Pobre de direita? A dissonância Atlas e a nova clivagem social

Pobre de direita? A dissonância Atlas e a nova clivagem social


00:00


Modo claro


Modo escuro

A+
A-

  • Pesquisa Atlas indica inversão da clivagem histórica: Lula tem maior rejeição entre os mais pobres e maior aprovação entre os mais ricos desde o final de 2024.
  • Datafolha e Quaest não registram o mesmo padrão, mantendo a correlação tradicional de Lula com os estratos de menor renda.
  • Especialistas divergem sobre a causa: mudança real no comportamento eleitoral ou diferenças metodológicas, como coleta digital e modelagem estatística.
  • Na disputa Lula x Flavinho Bolsonaro, o estrato de 2 a 5 salários mínimos é decisivo, com tendência de crescimento da direita nesse segmento.

Durante quase duas décadas, a clivagem de renda estruturou de maneira relativamente estável o conflito entre lulismo e antipetismo no Brasil. Desde 2006, em um processo já analisado brilhantemente por André Singer, em Os sentidos do Lulismo, consolidou-se um padrão no qual Lula aparecia como candidato dos mais pobres, isto é, a probabilidade de voto no PT em eleições presidenciais aumentava conforme diminuía a renda, enquanto seus adversários apresentavam melhor desempenho nos estratos superiores. Essa associação tornou-se um dos eixos centrais para interpretar o comportamento eleitoral no país, ainda que jamais tenha organizado da mesma forma as eleições legislativas e as eleições subnacionais para o Executivo. Mesmo assim, a aversão ao Lula e o antipetismo têm sido organicamente associada às elites quer sob a forma de um projeto neoliberal crítico às concessões às classes trabalhadoras quer, mais recentemente, sob a forma de uma crítica moral às transformações nas hierarquias sociais e simbólicas associadas ao patriarcado, enquanto sistema que articula renda, raça e posicionamento econômico.

Alguns elementos demonstram que essa correlação está em processo de mudança, sendo a própria vitória de Jair Bolsonaro uma evidência incontestável de que a direita tem sido capaz de se popularizar, organizando preferências sociais e transformando-as em comportamento político. Em uma pesquisa corrente no Lappcom, analisamos a importância das variáveis sócio-econômicas nas eleições de 2014, 2018 e 2022, os resultados ainda estão sendo consolidados mas é possível perceber o ganho de importância de outras variáveis que não unicamente econômicas. De forma similar, em outros textos recentes de análise de conjuntura destacamos a importância de outras esferas da vida que, em conjunto da renda, estão conformando visões políticas diferentes dentro dos mesmos estratos de renda, uma delas é a religião, que tende a aproximar estratos mais pobres da direita, outra é o ganho de status social durante o acumulado dos governos do PT, que gera no Nordeste uma tendência de aproximação do PT. Essa análise foi melhor explorada em outros textos mas são importantes de serem lembradas, uma vez que os resultados recentes apresentam discordâncias e padrões possivelmente disruptivos dentro dessa mecânica.

A série recente da Atlas tem evidenciado este processo. Na última pesquisa, o governo Lula registrou 51,7% de ruim ou péssimo entre os que recebem até dois mil reais e no estrato de dois a três mil reais, além de 53,3% entre os que recebem de três a cinco mil reais. Nos resultados gerais, o ruim ou péssimo soma 48,4% e o ótimo ou bom 42,7%, com queda de cinco pontos percentuais desde o levantamento anterior . Ao mesmo tempo, o governo apresenta percentual de bom ou ótimo superior ao ruim ou péssimo apenas nos dois estratos mais ricos — cinco a dez mil reais (49%) e dez mil reais ou mais (54%) .

No plano eleitoral, o dado é ainda mais expressivo: Flávio Bolsonaro aparece à frente de Lula entre os que recebem até dois mil reais (47% a 32,5%), enquanto Lula lidera entre os eleitores de renda mais alta, com 51% e 58% nos estratos de cinco a dez mil e dez mil ou mais, respectivamente .

Se considerados isoladamente, esses números sugeririam uma inversão da clivagem histórica de renda. Entretanto, para compreender a natureza dessa excentricidade, é necessário observar a série histórica da própria Atlas.

A inflexão ocorre em agosto de 2024: quando as clivagens auferidas pela Atlas se deslocam do padrão histórico observado até então. Esta inversão, contudo, não ocorre de forma abrupta. Em fevereiro de 2024, a Atlas registrava 28% de ruim ou péssimo entre os que recebem até dois mil reais e 44% entre os que recebem de dois a três mil reais . Em maio de 2024, os percentuais passam para 32,6% e 45,6%, respectivamente .

