Trump é burro e imprevidente? Claro que não, mas não há saídas fáceis

Trump é burro e imprevidente? Claro que não, mas não há saídas fáceis



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A ideia de que Donald Trump é um idiota que só faz besteiras é propagada constantemente por aqueles a quem caberia ter responsabilidade informacional. Mas também é um fato a ser debatido que a guerra no Irã tem muitas complexidades, envolve a parte mais sensível da humanidade – o bolso, através do preço do petróleo – e dificilmente pode ser vencida exclusivamente por bombardeios aéreos, por mais arrasadores que sejam para toda a estrutura bélica montada durante décadas com enormes investimentos pelo regime teocrático.

É por isso que uma expressão usada apenas por aficionados do mundo da guerra começa a despontar. É a referência a “guerra litorânea”, englobando operações localizadas em áreas marítimas relativamente contidas, como o Estreito de Ormuz, que poderiam ser empregadas na ilha de Kharg, o grande terminal petrolífero extensamente bombardeado pelos Estados Unidos. Apenas, note-se, nas instalações militares, não a estrutura petrolífera em si, uma forma de evitar que o mercado fique mais nervoso ainda e que no pós-guerra o abastecimento seja normalizado. Outro fato a ser notado é que o petróleo iraniano vai para a China e a Índia, não para países ocidentais, embora as reações sejam interconectadas.

O assunto “guerra litorânea” ganhou impulso com o anúncio de que os Estados Unidos estão mandando para o Oriente Médio um navio de assalto anfíbio, o Tripoli, com 2,5 mil fuzileiros navais. A especialidade deles não é nada difícil de entender: operar em guerras marítimas, incluindo eventualmente desembarcar e tomar posições inimigas localizadas. Qualquer movimento terrestre seria uma tremenda escalada na guerra e um risco altíssimo para Trump, dada a rejeição da opinião pública americana a operações por terra, cujo objetivo seria inevitavelmente a mudança de regime no Irã.

Tudo o que os americanos não querem é um envolvimento prolongado num país oriental governado ou mobilizado por fanáticos, depois do trauma do Afeganistão e do Iraque – sendo que, no primeiro, os talibãs voltaram ao poder e, no segundo, está difícil controlar o desejo de aderir aos fundamentalistas xiitas iranianos, com os quais os principais detentores do poder se identificam.

PROTEGIDOS PELA MASSA

As duas experiências representam os limites até mesmo da maior superpotência da história. Se o povo não quer mudar, ou apoia os fanáticos de turbante, ou não tem o menor pendor para democracias liberais, não adianta impor mudança pela força das armas ou achar que dar cursos sobre os direitos das mulheres, como fizeram no Afeganistão, vá funcionar. No Irã, os protestos do começo do ano demonstraram uma enorme rejeição ao atual regime, mas ainda sem força suficiente para abalá-lo estruturalmente. Só o fim de um regime intrinsicamente dedicado a proclamar “Morte à América” e buscar armas nucleares pode ser considerado uma vitória “limpa” – embora Trump possa defender várias alternativas.

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Nem os arrasadores bombardeios estão propiciando isso: o regime iraniano é impotente diante da superioridade dos Estados Unidos e de Israel, mas tem condições de intimidar a própria população, infernizar os vizinhos e até de fazer manifestações de força, como a presença dos principais sobreviventes políticos no centro de Teerã, na sexta-feira passada, protegidos pela massa que impede um ataque direto que redundaria num número grande de vítimas civis, insuportável para os padrões ocidentais.

Na ausência de Mojtaba Khamenei – que está com uma perna amputada, um pé fraturado, lesões no rosto, em coma ou até morto, dependendo das versões, sendo a única certeza que sofreu ferimentos num bombardeio -, os líderes iranianos se exibiram e fizeram provocações a Trump. Talvez também tenham deixado entrever que existe uma disputa pelo poder entre eles, mas sabem muito bem que estão todos a uma bomba do martírio e precisam evitar os rachas.

Apesar das perdas devastadoras, o regime mantém a unidade das forças armadas e continua a ter capacidade de sacudir os vizinhos árabes mesmo com apenas alguns drones que furam as defesas antiaéreas. O efeito é devastador para o modelo de negócios dos emirados do Golfo: transformar-se em ilhas atrativas para residentes e empresários estrangeiros. De que adiante ter imposto zero se o Irã está ali do lado, mandando literalmente bombas. É na pressão – e na ausência de reação até agora, dos emirados – que o regime iraniano aposta para forçar uma suspensão das hostilidades. Segundo o New York Times, o príncipe saudita Mohammad Bin Salman está fazendo o contrário: defendendo, como fazia seu pai, “cortar a cabeça da serpente”.

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Uma ironia paralela: o Hamas apoiou os ataques contra alvos americanos e israelenses, mas pediu aos “irmãos do Irã” que suspendam os ataques contra os países do Golfo, mostrando o dilema do grupo terrorista palestino, sustentado pelas partes agora em conflito.

‘UMA PESSOA COMPLICADA’

Outro tremendo dilema é vivido no Líbano, onde as forças que são contra o Hezbollah não podem parecer aliadas de Israel, mas precisam continuar pressionando por uma solução negociada para a nova frente de conflito – impossível, considerando-se sua incapacidade de cumprir a condição fundamental de desarmar a organização xiita que na verdade manda no país. O Hezbollah foi desdentado por Israel e gravemente abalado pelos ataques no Irã, mas ainda continua capaz de, tragicamente, arrastar o Líbano para outra guerra. Nessa madrugada, forças israelenses entraram em pontos localizados do sul do Líbano para aumentar a “operação limpeza” sobre o Hezbollah antes do prazo das três semanas que, segundo o Exército israelense, a campanha de destruição de alvos militares e produção bélica no Irã ainda demanda.

O que Trump irá fazer para não deixar a mínima impressão de que o regime iraniano se safou – inclusive porque seria politicamente suicida para ele – não permitir que o mundo afunde numa nova crise do petróleo, evitar a propagação do conflito e contornar discordâncias sobre o fim das hostilidades com Israel (sem parecer que concorda demais, considerando-se a nova ala antissionista da direita americana)? E, acima de tudo, garantir que seja atingido o objetivo fundamental da Fúria Épica – impedir que os aiatolás e seus sicários tenham bombas nucleares? Tudo isso a tempo de manter a maioria do Partido Republicano no Congresso na eleição de novembro?

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Diante da quantidade e da dimensão das questões com as quais o presidente americano se depara, voltou a circular uma frase que uma antiga assessora e amiga, Kellyanne Conway, disse certa vez sobre ele: “Donald Trump é uma pessoa complicada com ideias simples. Muitos políticos são exatamente o contrário”, definiu ela.

Uma das questões mais prementes do mundo hoje é qual a solução simples que ele dará a uma guerra muito complicada.



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