Embate pelo voto evangélico esquenta entre Lula e Flávio e nas disputas estaduais

Embate pelo voto evangélico esquenta entre Lula e Flávio e nas disputas estaduais


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Desde que retornou ao Palácio do Planalto, Lula tentou de diversas formas se aproximar dos evangélicos, o segmento do eleitorado que mais exerce resistência à sua figura. Nos três primeiros anos de mandato, o presidente participou de cultos, enviou emissários para conversar com pastores das maiores denominações do país, fechou convênios com igrejas independentes para distribuir benefícios sociais, mandou o PT fazer uma cartilha para ensinar a militância a se comunicar com fiéis e até indicou o advogado-geral da União, Jorge Messias — criado nas fileiras da Igreja Batista —, para o Supremo Tribunal Federal. Os esforços foram em vão. Depois de derrotar Jair Bolsonaro, Lula se apresenta hoje, para essa fatia da população que corresponde a 27% do total, segundo o IBGE, em situação pior do que há quatro anos. O petista tem apenas 21% das preferências dos evangélicos, segundo pesquisa Datafolha, 13 pontos a menos do que em 2022. Já seu maior oponente, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), reúne 48% do apoio do grupo e teria chances de vitória no primeiro turno se o pleito dependesse apenas desses eleitores (veja o infográfico).

ESQUERDA - Lula recebe bênção: diferenças com o PT impedem aproximação
ESQUERDA - Lula recebe bênção: diferenças com o PT impedem aproximação (Ricardo Stuckert/PR)

A dificuldade entre os evangélicos é um dos principais fatores a minar a popularidade de Lula. As pesquisas qualitativas revelam que o desfile da Acadêmicos de Niterói, escola de samba que o homenageou e exibiu na avenida uma crítica explícita à família tradicional brasileira, na ala apelidada de “neoconservadores em conserva”, ainda reverbera na bolha religiosa. A coesão de seus integrantes ajuda a explicar a rejeição: nenhum estrato da população se comporta de maneira tão uniforme nas urnas como os evangélicos. “Apresentar-se como alguém que vai defendê-los em Brasília tem um apelo muito forte”, diz Magali Cunha, pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (Iser). Apesar de reunir cerca de 500 000 militantes que frequentam igrejas protestantes em suas fileiras, o PT agita bandeiras como igualdade de gênero e legalização das drogas e do aborto, que colidem com as ideias de costumes defendidas nos púlpitos. Nas redes sociais, onde o caloroso debate é travado, não raramente a coisa descamba para o preconceito. “É evidente o desrespeito que parte da esquerda nutre por essa população, como se evangélicos fossem cidadãos de segunda categoria, incapazes de pensar por contra própria”, reconhece Nilza Valeria Zacarias, coordenadora da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, movimento de cunho progressista.

DIREITA - Flávio em culto: se dependesse dos crentes, senador estava eleito
DIREITA - Flávio em culto: se dependesse dos crentes, senador estava eleito (Gabriela Biló/Folhapress/.)

O polarizado cenário tem feito os estrategistas de campanha de Lula apostarem na melhora dos indicadores econômicos para abrir uma brecha no muro que separa vertentes ideológicas tão apartadas. A maior parte dos evangélicos é composta por mulheres, afrodescendentes e moradoras da periferia, público que costuma ser sensível aos benefícios sociais implementados pelo governo. Para sensibilizar essa turma, o pleno emprego, a isenção do imposto de renda e o fim da escala 6×1 — ainda em tramitação no Congresso — devem ser embalados em peças publicitárias que ressaltem os ganhos para a família. “Estamos ampliando o diálogo com os segmentos religiosos, como um todo, e com atenção especial para os evangélicos”, afirma Gutierres Barbosa, coordenador nacional do Setorial Inter-religioso do PT. Além de propagandear e tentar faturar em cima do aval presidencial ao Dia Nacional do Evangélico e ao Dia Nacional da Música Gospel, uma das principais apostas é cultivar o canal aberto junto ao Ministério Madureira da Assembleia de Deus no Rio, a maior vertente da poderosa denominação pentecostal. O presidente mantém boa relação com o bispo Manoel Ferreira e com seu filho Samuel, apesar de terem apoiado Bolsonaro em 2022. “Se ficarem neutros e pararem de falar mal da gente já ajuda”, diz um pastor próximo do governo.

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Em posição confortável e alheio aos movimentos do adversário, Flávio Bolsonaro trabalha para solidificar a larga vantagem. Assim que anunciou a pré-candidatura, o senador participou de um culto na Comunidade das Nações, em Brasília, e, dias depois, banhou-se nas águas do Rio Jordão, em Israel, onde foi batizado, em 2016. Aumentar os atos de fé é parte da estratégia que está sendo desenhada com ajuda do deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), ligado a Vitória em Cristo, braço assembleiano comandado pelo influente pastor Silas Malafaia. Levado pela dupla que não se cansa de promover atos públicos em apoio a Jair Bolsonaro, o filho Zero Um já teve conversas com o comando das igrejas do Evangelho Quadrangular, Universal, da Graça, Mundial do Poder de Deus, Batista e da Assembleia de Deus. O plano é marcar encontros com uma centena de lideranças que, juntas, arregimentam 80% dos fiéis. “Como não há papa igual ao da Igreja Católica, é preciso seguir um protocolo de visitas”, diz Cavalcante. Ao final, um grande encontro em Brasília, ainda sem data para acontecer, deve coroar o apoio.

