«Não podemos ficar presos ao “e se”, temos de nos agarrar ao que temos»
Na temporada 2023/24, Ricardo Velho terminava o ano como o melhor guarda-redes da Liga portuguesa. Foi uma das grandes figuras do campeonato ao serviço do Farense e chegou mesmo à Seleção Nacional. Ainda assim, em vez de dar o salto para um dos campeonatos mais mediáticos da Europa ou para um grande em Portugal, o guarda-redes acabou por rumar à Turquia para representar o Gençlerbirligi.
A viver a primeira experiência da carreira fora de Portugal, garante que a mudança para a Turquia superou as expectativas e sente-se totalmente adaptado ao país, à cidade e ao futebol turco, uma liga que considera «subvalorizada em Portugal».
Na primeira parte desta entrevista ao Maisfutebol, o guardião português recorda o momento difícil da descida do Farense, explica porque decidiu aceitar o desafio no estrangeiro apesar do interesse de clubes de ligas mais mediáticas bem como do Benfica.
Parte II – Ricardo Velho: «Premier League é um sonho e eu acho que tudo pode acontecer»
Maisfutebol (MF): Como está a ser a primeira experiência no estrangeiro?
Ricardo Velho (RV): «Tem sido muito agradável. Têm sido uns meses de aprendizagem e de prazer muito grandes. É uma liga muito competitiva. O país em si é lindíssimo, muito bom para se viver. Tenho estado aqui há uns meses e tenho sido feliz. Tem sido uma experiência muito agradável. O nível de segurança é fantástico, não há qualquer tipo de problemas. Pelo menos aqui onde eu estou, e daquilo que vou falando com os colegas e daquilo que vejo, é muito parecido com a nossa própria vida. Pelo menos a vida que eu tinha em Portugal é muito semelhante àquilo que faço aqui, em todos os aspetos.»
MF: Com a guerra do Médio Oriente, como estão as questões de segurança?
RV: «A nível de segurança na Turquia, digo-lhe muito sinceramente: sentimo-nos muito seguros aqui. Não há qualquer tipo de problema. Por isso, pelo menos até ao momento, não sentimos qualquer tipo de problema em relação a isso.»
MF: Já está totalmente adaptado ao futebol turco?
RV: «Sim, sem dúvida. Felizmente fui muito bem recebido. As pessoas receberam-me muito bem no clube e também no meu dia-a-dia. Sinto-me totalmente adaptado aqui. As coisas têm corrido bem, felizmente. Tem sido uma agradável surpresa e tem sido bom estar aqui.»
MF: A estreia pelo clube acabou por ser curiosa, devido a uma cláusula no contrato. Como viveu esse momento?
RV: «Isso são coisas que são alheias a mim. Acabo por não ter muito a ver com isso, não são decisões minhas. Aquilo que eu fiz, e que tento sempre fazer, foi dar o máximo de mim. A partir do momento em que o treinador me dá a oportunidade de jogar, tenho de fazer o meu melhor e ajudar o clube. Acho que as coisas têm corrido bem. Tenho-me sentido bem e é isso que quero fazer, jogar e continuar a ajudar.»
MF: Acabou por agarrar o lugar…
RV: «As coisas correram bem e têm corrido bem. Depois também conta muito o trabalho diário, porque treinando bem estamos mais perto de jogar bem. Há sempre alturas em que tentamos fazer o nosso melhor e as coisas, por um motivo ou por outro, não acontecem. Mas acho que, dando sempre o máximo de nós e estando preparados para qualquer momento, estamos mais perto de ter sucesso. É um bocado por aí, tentar estar sempre no limite para poder ajudar, para poder ser a escolha e ser melhor a cada dia. No final de contas, ajudar o clube, que é o mais importante.»
MF: Qual o porquê de ter escolhido a Turquia?
RV: «Infelizmente, no final da última época no Farense, acabei por ter uma lesão e não pude acabar a época a jogar. Depois acabámos por descer de divisão, o que me deixou triste, porque um clube como aquele, uma cidade como aquela, merece estar na I Liga. É o maior clube do Algarve e o Algarve tem de estar representado na I Liga, na minha opinião. Foi um momento triste da minha carreira, mas são coisas do futebol. Depois apareceu a oportunidade de vir para a Turquia e eu abracei essa oportunidade. Acho que foi um passo certo para continuar a minha evolução.»
MF: Mesmo quando se falava do interesse de clubes das «Big Five» da Europa?
RV: «O futebol muitas vezes tem destas coisas, as coisas não são sempre como nós imaginámos ou como nós prevemos, e muita coisa aconteceu, muitas coisas que não eram o que idealizámos. Não podemos ficar presos ao ‘e se’, depois das coisas estarem a acontecer, nós temos de nos agarrar àquilo que temos. E eu naquele momento agarrei-me àquilo que tinha, que era esta proposta para ir para a Turquia, o clube mostrou muito interesse em mim, fizeram um esforço por mim e eu fiquei agradado com isso, deram-me uma oportunidade para vir para cá e eu aceitei e agarrei.»
MF: […]
«Para continuar a minha evolução no futebol e para dar um passo em frente na minha carreira, para mim é um passo em frente na minha carreira. As pessoas podem não achar que, ou muitas pessoas podem achar estranho, mas a liga turca é uma liga muito competitiva. Os jogadores são fantásticos e eu acho que as pessoas deviam tirar mais um bocadinho de tempo para ver alguns jogos da liga turca, porque sem dúvida, existe muita qualidade e as pessoas às vezes não ligam muito. Eu compreendo, a liga turca não é tão divulgada em Portugal, não é tão falada em Portugal, mas existe muita qualidade mesmo, e isso também me agradou. O facto de o campeonato ter muita visibilidade e ter muita qualidade, e depois ter esta oportunidade de vir para cá, do clube fazer um esforço para eu vir e de me querer ter cá, eu aceitei com muito agrado e vim para ajudar.»
MF: E em Portugal? O Benfica não avançou…
RV: «Eu não faço ideia, nem sei o porquê, o que eu sei é que nunca tive, pelo menos que eu saiba, nunca tive uma proposta concreta para ir para o Benfica. Não posso estar à espera disto ou daquilo, a nossa vida segue, e os clubes tomam as decisões que são melhores para eles, e nunca me ficou nenhum tipo de mágoa por não ficar em Portugal ou ter de sair de Portugal, isso faz parte da vida e faz parte do futebol, é mesmo assim. Às vezes os clubes avançam, outras vezes não avançam, o futebol é mesmo assim.»
