Deputada pede cassação de Fabiana Bolsonaro por blackface – 19/03/2026 – Mônica Bergamo
Deputados da Alesp (Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo) acionaram o Conselho de Ética da casa contra a deputada estadual Fabiana Bolsonaro (PL) para a cassação de seu mandato pela prática de blackface e falas consideradas transfóbicas durante sessão no plenário da casa, na quarta (18). Duas representações foram encaminhadas pela bancada do PSOL.
Em um dos documentos encaminhado ao conselho, a deputada estadual Monica Seixas (PSOL) defende que o ato —quando uma pessoa branca pinta o rosto ou o corpo para simular uma pessoa negra, historicamente associado à ridicularização e desumanização dessa população— é uma grave violação aos princípios constitucionais. Ela também denuncia a colega por “reforçar estigmas e deslegitimar a capacidade de pessoas trans para o exercício de funções de destaque”.
Em nota enviada à Folha, a representante acusada nega o uso de blackface e afirma que a manifestação não foi um deboche, e sim sinal de reconhecimento e respeito pela luta histórica do povo negro.
Fabiana —que não tem relação de parentesco com a família Bolsonaro— pintou o corpo com base para peles negras em um protesto contra a escolha da deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) para a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher na Câmara dos Deputados.
“Eu tive os privilégios de uma pessoa branca durante toda a minha vida. Agora, aos 32 anos, decido me maquiar, me travestir como uma pessoa negra. E agora, virei negra?”, questionou.
A fala foi interrompida por Seixas, que levantou questão de ordem e acusou Fabiana de transfobia e racismo. Monica também pediu a suspensão da sessão e da transmissão, além de censura por discurso de ódio.
Fabiana rebateu, afirmando que realizava um “experimento social” e que era formada em direito. A discussão teve que ser interrompida pelo presidente da sessão, Fábio Faria de Sá (Podemos).
Apesar das acusações, ele não cassou a palavra da deputada e permitiu que ela esgotasse o tempo de fala. Disse ainda que encaminharia o caso à presidência da Casa.
“A alegação de ‘experimento social’ não exclui a ilicitude. Pelo contrário, confirma o dolo: a deputada utilizou conscientemente elementos de desumanização histórica (blackface) para provocar uma reação”, argumenta Seixas no pedido de perda de mandato. O documento é assinado por 18 parlamentares, incluindo a autora.
Monica Seixas também registrou, na quarta, boletim de ocorrência contra Fabiana por discriminação racial na Decradi (Delegacia de Repressão aos Crimes Raciais e Delitos de Intolerância).
As deputadas estaduais Ediane Maria (PSOL) e Thainara Faria (PSOL) também entraram com notícia-crime no MPF (Ministério Público Federal) e representação no MP-SP (Ministério Público do Estado de São Paulo), respectivamente.
Veja, a seguir, trecho da nota da deputada estadual Fabiana Bolsonaro:
“Como deputada, afirmo com total clareza e responsabilidade jurídica: durante minha presença no Plenário da Assembleia Paulista não fiz blackface. É uma mentira deliberada para tentar calar um debate legítimo.
Blackface, historicamente, é a caricatura depreciativa e racista em que uma pessoa branca pinta o rosto de preto para ridicularizar, humilhar e estereotipar pessoas negras. O que eu fiz na tribuna da ALESP foi exatamente o oposto: em minha manifestação, afirmei meu respeito pelas pessoas que sofrem com violência e preconceito racial, deixando claro que o simples fato de aplicar uma base escura sobre minha pele não me permitiria saber do sofrimento de tantos brasileiros que sofrem diariamente o inaceitável preconceito. Não sou negra, e por isso não tenho lugar de fala em favor dos negros, mas aproveitei para deixar claro o meu respeito e afirmar que não sofro com esse odiável preconceito, porque não sou negra.
Em nenhum momento debochei, fiz piada ou desrespeitei a luta histórica do povo negro. Pelo contrário: reconheci e respeitei essas dores reais.
O sentido de minha manifestação foi claro: em minha opinião, assim como eu não me torno negra só porque pintei a pele, ninguém que não nasceu mulher deve ser chama a representar com legitimidade as dores biológicas, psicológicas e históricas que só as mulheres biológicas sentem.”
com DIEGO ALEJANDRO, JULLIA GOUVEIA e KARINA MATIAS
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