‘Cuba tem o povo mais anti-imperialista da América Latina’, afirma historiadora

‘Cuba tem o povo mais anti-imperialista da América Latina’, afirma historiadora


Enquanto Donald Trump intensifica suas ameaças à América Latina — com o sequestro do presidente Nicolás Maduro, a guerra contra o Irã e agora declarações sobre “tomar Cuba” —, a ilha caribenha enfrenta sua pior crise energética em décadas. Com apagões constantes, escassez de combustível e uma população exaurida por mais de 60 anos de bloqueio, o governo cubano tenta resistir enquanto o mundo assiste.

A historiadora e cientista política Joana Salém é categórica: o risco de uma agressão estadunidense a Cuba é alto. “Neste segundo mandato, Trump tem realizado suas ameaças. Do tarifaço ao sequestro de Maduro, passando pelo assassinato de lideranças no Irã, é muito possível que ele tenha interesse real em invadir Cuba, numa modalidade análoga ao que aconteceu na Venezuela”, declara no Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato.

No entanto, ela pondera que a história recente mostra os limites do poder estadunidense. “Não basta retirar a cabeça de um sistema com enraizamento social para fazer mudança de regime. Na Venezuela, o governo bolivariano segue firme nos princípios. No Irã, a mesma coisa. Trump consegue desencabeçar governos, mas não realizar mudanças de regime. Em Cuba, poderia acontecer algo análogo.”

Sobre a capacidade de defesa cubana, Salém reconhece as limitações tecnológicas. “Existe um relativo sucateamento tecnológico das Forças Armadas cubanas, que acompanha o sucateamento industrial da ilha decorrente do bloqueio. A superioridade militar estadunidense é evidente. Não devemos esperar uma equivalência tecnológica.”

A força cubana, historicamente, esteve no enraizamento popular. “O povo cubano tem a formação anti-imperialista mais vasta da América Latina. Existe uma tradicional capacidade de mobilização popular militar. Mas não sei se isso seria suficiente para um ataque hipertecnológico com armas supersônicas que inviabilizam qualquer defesa.”

Sobre a possibilidade de uma intervenção nos moldes da Venezuela — com a substituição da liderança por alguém “mais flexível” —, Salém vê obstáculos intransponíveis. “Diferentemente da Venezuela, as empresas estadunidenses não atuam em Cuba. A integração econômica entre os dois países é mínima. Não existe dentro de Cuba um representante da posição trumpista com poder relevante para substituir Díaz-Canel.”

Ela lembra que, apesar das nuances internas, o anti-imperialismo é um elemento unificador da política cubana. “Seria praticamente impossível que Trump encontrasse alguém com representatividade mínima para cumprir esse papel. Um títere, talvez, mas isso seria uma invasão ainda mais explícita.”

Salém alerta para setores extremistas nos EUA que pressionam por uma ação violenta. “Existe um sentimento de vingança dessa população herdeira de proprietários expropriados pela revolução. Grupos terroristas já tentaram atentar contra Cuba, e a contra inteligência cubana evitou dezenas de ataques desde os anos 1990. Esses setores aplaudiriam uma invasão violenta.”

No entanto, ela pondera que Trump precisa calcular os custos. “Invadir o Irã não é trivial, e ele está isolado — até governos de direita da Europa disseram que a guerra não é deles. Isso dá a Cuba alguma proteção relativa, mas não elimina o risco.”

Sobre a situação interna, Salém reconhece o descontentamento popular. “A crise é muito crítica. Apagões constantes, falta de combustível, uma inflação que engoliu aumentos salariais. Por mais politizada que uma pessoa seja, existe um cansaço estrutural. O cotidiano se tornou muito difícil.”

Ela cita os protestos de 2021 como exemplo. “Havia uma parte orgânica, legítima, naqueles protestos. Díaz-Canel foi pessoalmente dialogar com as comunidades. Agora, com os apagões, a situação se repete. É compreensível que haja revolta.”

Sobre a posição brasileira, Salém vê avanços, mas insuficiências. “Desde 2023, há uma política permanente de doação de medicamentos. Mas o mais importante agora seria petróleo. Se a Petrobras fosse de fato uma empresa guiada por princípios públicos, poderia doar combustível a Cuba. Mas ela responde a interesses privados e acionistas.”

Ela reconhece o cálculo eleitoral de Lula. “A extrema direita tem capital político gigantesco, e o cenário é complexo. Mas, neste momento, ajudar o povo que sofre na mão do imperialismo — mais de 11 milhões de pessoas — deveria ser prioridade acima de cálculos eleitorais.”

Salém encerra com um chamado à comunidade internacional. “O bloqueio é condenado todos os anos na ONU [Organização das Nações Unidas] por todos os países, com exceção de Israel e EUA. Esse consenso precisa se transformar em ajuda concreta. Cuba precisa de combustível, de alimentos, de medicamentos. E precisa que o mundo não normalize a agressão imperialista.”

Para ouvir e assistir

O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.



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