Escritoras evangélicas estão no catálogo do MEC Livros – 23/04/2026 – Cotidiano
O livro de Queren Ane, intitulado “Meu Entardecer no Outono”, está entre os mais acessados na plataforma MEC Livros. Sua popularidade, medida em visualizações, o coloca lado a lado com um clássico da literatura brasileira e leitura obrigatória nos currículos escolares, “Dom Casmurro”, de Machado de Assis.
O MEC (Ministério da Educação) lançou há poucos dias o aplicativo MEC Livros. Fiz o login utilizando minha conta Gov.br para conferir os títulos disponíveis. São cerca de 8.000 títulos distribuídos entre romance, fantasia, suspense, terror, história, teatro, literatura de cordel, biografia, ficção científica, infantojuvenil, contos e crônicas, quadrinhos e aventura.
Eu não estava buscando especificamente por livros de autores evangélicos. Na verdade, nem sequer imaginei encontrá-los na plataforma, visto que as listas de literatura educacional tendem a privilegiar autores clássicos, tanto da literatura brasileira quanto da estrangeira.
Logo na seção biografia deparei-me com dois pastores conhecidos: Martin Luther King e Eugene Peterson. Há também uma biografia do escritor cristão C.S. Lewis e uma autobiografia de Philip Yancey, um dos escritores evangélicos contemporâneos mais lidos.
Entretanto, é na área de literatura que a presença evangélica no aplicativo MEC Livros se torna ainda mais forte, com destaque para o predomínio de mulheres como autoras. Além de Queren Ane, aparecem Arlene Diniz, Maria S. Araújo, Thaís Oliveira, Lavínia Queiroz e Vitória Souza.
“Círculos Não São Infinitos”, segundo romance de Valéria Souza, foi escolhido para ser adaptado pela Rede Globo em uma parceria com a Editora Mundo Cristão, conforme matéria nesta Folha. No aplicativo MEC Livros é possível ler “Aurora”, o primeiro romance de Vitória Souza.
O aplicativo MEC Livros, segundo nota do Ministério da Educação, foi estruturado seguindo critérios que priorizam a diversidade literária, cultural e linguística do país. Além da diversidade representada pela perspectiva religiosa das autoras, uma busca rápida da região onde residem algumas das autoras assinala no mapa Pará, Bahia e Minas Gerais, ou seja, estão fora do eixo cultural Rio de Janeiro/São Paulo.
A inclusão de romances e literatura de ficção de inspiração evangélica no MEC Livros não deveria ser interpretada como abertura de espaço para promoção de proselitismo religioso. Trata-se de autoras criando literatura a partir de suas experiências de vida, das suas crenças e de seus valores.
Quem se dedica à leitura de autores cristãos, como C.S. Lewis e J.R.R. Tolkien, reconhece a dualidade em suas obras: a narrativa propriamente dita e o universo simbólico que os autores professam. Enquanto leitores não religiosos apreciam a história em sua superfície, o público de fé cristã frequentemente busca um significado mais profundo, realizando leituras alegóricas de personagens e acontecimentos, em busca de ensinamentos espirituais.
É uma boa notícia que jovens evangélicos estejam escrevendo literatura e o MEC Livros seja um espaço de diversidade cultural. Novos escritores e novos leitores devem ser celebrados e apoiados sempre, ainda mais em um país como o Brasil, que, além das dificuldades históricas para promover a leitura, enfrenta a concorrência da internet no tempo que os jovens dedicam aos livros.
Hoje, no aplicativo MEC Livros, jovens escritoras evangélicas figuram lado a lado com Machado de Assis. É possível que, em um futuro não muito distante, algumas delas ocupem cadeiras na ABL (Academia Brasileira de Letras), a “casa de Machado de Assis”. Se isso vier a ocorrer, farão companhia ao poeta Carlos Nejar, pastor evangélico, que desde 1988 ocupa a cadeira número 4 na ABL.
