Jornalistas usam IA, mas temem efeitos negativos no setor – Observador

Um relatório do Observatório da Comunicação (OberCom) e do CENJOR conclui que uma maioria de jornalistas já utiliza Inteligência Artificial (IA), mas muitos receiam efeitos negativos na confiança no jornalismo e no emprego.
Cerca de 70% dos jornalistas que responderam ao questionário afirmaram ter usado a IA generativa nos últimos seis meses, um terço utiliza-a diariamente e 38% temem a perda progressiva de competências jornalísticas tradicionais, segundo o relatório “Inteligência Artificial e Jornalismo, práticas e formação em Portugal”.
O relatório, da autoria de investigadores do OberCom e feito em colaboração com o Centro Protocolar de Formação Profissional para Jornalistas (CENJOR), com o apoio do Sindicato dos Jornalistas, partiu de um questionário ‘online’ aos jornalistas a exercer atividade em Portugal e será publicado pelo IBERIFIER, Observatório Ibérico de Média Digitais de Portugal e Espanha.
O objetivo era compreender como os jornalistas avaliam a “integração de ferramentas de IA nas práticas jornalísticas nas redações em Portugal” e identificar “o que tem sido feito ao nível da formação nesta área”.
As principais conclusões apontam para uma tendência clara: a IA “tem contribuído para aumentar a produtividade nas redações” e foi essa a resposta dada por mais de 70% dos inquiridos.
Segundo o estudo, oito em cada 10 jornalistas referiram usar a IA para pesquisa e mais de metade refere ter sido para traduções (57,8%) e transcrições, nomeadamente de entrevistas (53,3%).
Estes números, segundo os investigadores, comprovam a “tendência para esta tecnologia ser usada de modo complementar ao trabalho do jornalista”, como traduções e transcrições de entrevistas, que permitem ao jornalista “ganhar tempo” e possibilitar-lhe “um maior foco na interpretação e escrita de conteúdo jornalístico”.
Os investigadores concluem ainda que existe “uma tensão entre a adoção da IA e das suas ferramentas nas redações e as incertezas relativamente ao seu impacto no jornalismo”.
“Deduz-se nesta análise a constatação de uma certa ‘questionação existencial’ dentro da profissão”, alertam, “associada ao impacto da IA não só no jornalismo propriamente dito, mas também em estruturas sociais mais amplas, como sejam os mercados de trabalho”.
As plataformas mais utilizadas, de acordo com o relatório, são o Chatgpt (66%), Gemini (35%), Copilot (27%) e Perplexity (22%).
A coordenação científica do relatório coube aos investigadores Pedro Caldeira Pais, Miguel Crespo, Paulo Couraceiro, Ana Pinto-Martinho, Miguel Paisana, António Vasconcelos, Gustavo Cardoso e Vania Baldi.
O IBERIFIER é um projeto ibérico que visa combater a desinformação e integra mais de vinte centros de investigações e universidades, as duas agências de notícias de Portugal e Espanha (Lusa e EFE) e ‘fact-checkers’.
Os investigadores do Obercom e CENJOR recomendam o reforço da formação nesta área, com especial atenção às questões éticas e deontológicas. No inquérito, uma grande maioria dos inquiridos (71%) disse ter aprendido a usar a IA sozinho, por tentativa e erro, reconhecendo, generalizadamente, que usam prompts’ (instruções ou pedido) com pouca precisão.
E 55% afirmam que as empresas “não fornecem acesso pago às ferramentas”, pelo que a “inovação é um processo solitário”, refere-se ainda nas conclusões.
Para o grupo de investigadores, a insistência dos jornalistas na “necessidade de maior formação ética e profissional pode ajudar a explicar parte” da desconfiança com a IA e está “aparentemente ligada a uma perspetiva idealizada do que pode significar exercer jornalismo e ser jornalista”.
Em números, 33% reconhecem existirem incertezas quanto ao impacto da IA e quase metade (46%) acredita que vai afetar a confiança no jornalismo, dado estar a lidar-se “com preocupações éticas e deontológicas”. A conclusão é que “falta formação aprofundada nesta área”, a que existe “é pontual e manifestamente insuficiente”.
Por isso, os autores do relatório propõem um reforço da formação, envolvendo as empresas de media e instituições de ensino.
As parcerias entre os media e instituições de ensino podem “não apenas ajudar a identificar necessidades e um caminho formativo mais nítido e global, como permitir que se disponibilizem cursos mais curtos, intensivos e flexíveis (‘online’ e presencial) que combatam particularmente uma perceção de falta de tempo dos profissionais”.
Além das ferramentas de Inteligência Artificial e na literacia funcional, recomendam ainda que a formação aborde “questões éticas e deontológicas, que parecem desafiadas por esta tecnologia”.
“Deve ser valorizado um diálogo entre aspetos práticos e teóricos, já que as dimensões éticas e deontológicas são, num tema especialmente complexo como é o da IA, a base para o resto da formação”, lê-se no relatório.
