passou no painel gigante do Congresso, quando todos saíram para almoçar, foi visto em apenas uma singela fotografia dos momentos felizes do partido – até Sebastião Bugalho (que foi candidato a deputado no tempo de Cristas) e Adolfo Mesquita Nunes (que se desfiliou do partido) aparecem mais vezes nessas recordações.

Manuel Monteiro apareceu de surpresa em Alcobaça para um apoio a Nuno Melo num congresso especialmente despido de figurões do CDS. Diz que leu num jornal que os “pesos pesados” do partido não iam e ele pensou: “Então têm de ir os pesos leves”. Não foi apenas uma galhofeira referência à sua figura sempre franzina. O antigo líder ironizava face aos tais “pesos pesados” ausentes, os quadros do partido com maior destaque público que desaparecem numa altura em que o partido se debate – ele mesmo – com uma possível insignificância e diluição na AD. Há uns anos, Liedson, o avançado franzino que marcava golos atrás de golos ganhou a alcunha de Levezinho. No CDS há agora Monteiro, o “peso leve”. Já marcou golos (tirou o partido do táxi e passou-o para uma mini-van), afastou-se e depois voltou como ombro amigo de Nuno Melo, talvez para tentar mostrar-lhe que houve tempos em que foi possível ter o CDS a marcar sozinho, em vez de estar comodamente sentado no banco da AD.

É verdade que faltaram muitas figuras de relevo ao Congresso do CDS. O único ex-líder que apareceu foi mesmo Manuel Monteiro. Mas houve várias presenças em vídeo. Assunção Cristas apareceu nos ecrãs, com uma mensagem de cerca de um minuto, a registar que o partido estava vivo. No domingo, os pesos-pesados que apareceram foram todos em vídeo, como foi exemplo da presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen, a presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola, ou o líder do PP espanhol, Alberto Núñez Feijóo.

A líder da Juventude Popular teve o mérito de apimentar um congresso que se previa tão empolgante como um duche frio. Catarina Marinho conseguiu marcar a agenda do congresso com a discussão sobre se (e quando) o CDS deve voltar a votos sozinho. Ao último minuto, abdicou de levar a moção a votos depois de uma conversa privada com Nuno Melo. Teve, no entanto, de ouvir críticas a partir do púlpito. Um dos congressistas pró-Melo, lembrou que, nas autárquicas de outubro a líder da jota foi candidata à presidência da Câmara do Cadaval pelo CDS, a sós, e teve apenas 23 votos (0,3%), enquanto o PSD ganhou com maioria absoluta. O jeito que uma AD teria dado ao CDS no Cadaval.

As primeiras linhas do partido foram jurando durante o fim de semana que têm real influência na AD. Entre os congressistas, foram vários os que elegeram a proibição de bandeiras “ideológicas, partidárias ou associativas” em edifícios públicos como uma das principais alterações legislativas com a “marca CDS”. Ora, o último dia do Congresso dos centristas calhou ser também o Dia Internacional de Luta contra a Homofobia, Transfobia e Bifobia e para celebrar o executivo da Câmara de Lisboa, integrado pelo CDS, decidiu hastear a bandeira LGBTQIA+. O episódio pode explicar uma das receções mais frias a um dos nomes homenageados do Congresso. Durante o discurso de Sofia Athayde da concelhia lisboeta do CDS, um agradecimento a Carlos Moedas foi correspondido com menos de uma dezena de aplausos.





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