Chuck Norris morre aos 86 e encerra era brucutu de Hollywood
Eu estava em Milão, atravessando a Galleria Vittorio Emanuele II e tentando manter a compostura europeia, quando me chega a notícia que derruba até nostalgia de homem hétero que nunca chorou em público. Chuck Norris morreu aos 86 anos. E não estamos falando de qualquer ator, estamos falando de uma entidade da porrada cinematográfica, um monumento de chapéu, barba e coturno emocional que ajudou a fabricar o imaginário bruto de Hollywood entre os anos 1980 e 1990. 
A morte foi confirmada pela família, que disse que ele partiu cercado pelos seus, pedindo privacidade neste momento. A causa não foi divulgada. O susto já vinha sendo armado desde a internação no Havaí, depois de uma emergência médica em Kauai. O mais espantoso é que, pouco antes, Chuck ainda aparecia treinando e, segundo relatos, seguia bem-humorado, fazendo piada como se o próprio corpo tivesse esquecido que tinha 86 anos. 
Tô conferindo o feed entre uma loja e outra na Via Montenapoleone e a internet está exatamente como eu imaginava, metade em luto sincero, metade desenterrando meme velho, frases exageradas e aquela mitologia digital do “Chuck Norris Facts”, que transformou o homem numa espécie de semideus da grosseria invencível. E essa é a parte mais curiosa, ele não foi só estrela de ação, foi um personagem que sobreviveu à própria filmografia e virou folclore pop. Pouca gente consegue isso sem precisar morrer primeiro. 
Mas antes de virar piada de internet com bíceps sobrenatural, ele construiu um currículo de respeito. Ex-militar da Força Aérea dos Estados Unidos, seis vezes campeão mundial de karatê, parceiro de cena de Bruce Lee em Way of the Dragon, astro de títulos como Missing in Action, The Delta Force e depois rosto de Walker, Texas Ranger. Minha leitura, com aperitivo já tomado e paciência curta, é simples, Chuck Norris representava um tipo de masculinidade que hoje parece quase peça de antiquário, dura, monolítica, sem ironia, vendida como se bala, trauma e envelhecimento fossem meros detalhes técnicos. 
No fim, o que morre com Chuck Norris não é só um ator. Morre um pedaço da fantasia de invencibilidade que o cinema de ação vendeu com gosto para uma geração inteira. Em Milão, eu olho para isso e penso com a frieza possível, até os homens que pareciam feitos de couro, pólvora e slogan acabam virando memória. E talvez o único golpe realmente impossível de devolver seja esse.
