O que é a ilha de Kharg, a “joia da coroa” do Irão? – Observador

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Os Estados Unidos atacaram esta sexta-feira à noite a ilha de Kharg, no Golfo Pérsico, um ponto estratégico para a economia do Irão. Lugar onde se encontram as instalações por onde passam cerca de 90% das exportações de petróleo do Irão, a ilha de Kharg tem uma longa história de presença humana e foi, ao longo dos séculos, um entreposto estratégico para os impérios da região. No século XX, transformou-se no mais importante ponto de saída dos recursos energéticos do Irão — razão pela qual, na década de 80, foi também palco de violentos bombardeamentos iraquianos durante a guerra Irão-Iraque.
O ataque à ilha de Kharg parece fazer parte da estratégia de Donald Trump para responder ao encerramento do Estreito de Ormuz por parte do Irão. Esta decisão do regime de Teerão surgiu como retaliação pelos ataques lançados há duas semanas pelas forças norte-americanas e israelitas, que resultaram na morte do aiatola Ali Khamenei. O Estreito de Ormuz é o ponto de passagem entre o Golfo Pérsico e o Oceano Índico, e é decisivo para a economia mundial, uma vez que é por ali que têm de passar os navios que transportam o petróleo e o gás natural do Golfo Pérsico. A decisão do Irão de encerrar o estreito com recurso à força militar, os ataque a navios e, alegadamente, a colocação de minas navais na região, conduziu a uma subida do preço do petróleo que se está a traduzir no aumento dos preços dos combustíveis por todo o mundo.
Esta semana, um senador norte-americano que participou num briefing com as forças armadas dos EUA acusou Donald Trump e o seu governo de não terem um plano para a guerra no Irão — e, particularmente, de não terem preparado uma forma de responder ao mais que previsível encerramento do estreito de Ormuz por parte do Irão.
Este sábado, Trump anunciou o ataque à ilha de Kharg explicando que, numa primeira fase, os EUA tinham apenas visado alvos militares na ilha, mas deixou a ameaça a pairar no ar: se o Irão não reabrir o estreito de Ormuz, as estruturas petrolíferas da ilha são o próximo alvo. “Por razões de decência, decidi não arrasar a infraestrutura petrolífera na ilha”, escreveu Donald Trump nas redes sociais. “Contudo, se o Irão, ou algum outro país, fizer alguma coisa para interferir com a passagem livre e segura de navios pelo estreito de Hormuz, vou imediatamente reconsiderar esta decisão.”
Na publicação, Trump classificou o ataque norte-americano à ilha como “um dos mais poderosos bombardeamentos na história do Médio Oriente”, que “obliterou totalmente” os alvos militares na “joia da coroa do Irão”, a ilha de Kharg.
Esta “joia da coroa” é uma pequena ilha de coral no norte do Golfo Pérsico, situada a cerca de 55 quilómetros do porto iraniano de Bushehr. A ilha, de acordo com a Britannica, acolhe a infraestrutura por onde passa a quase totalidade das exportações de petróleo do Irão. Antes do início da guerra, passavam por ali cerca de 7 milhões de barris de petróleo por ano. Segundo o The New York Times, Kharg é estratégica para o Irão, em grande medida, devido ao facto de estar rodeada de águas profundas, que permitem aos grandes petroleiros atracar — ao contrário do que sucede na generalidade da costa iraniana do Golfo Pérsico, com águas mais rasas.
Desde a década de 1960 que o Irão depende fortemente da ilha de Kharg para as suas exportações de petróleo, um pilar fundamental da economia iraniana. Por aquela ilha, que consegue abastecer 10 petroleiros em simultâneo, passam 90% das exportações de petróleo do país e, como sublinha o The New York Times, um ataque às instalações na ilha terá necessariamente repercussões internacionais. A maior parte do petróleo iraniano tem ido para a China, que o compra e transporta através de uma “frota sombra” com o objetivo de escapar às sanções internacionais contra as exportações do Irão. Ainda de acordo com o mesmo jornal, as vendas de petróleo à China representam cerca de 6% da economia iraniana.
