Copom reduzir a taxa Selic em 0,25 ponto ‘é uma migalha’, critica economista
Enquanto o Banco Central dos Estados Unidos manteve sua taxa de juros entre 3,5% e 3,75%, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Brasil anunciou uma redução de apenas 0,25 ponto percentual na Selic, que agora passa para 14,75% ao ano. A decisão, tomada em meio à pressão de caminhoneiros e ao aumento do diesel, escancara a subordinação da política econômica aos interesses do setor financeiro.
Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, o economista Paulo Kliass defende que uma política econômica efetiva deve priorizar a população em vez dos acionistas privados. “0,25 ponto percentual em 15% é literalmente nada. É uma migalha, um ‘amendoim’, como dizem os americanos. Não influencia em absolutamente nada. O que importa é o spread bancário, que continua elevadíssimo, e o Banco Central há anos faz cara de paisagem”, afirma.
Ele lembra que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nomeou todos os atuais diretores do Banco Central, incluindo o atual presidente, Gabriel Galípolo. Porém, em meio a uma guerra que causa impacto direto nos preços dos combustíveis, não se vê que o Banco Central vá mudar sua forma de olhar a economia.
“Se tivesse baixado 1% a cada reunião, já estaríamos na faixa de 7% ou 8%, o que seria razoável. Em vez disso, Galípolo aumentou a Selic. Agora não tem como culpar (o ex-presidente da República Jair) Bolsonaro ou (o ex-presidente do Banco Central Roberto) Campos Neto”, critica Kliass. O economista destaca que o Brasil paga mais de R$ 1 trilhão em juros, por ano. “É uma loucura. O Copom precisaria baixar a taxa de forma expressiva, mas continua privilegiando a rentabilidade financeira em detrimento do crescimento e do desenvolvimento.”
Kliass aponta duas medidas fundamentais para mudar o quadro: a primeira seria baixar a Selic de patamar efetivamente, “não com migalhas”. Em segundo lugar, o Banco Central deveria cumprir sua função de regulador e fiscalizador do sistema financeiro, limitando o spread bancário (a diferença entre os juros que os bancos pagam e aqueles que eles cobram dos clientes que tomam empréstimos). “Não é possível que os bancos cobrem mais de 400% no cartão de crédito rotativo”, destaca.
Ele lembra ainda que o governo Lula tem uma terceira alternativa: usar os bancos públicos como instrumento de política. “A Caixa, o Banco do Brasil, o Banco do Nordeste, todos poderiam baixar seus spreads e forçar a concorrência. Foi o que a presidenta Dilma fez, com a campanha ‘Vem para a Caixa você também’. Mas os bancos privados e a grande mídia pressionaram, e ela recuou”, relembra.
“As pessoas não sentem os efeitos do aumento do salário mínimo ou da isenção do IR porque tudo já está comprometido com dívidas. É uma política integrada que precisa ser revista”, conclui.
Guerra e petróleo
Sobre o reajuste do preço do diesel, Kliass critica a decisão da Petrobras e a postura dos governadores, que não aceitam reduzir impostos. “A empresa aumentou R$ 0,38 nas refinarias, num momento em que os caminhoneiros ameaçam greve. O governo zerou o PIS/Cofins, deu R$ 3 bilhões em subvenção, mas os estados não mexeram no ICMS. É uma tática da direita para pressionar o governo em ano eleitoral”, afirma.
Ele lembra que o Brasil tem condições de se proteger das oscilações de preços externos dos combustíveis. “Não precisamos ficar reféns das oscilações especulativas do mercado internacional ou de guerras como esta contra o Irã. A Petrobras é uma empresa pública e deveria ser usada para atender o projeto nacional de desenvolvimento, não para alimentar lucro de acionistas privados.”
Kliass ressalta que a venda de refinarias e da BR Distribuidora no governo Bolsonaro foi extremamente prejudicial para o país, além de deixar o Brasil mais vulnerável nessa situação.
“Foram privatizadas refinarias no Rio Grande do Norte, na Bahia e no Amazonas, justamente em regiões mais afastadas, onde a Petrobras poderia ajudar a reduzir desigualdades. Foram vendidas a preço de banana. Hoje o posto ainda tem a bandeira verde e amarela, mas é privado. O governo perdeu a capacidade de regular preços na ponta. No Amazonas, o preço do combustível é um absurdo, justamente por causa dessa lógica”, explica.
Kliass conclui com um apelo ao governo. “O momento é grave. O governo precisa negociar com os caminhoneiros, cancelar o aumento do diesel e usar a Petrobras como instrumento de política pública. Se não fizer isso, vai entregar de bandeja para a oposição uma pauta que pode unificar o descontentamento e comprometer a reeleição.”
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