Trump anuncia acordos “fantásticos”, mas China não confirma promessas

Trump anuncia acordos “fantásticos”, mas China não confirma promessas


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  • Em 15 de março, Trump e Xi Jinping se encontraram em Pequim, onde o presidente dos EUA declarou ter fechado acordos comerciais “fantásticos”.
  • Trump afirmou que a China compraria ao menos 200 aviões Boeing, compromisso que a fabricante confirmou como inicial, sem garantir pedidos futuros.
  • Ele também disse que a China aumentaria a compra de petróleo americano, mas o porta‑voz chinês Guo Jiakun não confirmou nenhum acordo, citando apenas cooperação energética global.
  • Analistas dos EUA, como o Atlantic Council e o LA Times, avaliaram a cúpula como decepcionante e sem grandes vitórias para a Casa Branca.

Após reunião com o presidente chinês Xi Jinping em Beijing, o presidente americano Donald Trump afirmou na sexta-feira (15) que a visita produziu acordos comerciais que classificou como “fantásticos” e disse ter sido uma “visita incrível”.

Na imprensa dos EUA, a história não foi a mesma: o encontro foi descrito por analistas estadunidenses como um evento sem grandes vitórias para a Casa Branca. Na Time, uma manchete diz que a visita é a evidência de que o poder no mundo migrou do Ocidente para o Oriente. O Atlantic Council afirmou que a cúpula foi “decepcionante” para os EUA e o LA Times questionou se Trump não foi superado por Xi durante o encontro.

Um dos destaques que pode elucidar a questão está na coletiva de imprensa do Ministério de Relações Exteriores da China desta sexta-feira (15), concedida após o fim da visita do estadunidense.

O governo dos EUA anunciou uma série de acordos econômicos, mas a chancelaria chinesa, questionada sobre cada um dos temas, não confirmou nenhum compromisso específico.

O que Trump disse — e as respostas da China

Trump declarou que a China concordou em comprar ao menos 200 aeronaves da Boeing, com possibilidade de o número chegar a 750. A própria Boeing afirmou, em nota à CBS News, que a viagem foi um sucesso e que obteve “compromisso inicial de 200 aeronaves”, esperando novos pedidos nas próximas etapas.

Questionada sobre o assunto, a chancelaria chinesa não confirmou a compra. O porta-voz Guo Jiakun afirmou apenas que “as relações econômicas e comerciais entre China e EUA são mutuamente benéficas” e que ambos os lados devem agir com base nos “entendimentos comuns alcançados entre os dois chefes de Estado”. As ações da Boeing caíram 3,8% na sexta-feira.

Trump afirmou que a China concordou em comprar mais petróleo americano. A chancelaria foi questionada diretamente pela AFP sobre se houve compromisso de compra de petróleo. Guo Jiakun não confirmou nenhum acordo, dizendo que “a China está pronta para trabalhar com todas as partes para garantir a segurança energética global”, e acrescentou que “a tarefa urgente é restaurar a paz e a estabilidade no Golfo e no Oriente Médio”.

Trump também anunciou que a China concordou em comprar “bilhões de dólares em soja” e outros produtos agrícolas americanos. Questionado pelo NYT sobre o tema, o porta-voz também também não confirmou nenhum acordo, afirmando que “as duas partes alcançaram entendimentos comuns importantes sobre a manutenção de laços econômicos e comerciais estáveis”, sem detalhar produtos, volumes ou cronogramas.

O New York Times perguntou se houve novos entendimentos sobre o fornecimento de terras raras. Guo Jiakun não confirmou nenhum acordo e disse apenas que “a China publicou relatórios sobre as reuniões” e que “está sempre comprometida em manter as cadeias de suprimentos globais estáveis e seguras”.

Sobre controles de exportação de semicondutores americanos, tema levantado pelo New York Times, o porta-voz disse apenas que “a parte chinesa deixou clara sua posição de princípio sobre a exportação de chips dos EUA para a China em múltiplas ocasiões”, sem detalhar nenhum acordo.

A Casa Branca afirmou que a China concordou em ajudar a reabrir o Estreito de Hormuz. Questionada pela AFP, a chancelaria não confirmou nenhum compromisso específico nesse sentido. Guo Jiakun reafirmou a posição geral da China sobre o conflito no Oriente Médio, defendendo o diálogo e a negociação, e disse ser “importante reabrir as rotas de navegação o mais rápido possível”, sem vincular essa declaração a qualquer acordo bilateral com os EUA.

O que a China disse

Um relatório foi publicado pelo chanceler da China, Wang Yi, abordando os temas e acordos estabelecidos após a viagem de Trump a Beijing.

Wang Yi descreveu o encontro como “histórico” e afirmou que as discussões foram “abertas, aprofundadas, construtivas e estratégicas”.

O principal resultado político da cúpula foi o acordo para construir uma “relação construtiva de estabilidade estratégica” entre China e Estados Unidos. A formulação foi descrita por Wang Yi como uma diretriz estratégica para os próximos três anos e além.

O conceito é estruturado em quatro dimensões segundo a interpretação chinesa: estabilidade positiva, com cooperação como eixo principal; estabilidade saudável, com competição mantida dentro de limites e sem transformá-la em jogo de soma zero; estabilidade constante, com continuidade de políticas e previsibilidade; e estabilidade duradoura, baseada na coexistência pacífica e no respeito mútuo.

Sobre a necessidade de previsibilidade, o chanceler afirmou que “ambos os lados devem manter a continuidade e a estabilidade das políticas” e que “é muito importante que ambos os lados honrem suas palavras e avancem na mesma direção”.

As duas partes estabeleceram canais ativos de cooperação em política externa, relações militares, economia e comércio, saúde pública, agricultura, turismo e segurança. Wang Yi indicou que os canais diplomático e econômico devem continuar ativos para “ampliar a lista de cooperação e reduzir a lista de irritantes”.

Líderes empresariais americanos acompanharam Trump durante a visita. Segundo Wang Yi, todos “afirmaram ter profundo compromisso com o mercado chinês e querer expandir seus negócios aqui”.

A questão de Taiwan foi tema da cúpula. Wang Yi reiterou a posição de Beijing: “A questão de Taiwan é assunto interno da China.” O chanceler descreveu a independência de Taiwan e a paz no Estreito como “irreconciliáveis como fogo e água”.

Sobre o posicionamento americano, Wang Yi afirmou que “a impressão que saiu da cúpula é que o lado americano compreende a posição da China, leva a sério as preocupações chinesas e, como o restante da comunidade internacional, não concorda nem aceita que Taiwan avance em direção à independência”.

Xi anunciou uma iniciativa para convidar 50 mil jovens americanos à China em programas de intercâmbio e estudo ao longo de cinco anos. Wang Yi destacou que a medida “foi bem recebida e ativamente apoiada por ambas as sociedades”.

Sobre o Oriente Médio, Wang Yi afirmou que Xi enfatizou que “o uso da força não pode resolver problemas, e o diálogo é a única escolha correta”. O chanceler acrescentou que Beijing “encoraja os EUA e o Irã a continuar resolvendo suas diferenças por meio de negociação, inclusive na questão nuclear”.

Sobre a Ucrânia, Wang Yi reconheceu a complexidade do processo: “Não há solução simples para um problema complexo, e não se pode esperar que as negociações de paz alcancem sucesso da noite para o dia.” China e Estados Unidos, segundo ele, “manterão comunicação e desempenharão um papel construtivo na solução política da crise”.




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