Em agosto de 2024, a rejeição alcança 40,4% no estrato até dois mil reais e 47,5% no grupo de dois a três mil reais . Em dezembro de 2024, na pesquisa “Latam Pulse Brasil”, os números chegam a 41,1% e 47,7%. Comparando fevereiro e dezembro de 2024, a rejeição no estrato até dois mil reais passa de 28% para 41,1%.

No mesmo período, o movimento entre os estratos superiores segue direção distinta — lembrando que qualquer mensuração nestes segmentos possui uma margem de erro consideravelmente superior, tendo em vista o menor escopo da amostra. O ótimo ou bom entre os que recebem de cinco a dez mil reais varia de 39,8% para 48%, enquanto no grupo acima de dez mil reais permanece em torno de 54%. Em síntese, considerando apenas a série histórica da Atlas, é possível afirmar que a partir do final de 2024, Lula aparece mais aprovado entre os mais ricos e mais desaprovado entre os mais pobres segundo a Atlas. A manutenção dessa configuração ao longo de 2025 reforça o padrão. Em agosto de 2025, o ruim ou péssimo atinge 55% entre quem ganha até dois mil reais, 60% entre dois e três mil reais e 53% entre três e cinco mil reais . Em outubro de 2025, os percentuais permanecem elevados: 52%, 49% e 48%, respectivamente .

No mesmo período, contudo, os demais institutos não registram movimento equivalente. No Datafolha, para o grupo de até dois salários mínimos em 2024, o ruim ou péssimo foi de 29% em março, mantendo o patamar de 24% em junho e outubro . O ótimo ou bom nesse grupo foi de 40%, 42% e 46% nas mesmas rodadas. A direção é distinta da observada na Atlas. Na Quaest, por sua vez o movimento é mais errático, a desaprovação no grupo até dois salários mínimos foi de 35% em maio, 26% em julho, 32% em outubro e 34% em dezembro de 2024 . O comportamento é descrito como estável quando comparado à trajetória ascendente da Atlas . O que emerge dessa comparação é uma divergência prolongada entre as mensurações auferidas pelos institutos de pesquisa. Enquanto Datafolha e Quaest mantêm um padrão compatível com a clivagem histórica de renda, a Atlas registra, desde 2024, um crescimento consistente da rejeição nos estratos de menor renda e manutenção ou crescimento da avaliação positiva nos estratos superiores. Os resultados trazidos até agora podem ser vistos no gráfico a seguir:

ddec0f15 9234 4d60 a5de d1aec714a25f

Dados mais recentes do Datafolha, em pesquisa feita em março de 2026, indicam que o presidente Lula conta, entre os que ganham até 2 salários mínimos, com 36% de bom/ótimo, 29% de regular e 34% de ruim/péssimo. De forma similar, a aprovação do governo no mesmo estrato conta com 52% de aprovação frente a 43% de desaprovação. Os resultados mostram uma dificuldade do governo Lula até nas classes mais pobres, indicando uma eleição acirrada, mas, diferentemente da Atlas, a inversão não se confirma: a aprovação do governo nos estratos de renda é decrescente. Quem aprova são 42% entre os que ganham de 2 a 5 salários mínimos, 45% entre os que ganham de 5 a 10 e 23% entre os que ganham mais de 10. Novamente, a comparação mais recente entre Atlas e Datafolha seguem no gráfico a seguir:

c374fa7f 461f 42d7 935f a11511498cba

Esses números corroboram o que já tínhamos destacado em outros textos durante o início deste mandato: o público que recebe entre 2 e 5 salários mínimos é agora um eleitorado em disputa entre o PT e o bolsonarismo, representando um importante ativo para a direita, visto que é o último estrato com grande densidade eleitoral. Por outro lado, o PT segue mais forte no estrato mais pobre e o bolsonarismo permanece avassalador no estrato mais rico. Esse padrão acompanha uma tendência recente, em pesquisa realizada em setembro de 2025 o Datafolha indicou 57% de aprovação entre os que ganham até 2 salários mínimos e 39% de reprovação, enquanto para o estrato mais rico, a mesma pesquisa mostra 38% de aprovação e 62% de reprovação. Já em outubro, os resultados indicam que a aprovação entre os que ganham até 2 salários mínimos foi de 55%, com 41% de reprovação, enquanto, por outro lado, foram registrados 47% de aprovação entre os que ganham dez ou mais salários mínimos, frente a 50% de reprovação. Apesar de uma variação positiva entre os mais ricos nesse período, Lula segue sendo melhor aprovado entre os mais pobres e menos aprovado entre os mais ricos, sem caracterizar, em momento algum, a inversão trazida pelos resultados da Atlas.