No centro desta guerra que já se prolonga há duas semanas tem estado, sobretudo, a energia — concretamente as estruturas de produção de petróleo e gás natural, pilares fundamentais da economia dos países do Golfo Pérsico. Desde o ataque inicial, a 28 de fevereiro, várias importantes estruturas energéticas da região sofreram danos em ataques lançados quer pelos EUA e Israel, quer pelo Irão. Entre estas estruturas contam-se a refinaria de Ras Tanura, na Arábia Saudita, a produção de gás natural liquefeito de Ras Laffan, no Qatar, os terminais petrolíferos de Fujairah e Mussafah, nos Emirados Árabes Unidos, os portos de Duqm e Salalah, em Omã, vários campos petrolíferos de Israel e do Iraque e ainda vários petroleiros no Golfo Pérsico. O Irão tem usado a sua capacidade para perturbar a economia global por via dos ataques às estruturas energéticas e ao Estreito de Ormuz como forma de obter vantagem sobre os Estados Unidos.
Este sábado, o Irão atingiu o porto de Fujairah, nos Emirados Árabes Unidos, com um ataque de drones. O ataque obrigou o porto a suspender as operações. Trata-se de um local estratégico para o país, uma vez que se situa já fora do Golf Pérsico, não dependendo do Estreito de Ormuz para as exportações.
Mas esta pequena ilha de coral tem uma história muito mais antiga do que o seu recente uso para a exportação de petróleo. Trata-se de uma das poucas ilhas do Golfo Pérsico que tem nascentes de água doce, o que permitiu que, ao longo da história, ali se instalassem populações humanas. Os primeiros vestígios de presença humana remontam ao período do Império Aqueménida, o primeiro império persa, que dominou a região entre os séculos VI e IV a.C. Alguns monumentos funerários encontrados na ilha demonstram uma presença humana contínua naquele lugar.
Trump ameaça destruir principal hub petrolífero iraniano, na ilha de Kharg, se ataque a navios continuarem
Na ilha estão também as ruínas de uma antiga igreja cristã oriental, possivelmente do século VII — e os historiadores acreditam que, durante vários séculos, já na era islâmica, a ilha serviu de entreposto comercial. No século XVIII, a Companhia Holandesa das Índias Orientais instalou ali um centro de comércio através de um acordo com os responsáveis árabes locais — mas os holandeses acabariam por ser expulsos da região após uma sucessão de conflitos. A partir daí, a ilha esteve desabitada durante um longo período, tendo voltado a assumir uma importância fundamental na década de 60, no contexto da crescente prosperidade económica do Irão por via dos recursos minerais. Na segunda metade do século XX, a ilha transformou-se na grande infraestrutura petrolífera que chegou aos dias de hoje.
Durante a Guerra Irão-Iraque, entre 1980 e 1988, Kharg foi sucessivamente atacada pelas forças iraquianas — tendo os iranianos sido obrigados a suspender a atividade nas estruturas petrolíferas durante algum tempo.
Não foi, para já, esse o caso com os ataques norte-americanos. Trump garante ter atingido apenas estruturas militares na ilha, embora tenha deixado a ameaça de atingir também as instalações petrolíferas caso o Irão não reabra o Estreito de Ormuz. Ao The New York Times, um alto dirigente norte-americano garantiu que um ataque às estruturas de petróleo e gás natural da ilha de Kharg pararia, no imediato, uma grande parte das exportações iranianas.
Não há indicações sobre se o ataque norte-americano à ilha atingiu alguma das ruínas arqueológicas da região, como aconteceu com vários outros ataques norte-americanos das últimas duas semanas. Em Teerão, o Palácio do Golestão, do século XIV, um sítio protegido pela Unesco, sofreu danos na sequência de ataques dos EUA contra a capital — um de vários exemplos de importantes lugares da antiga civilização persa atingidos pelos ataques.
