SNS está na fase “aguenta, coração”? – Observador

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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, Jesus.
Se calhar é um bom conselho este da calma, não é, Bruno? Porque o SNS em Portugal está naquela fase “aguenta coração”.
É a operação coração agora aplicada ao SNS. É o que os números mostram. As listas de espera para cirurgia cardíaca aumentaram cerca de 40% no último ano. Também as cirurgias oncológicas estão a demorar mais. E tudo isto no Serviço Nacional de Saúde, que já vive há algum tempo num modo de gestão de esforço. Os problemas são os antigos, são os de sempre: falta de profissionais, uma pressão constante, os hospitais a funcionar muito perto do limite. De vez em quando, lá se anunciam umas melhoras, mas é sol de pouca dura. E quando falamos de cirurgias cardíacas e oncológicas, já não estamos a falar daqueles pequenos procedimentos cirúrgicos, o que significa que a saúde do SNS não anda lá muito bem.
Paulo, acabou a saga sobre a Lei da Nacionalidade?
Acabou, e para os proponentes não acabou propriamente da melhor forma, já que o Tribunal Constitucional chumbou aquela norma que previa a pena acessória da perda de nacionalidade para condenados por alguns crimes. Mas o PSD parece que vive muito bem com esse chumbo, já que antecipava esse chumbo, por isso não fez questão até de propor esse artigo no Código Penal e não na própria Lei da Nacionalidade, que assim ficou livre de risco de violação da Constituição. O PSD já disse que não vai insistir nesta norma chumbada, encerra assim o processo. E quem fica neste caso a falar sozinho é o Chega. Que foi o inspirador desta regra chumbada, mas agora não tem possibilidade de fazer o que quer que seja, a não ser ficar a protestar. Portanto, nada de novo aqui nesta matéria.
E por falar no Chega, Chega e PSD não se entendem, Bruno?
Entendem-se às vezes, e é precisamente isso que torna algumas zangas mais interessantes. Também podemos, a propósito da Lei da Nacionalidade, falar numa espécie de zanga ou um desentendimento, mas desta vez o PSD decidiu chumbar uma comissão de inquérito proposta pelo Chega à Operação Influencer, dizendo o PSD que há uma investigação judicial em curso e, portanto, não faz sentido avançar para a Comissão Parlamentar de Inquérito. André Ventura respondeu como seria de esperar, acusou o PSD de proteger interesses e perguntou ao Partido Social-Democrata do que é que tem medo. No fundo, os dois partidos continuam naquele ponto intermédio complicado. Estão demasiado próximos para fingirem uma distância total, mas também ao mesmo tempo são demasiado diferentes em alguns aspetos essenciais para parecerem aliados estáveis.
Pois é. Então e agora, Paulo, como é que o PCP vai votar no Parlamento o voto de pesar pela morte de Carlos Brito?
Se mantiver a linha habitual, no fundo, de diabolização de todos aqueles que divergiram, mesmo depois de muitos anos entregues à causa e a militar no partido, o PCP só poderá votar contra. Ou então sair da sala, por exemplo, antes da votação, e assim não tem que definir o sentido de voto. Mas esta clarificação vai ter que ser feita, quer o PCP se incomode com ela ou não, porque a Guiá Branco apresentou um voto de pesar pela morte de Carlos Brito. O Bloco de Esquerda também o fez, também apresenta um voto de pesar. É bem possível que os dois textos, dos bloquistas e do presidente da Assembleia da República, venham a ser fundidos num só, já que são muito semelhantes. Falam da luta contra o regime durante a militância comunista de Carlos Brito. Ele esteve oito anos preso, foi torturado, conseguiu escapar e acabou no exílio fora do país. E também falam depois do seu afastamento do PCP, quando o partido se manteve soviético para além da União Soviética. A votação deverá ocorrer na sexta-feira e, com ironia, vamos ver se ainda teremos o PCP e o Chega a votarem lado a lado contra a memória de Carlos Brito.
Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, Jesus.