Na breve série histórica recente, o Datafolha mostra uma oscilação da aprovação de Lula frente aos resultados de setembro de 2025. Dentro do grupo que ganha até dois salários mínimos, as variações foram de 52% em setembro, para 57% em dezembro e voltando para 55% em março de 2026. Como a margem de erro é de dois pontos percentuais, o quadro indicado mostra um saldo positivo de Lula dentro desse recorte. Enquanto isso, entre os que ganham dez ou mais salários mínimos, a série mostra 39% de aprovação em setembro de 2025, 49% de aprovação em dezembro e 23% de aprovação em março de 2026, indicando uma queda de 26% na comparação entre março de 2026 e outubro de 2025 – aqui, contudo, a margem de erro é de 11 pontos percentuais, tornando essas flutuações mais imprecisas.

Outro resultado do recente Datafolha que também reforça essa posição é que, na disputa de um provável segundo turno, Lula aparece com 46% das intenções de voto e Flávio Bolsonaro (PL) com 43%. Se olharmos estrato a estrato veremos, respectivamente: 52 x 37 entre os que ganham até 2 salários mínimos, 40 x 48 entre os que ganham de 2 a 5, 44 x 47 entre os que ganham de 5 a 10 e 21 x 62 entre os que ganham 10 ou mais salários mínimos. A vitória folgada de Lula no estrato mais pobre não seria compensada apenas com a vitória folgada de Flávio entre os mais ricos se não fosse pelos 48% entre os que ganham de 2 a 5 salários mínimos. A pesquisa indica um resultado diferente do indicado pela Atlas, em que a proximidade entre os candidatos se dá pelo motivo oposto — Lula mais forte entre os mais ricos e Flávio mais forte entre os mais pobres. Esses resultados pode ser vistos melhor no gráfico a seguir:

d9590670 9e5c 4f54 9153 994bd4c73e85

Pobre de direita ou erro metodológico? 

O desafio de capturar as transformações do tempo presente e a aposta do Lappcom

Com base estrita nos dados apresentados, duas possibilidades permanecem em aberto. Ou a Atlas está captando precocemente uma mudança estrutural na composição social do apoio eleitoral das forças da direita, ou diferenças metodológicas — como categorias de renda distintas e coleta digital — estão produzindo uma leitura alternativa do comportamento dos estratos populares.

Sobre esta segunda hipótese, muito se especula sobre a capacidade das pesquisas de opinião de captarem, com base em sua metodologia tradicional, as preferências dos eleitores de extrema direita. Por este motivo, nós do Lappcom temos nos baseado mais nas análises espaciais das séries históricas de votação e nos cruzamentos entre os dados eleitorais e socioeconômicos das populações de cada território. No âmbito do projeto Cartografias Políticas (CartPol), desenvolvido pelo Lappcom em uma parceria com o Núcleo de Transferência Tecnológica da COPPE,  foi desenvolvida uma ferramenta voltada à obtenção e à visualização de resultados eleitorais desagregados por bairro, ampliando o nível de detalhamento em relação às escalas tradicionalmente utilizadas, como estado e região. Atualmente, encontra-se em andamento o processo de incorporação de informações relativas a emendas parlamentares a esse conjunto de variáveis, bem como a inclusão de outros indicadores associados, sobretudo, ao nível municipal. Paralelamente, está sendo realizado o refinamento de um algoritmo destinado à classificação dos padrões de comportamento espacial da votação dos candidatos.

No tocante à Atlas, parte da sua metodologia é apresentada como “segredo comercial”, pois, embora cumpra as exigências do TSE acerca do registro dos levantamentos e dos pesos conferidos a cada clivagem, o instituto realiza procedimentos de balanceamento e calibragem nas amostras a partir de modelos estatísticos não revelados integralmente. Estes procedimentos, comuns nos países em que o voto não é obrigatório e que, portanto, tem na abstenção uma variável que pode distanciar de maneira significativa a preferência dos entrevistados das opções daqueles que de fato comparem às urnas. Para evitar este distanciamento, que embora não configurem erros metodológicos, podem prejudicar aqueles que usam as pesquisas para tentar antecipar o resultado das eleições, são realizadas ponderações a partir do perfil do eleitor e de sua maior ou menor probabilidade de comparecimento. O resultado é uma pesquisa que não revela o que de fato foi auferido entre os entrevistados, mas um palpite mais acurado sobre o que será encontrado no momento da eleição.

Mayra Goulart é professora de Ciência Política da UFRJ e Coordenadora do LAPPCOM

Raul Paiva é esquisador do Lappcom e mestrando PPGSA UFRJ




Source link

Postagens Similares

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *