A pergunta do Datafolha que rendeu “92% de aprovação” a uma obra de Ricardo Nunes

A pergunta do Datafolha que rendeu “92% de aprovação” a uma obra de Ricardo Nunes


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  • Em 10 de maio, a jornalista Alexandra Moraes, ombudsman da Folha de S.Paulo, questionou a pesquisa Datafolha que apontou 92 % de aprovação ao complexo Sena Madureira, obra do prefeito Ricardo Nunes.
  • Os resultados foram divulgados em nota da Folha e em propaganda da prefeitura exibida em totens de pontos de ônibus na cidade de São Paulo.
  • Moraes alerta que a formulação da pergunta e recortes seletivos podem distorcer a percepção pública, risco ampliado em ano eleitoral.
  • O Datafolha afirma que pesquisas contratadas pela prefeitura seguem seus padrões metodológicos, embora a divulgação dependa do contratante.

Neste domingo (10), a jornalista Alexandra Moraes, que exerce a função de ombudsman do jornal Folha de S.Paulo, aponta para um fato observado por leitores do periódico paulistano, uma nota com o título “Pesquisa Datafolha mostra 92% a favor de novo complexo Sena Madureira”. O texto repete dados de propaganda da prefeitura de São Paulo que pode ser vista em totens de pontos de ônibus e em outros locais da capital paulista.

Embora a análise da jornalista aborde a questão do conteúdo produzido pela área comercial do veículo, que não tem ligação com a redação e se dedica à produção de publieditorial, o que chama a atenção é um outro ponto: a postura do Datafolha.

Segundo o tradicional instituto de pesquisas, “as pesquisas contratadas pela prefeitura seguem os padrões de metodologia e rigor do instituto”. E a divulgação delas, em parte ou total, depende do contratante. “O problema é que recortes malfeitos podem colocar na linha de fogo o próprio Datafolha. Em ano eleitoral, não parece boa ideia”, alerta a jornalista.

E, tendo em vista o modo como a pergunta foi formulada aos entrevistados, a suposta aprovação por parte dos entrevistados fica em xeque. Eis como foi elaborada a questão:

“A cidade de São Paulo vai ganhar o novo Complexo Viário Sena Madureira, que prevê a construção de dois túneis que ligarão a rua Sena Madureira à avenida Ricardo Jafet, na zona sul. A obra deve beneficiar mais de 800 mil pessoas por dia. Hoje, o trajeto entre a Chácara Klabin e a avenida Ibirapuera demora cerca de 20 minutos. Com o novo túnel, o mesmo trajeto poderá ser feito em até três minutos. Também haverá melhoria do tráfego para 45 linhas de ônibus da região. Você aprova ou desaprova a obra?”

Diante de uma pergunta feita dessa forma, fica difícil a qualquer entrevistado reprovar a obra, já que são “vendidas”no questionamento apenas vantagens para a cidade.

Datafolha e repercussão nas redes

No X (ex-Twitter), o vereador paulistano Nabil Bonduki comentou a forma como o levantamento foi feito. “92% aprovaram o túnel. Hoje divulgaram a pergunta da pesquisa encenada pela Prefeitura. Leiam a pergunta e tirem suas próprias conclusões”, questionou o parlamentar.

Na mesma rede social, o jornalista Demétrio Vecchioli também abordou a questão. “Como confiar em um instituto que divulga aprovação/reprovação de algo sem dizer que a pergunta listava só os pontos positivos? Estamos em ano eleitoral, afinal. As pessoas precisam confiar nos institutos de pesquisa. E o Datafolha era o principal deles”, avalia.

Investigação do Ministério Público

A divulgação da pesquisa Datafolha e a campanha da prefeitura de São Paulo acontecem na mesma semana em que o Ministério Público de São Paulo abriu inquérito para investigar o projeto de construção do túnel Sena Madureira para apurar os impactos urbanísticos que o projeto viário deve causar no entorno.

O MP recebeu, segundo a CBN, relatos de “possíveis irregularidades, omissões técnicas e desconformidades legais nos estudos apresentados para justificar o projeto” como “fragilidades estruturais relevantes” no Estudo de Viabilidade Ambiental.

A iniciativa vem após quatro vereadores, Nabil Bonduki, Renata Falzoni (PSB), Marina Bragante (Rede) e Professor Toninho Vespoli (PSOL) terem enviado em março uma representação apontando um estudo técnico com alternativas à construção do túnel, exigindo poucas intervenções, baixo impacto urbanístico e custo estimado em cerca de R$ 1 milhão, cerca de 0,16% dos R$ 622 milhões previstos para a obra.






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