NO BASTIDOR - Malafaia: articulação para atrair pastores para o bolsonarismo
NO BASTIDOR - Malafaia: articulação para atrair pastores para o bolsonarismo (@silasmalafaia/Instagram)

Rumo ao centro, o pré-candidato do PL se preocupa também em corrigir alguns erros de trajetória cometidos pelo pai na derrota para Lula. Um dos principais desafios é abandonar — ou pelo menos moderar — discursos que desagradam às mulheres, como a liberação da venda de armas, traduzida visualmente no característico gesto de esticar indicadores e polegares, tão reproduzido pelo ex-presidente. A adoração pessoal à figura de Bolsonaro e a recorrente evocação de “mito” feita por seus correligionários são também fortemente desaconselhadas. “Diversas lideranças alertaram que não se pode exaltar ninguém acima de Jesus Cristo. Isso traz um desgaste muito grande”, confidencia uma fonte da bancada evangélica. Também é esperado que Michelle Bolsonaro, considerada um dos mais decisivos cabos eleitorais junto ao segmento, deixe as divergências familiares de lado e se integre à campanha. Como no primeiro turno a ex-primeira dama estará envolvida na corrida ao Senado pelo Distrito Federal, Fernanda, a esposa de Flávio, é quem deve ser escalada para atos de cunho religioso.

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BRECHA - Bispo Manoel Ferreira, da Assembleia de Deus: aceno ao lulismo
BRECHA - Bispo Manoel Ferreira, da Assembleia de Deus: aceno ao lulismo (Geraldo Magela/Agência Senado)

Um capítulo à parte dessa disputa deve se desenrolar no Congresso Nacional, em torno da sabatina de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal. O que era para ser um aceno ao eleitorado evangélico virou uma encrenca de difícil solução para o governo. O advogado-geral da União vinha sendo um dos principais interlocutores do Planalto com lideranças políticas da numerosa Frente Parlamentar Evangélica (FPE), especialmente para contornar a espinhosa agenda de costumes, mas passou a se dedicar às articulações para passar pelo crivo dos senadores. Embora o aspirante à toga ligue quase diariamente para os parlamentares com a intenção de reiterar seu compromisso com a bancada da Bíblia, ele já foi informado por interlocutores que o assunto esfriou diante da crise envolvendo ministros do STF e que a identificação religiosa pode não ser suficiente para garantir sua aprovação. “Há um histórico de desconfiança em relação ao PT e a setores radicais da esquerda”, diz o deputado Gilberto Nascimento (PSD-­SP), presidente da FPE.

Se no plano nacional o jogo parece mais definido, as disputas pelo voto evangélico se mostram menos óbvias nos estados, especialmente os da Região Norte, onde a presença de crentes é maior que a média nacional. No Rio de Janeiro, o terceiro maior colégio eleitoral do país, eles estão no centro do jogo de alianças, já que correspondem a praticamente um terço do total de votantes. Após anos dando apoio (explícito ou nem tanto) a Eduardo Paes (PSD), Silas Malafaia rompeu com o prefeito da capital, favorito na corrida ao Palácio Guanabara. De nada adiantaram as juras de fidelidade do alcaide ao pastor — “mexeu com Malafaia, mexeu comigo”, chegou a dizer Paes durante um culto. No início do mês, o líder religioso anunciou que dará suporte a Douglas Ruas (PL), o candidato de Flávio Bolsonaro no berço político do bolsonarismo. “Eu já tinha dito para o Eduardo: ‘você tem capilaridade, não precisa estar de braços dados com Lula porque isso afasta a gente’ ”, conta Malafaia.

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arte evangélicos eleição

Foi uma contrarreação calculada. Dias antes, Paes havia escalado a evangélica Jane Reis, irmã do ex-prefeito de Duque de Caxias, Washington Reis, para compor sua chapa na condição de vice. Casada com um pastor da Assembleia de Deus, ela integra o clã que apoia incondicionalmente a família Bolsonaro desde 2018. A coordenação da campanha da dupla junto às igrejas ficará por conta de Otoni de Paula (MDB-RJ), deputado federal e pastor na mesma denominação. Ex-­bolsonarista, ele tem sido um dos mais vocais críticos ao ex-presidente, a quem passou a se referir como “bezerro de ouro”, em alusão à passagem bíblica em que os cristãos adoram um falso Deus. Diante da união de correntes políticas tão incompatíveis em torno da figura de Paes, o deputado apresenta um insólito argumento: “Para quem é da igreja, ele é de direita e apoia a candidatura de Ratinho Junior (PSD). No mundo do Carnaval, entre as religiões de matriz africana, ele é Lula e de esquerda”. Quando política e religião se misturam, nem sempre as diferenças ideológicas ficam em primeiro plano. Resta saber se o eleitor vai botar fé em qualquer movimento para conquistá-lo.

Publicado em VEJA de 13 de março de 2026, edição nº 2986



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