Governo tem pressa em vender TAP face ao risco de uma crise – Observador

Governo tem pressa em vender TAP face ao risco de uma crise – Observador



Não há qualquer divulgação de números, por causa das cláusulas de confidencialidade, mas o ministro das Infraestruturas sublinhou que, com propostas estratégicas e industriais muito próximas e a cumprir todos os critérios do caderno de encargos, a avaliação financeira poderá ter “um papel preponderante” na escolha do vencedor. Também Miranda Sarmento assinalou que, na próxima etapa, os concorrentes têm “margem para alterar as propostas e melhorá-las. O processo competitivo reabre-se neste prazo.”

De acordo com a informação veiculada, as propostas não vinculativas entregues pela Air France-KLM e Lufthansa cumpriram todos os critérios do caderno de encargos para esta fase:

Na oferta de transporte aéreo asseguram a conetividade às regiões autónomas, países de língua portuguesa e da diáspora. Conferem um papel de relevo ao hub de Lisboa no contexto europeu e querem expandir a operação no Porto. Apostam no crescimento da rede longo curso e admitem integração em consórcios do Atlântico Norte, o que permitiria à TAP ter condições mais vantajosas nos voos para os Estados Unidos e Canadá.

No plano de frota, os planos preveem investimentos para suportar a expansão da TAP, o acesso a opções de frota no âmbito do grupo que beneficiem de sinergias de aquisição e o aumento da dimensão média da frota em Lisboa.

Na manutenção e engenharia, deram foco ao crescimento dos serviços localizados em Portugal para clientes internos e terceiros e ao crescimento do emprego nesta área.

Na produção de combustíveis sustentáveis, é prometido o acesso a parcerias globais e o apoio à produção nacional de SAF (combustível sustentável para a aviação). Os candidatos mostraram alinhamento com a estratégia de descarbonização da aviação associada à construção do novo aeroporto de Lisboa.

As propostas financeiras devem associar um preço em euros pelas ações da companhia. À venda estão 44,9% da TAP, percentagem que pode subir até aos 49,9% em função da adesão dos trabalhadores à tranche que lhes está destinada. E envolver propostas de valorização financeira para a TAP, mas também para o encaixe imediato e futuro do Estado (podem neste ponto aparecer propostas de devolução da ajuda público, a prazo). Os candidatos terão de explicar como vão financiar estas propostas, podendo o recurso a dívida ou a capitais próprios ser um elemento importante na avaliação das propostas.

As propostas técnicas têm de incluir o plano industrial e estratégico para a TAP e os benefícios esperados destes planos. Devem dar uma visão quantificada sobre as sinergias esperadas da integração da TAP, e que serão distintas para os dois grupos, e ganhos para a companhia. A proposta deve respeitar a legislação nacional e o direito da concorrência e reportar as condicionantes à operação — por exemplo autorização de reguladores da aviação e da concorrência.

Nesta fase, os concorrentes vão ter acesso a toda a informação sobre a TAP, podendo iniciar processos de due dilligence relativos aos dados. Um dos temas que poderá ser aprofundado nesta fase são os processos judiciais contra a TAP e as suas implicações financeiras, como a ação da companhia brasileira Azul e o contencioso laboral com tripulantes.

Tal como já foi sinalizado, a valorização financeira dada à TAP aparece à cabeça da lista de critérios onde constam também a experiência técnica, as garantias de sustentabilidade financeira, o plano industrial com o desenvolvimento de setores estratégicos com a manutenção da marca e da sede, salvaguarda das ligações, assunção de riscos regulatórios, respeito pelo direito e valorização dos trabalhadores e a visão para a segunda fase de venda da TAP. Ainda sem data, e sem apoio político à sua realização, a segunda fase da privatização envolve a cedência da maioria do capital da companhia aérea.

Os dois selecionados foram rápidos a reagir. Fonte oficial da Air France-KLM realça que a “TAP encaixa totalmente na estratégia multi-hub da Air France-KLM, e o nosso objetivo é reforçar as operações em Lisboa, ao mesmo tempo que desenvolvemos a conectividade noutras cidades do país, incluindo o Porto”.

Acreditando “firmemente” que “o próximo capítulo da história desta companhia aérea deve ser escrito enquanto parte do Grupo Air France-KLM”, a empresa destaca o compromisso de “fazer de Lisboa o seu hub único no Sul da Europa e integrar a TAP seguindo a abordagem única do Grupo face à consolidação, que privilegia a cooperação dentro de um enquadramento claro”.

Logo a seguir, a Lufthansa reiterou “o forte interesse na TAP Air Portugal, que considera uma companhia com elevado valor estratégico no panorama da aviação europeia.” E manifestou confiança “na nossa capacidade de apresentar uma oferta sólida, atrativa e competitiva para Portugal”.

A empresa alemã assinala ainda como pontos fortes da TAP, a posição geográfica, a força da sua marca e a sua presença em mercados-chave de crescimento que conferem a Lisboa um papel relevante nas considerações estratégicas do Grupo”. E diz que identifica oportunidades “para reforçar a conectividade, expandir rotas estratégicas e apoiar o crescimento sustentável de longo prazo da TAP, criando valor para a empresa, para Portugal e para todos os stakeholders”.

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