Intimidação bolsonarista a jornalistas na porta de hospital vira caso de polícia – CartaCapital

A truculência de uma militante bolsonarista na última sexta-feira 13 e o endosso da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) iniciaram uma nova onda de ameaças de seguidores de Jair Bolsonaro (PL) a jornalistas. A bola da vez é a cobertura da internação do ex-presidente no Hospital DF Star, em Brasília, em um episódio que virou caso de polícia.
Tudo começou com um vídeo publicado no Instagram por Cris Mourão, que se apresenta como “gestora imobiliária, cristã, mãe e esposa”, e reúne pouco mais de 36,3 mil seguidores na rede social. Na gravação, ela insinuava, sem qualquer prova, que profissionais de imprensa em frente ao hospital torciam pela morte de Bolsonaro.
O caso ganhou tração ainda na sexta e, segundo a Federação Nacional de Jornalistas, cresceu após o deputado federal Mário Frias (PL-SP) publicar um vídeo, apagado posteriormente, no qual expunha os jornalistas e alegava, sem evidências, que eles desejavam a morte do ex-capitão.
Tudo piorou no sábado 14, quando Michelle compartilhou a publicação de Mourão no Instagram com seus mais de 8,1 milhões de seguidores.
A partir daí, repetiu-se um roteiro já conhecido: a postagem funcionou como gatilho para uma campanha de ataques contra os jornalistas que apareciam nas imagens. Embora, em nenhum momento do vídeo, eles façam qualquer comentário ou emitam juízo de valor sobre o estado de saúde do ex-presidente.
Três jornalistas — que preferem não se identificar — registraram boletins de ocorrência. No sábado, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do DF acionou a Secretaria de Segurança Pública e o Ministério Público. Entidades de classe, sob a liderança da Fenaj, estudam medidas jurídicas em reação ao caso, inclusive para evitar que se abra um novo precedente para normalizar a agressão a repórteres neste ano eleitoral.
“Jornalistas reunidos desejando a morte de Bolsonaro e comemorando por ser sexta-feira 13”, dizia a mensagem publicada por Cris Mourão no vídeo. Michelle compartilhou a íntegra do conteúdo, sem ressalvas. Foi a senha para bolsonaristas acossarem os repórteres nas redes e até nas ruas — uma das jornalistas foi alvo de um vídeo produzido com inteligência artificial que sugeria que ela fosse vítima de uma facada.
As ameaças atingiram também familiares dos profissionais, e um deles, cujo filho foi alvo da campanha de intimidação, fechou seus perfis nas redes, além de registrar um B.O.
Entidades representativas dos jornalistas repudiaram a tentativa de coação. Para a Associação Brasileira de Imprensa, “causa indignação” o fato de Michelle ter disseminado o vídeo. “O episódio remete ao período de 2019 a 2022, em que a violência contra jornalistas foi praticada e estimulada diretamente pelo próprio Bolsonaro, então presidente da República, por meio de diversos episódios de triste memória.”
A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo afirmou ser “inadmissível que parlamentares e figuras com espaço no debate público utilizem sua influência para orquestrar campanhas de difamação e incitar agressões contra profissionais de imprensa”.
Já a Fenaj e o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal emitiram uma nota conjunta na qual exigiram a proteção imediata aos repórteres. “Cobramos também das empresas de jornalismo que proporcionem condições seguras de trabalho para seus e suas profissionais, tomando as providências cabíveis. E, ainda, que ofereçam apoio jurídico aos e às jornalistas e garantam o afastamento do local da cobertura caso as e os jornalistas não se sintam seguros para exercer seus trabalhos.”
