Disputa de poder entre Tarcísio e Kassab tem novo capítulo com saída de líderes do PSD na Alesp

Disputa de poder entre Tarcísio e Kassab tem novo capítulo com saída de líderes do PSD na Alesp


Com a janela partidária aberta, os dois principais líderes da bancada do Partido Social Democrático (PSD) na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) preparam a mudança para partidos aliados ao governador Tarcísio de Freitas (Republicanos).

O atual líder do partido de Gilberto Kassab, Oseias de Madureira, já tem filiação agendada ao Partido Liberal (PL) do ex-presidente Jair Bolsonaro para a próxima semana.  Nos bastidores, o deputado Paulo Corrêa Júnior, que comandou a bancada nos dois primeiros anos da gestão de Tarcísio de Freitas no governo paulista, analia uma possível filiação ao Republicanos, legenda do governador.

As mudanças acontecem em meio ao desgaste entre Tarcísio de Freitas e Gilberto Kassab. Aliados do governo avaliam que Kassab usou a estrutura estadual para ampliar a presença do PSD nos municípios após as eleições municipais de 2024. A tensão aumentou depois que Kassab afirmou que o governador precisa construir identidade política própria em relação a Jair Bolsonaro e disse que “gratidão é uma coisa e submissão é outra”.

Oseias de Madureira é um dos principais nomes da Igreja Evangélica na Casa legislativa. Ao Brasil de Fato, o deputado estadual afirmou que o seu mandato é pautado pelas diretrizes e orientações do Ministério de Madureira, braço da Assembleia de Deus, no qual é pastor. 

“As decisões e mudanças sempre acontecem debaixo da orientação das nossas lideranças. Estamos caminhando para um novo projeto, de acordo com a visão da igreja. Sempre tivemos uma relação de respeito, parceria e profissionalismo com o Gilberto Kassab”, afirmou o parlamentar, que também é presidente da Frente Parlamentar Evangélica da Alesp.

Para Mariana Chaise, professora do Departamento de Ciência Política da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o deslocamento de parlamentares para o PL e o Republicanos pode ser interpretado como uma aproximação mais direta com o campo político do governador Tarcísio de Freitas, reduzindo a mediação partidária exercida por Gilberto Kassab dentro do PSD.

Posição que Eduardo Grin, cientista político e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) concorda: “O governador deu um recado para dizer que, embora o Kassab seja poderoso no interior, ele é quem manda. Se o Tarcísio não faz isso, fica desautorizado perante os outros partidos da base, que começariam a desconfiar de um espaço excessivo para o PSD. Isso complicaria a campanha de reeleição. Foi uma derrota precificada para deixar claro que o governador é quem comanda o jogo.”

Nesse contexto, a movimentação de deputados da Alesp pode sinalizar um gesto calculado de Tarcísio de Freitas para reafirmar autoridade dentro da coalizão. Grin afirma que, ao perceber a tentativa de um aliado de ampliar influência sobre espaços de poder, há uma reação por parte do governador para preservar o controle da base. 

Gilberto Kassab
Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD | Crédito: Reprodução/Instagram/Gilberto Kassab

PSD tem 31% dos municípios de SP

Kassab é chefe da Secretaria de Governo da gestão de Tarcísio de Freitas, área responsável pela articulação política e pela relação institucional com as prefeituras e pela gestão de convênios e repasses, instrumentos que estruturam a interlocução entre o Palácio dos Bandeirantes e os municípios. Além disso, Kassab comanda a maior capilaridade municipal no estado, com 206 prefeitos entre os 645 municípios, 31% das cidades paulistas. O PSD também ocupa a vice-governadoria de São Paulo com Felício Ramuth, mas que deve se somar aos egressos do partido. 

O quadro mostra que Kassab percebeu, nas eleições de 2022, que Tarcísio de Freitas chegaria à disputa sem trajetória consolidada na política local e com pouco trânsito entre lideranças tradicionais do estado. Diante disso, decidiu construir uma aliança que garantisse ao então candidato acesso à rede de prefeitos e dirigentes partidários espalhados pelo interior.

Para viabilizar essa estratégia, Kassab ocupou um espaço central no desenho do governo após a eleição, o que permitiu ao dirigente manter influência direta sobre a base municipalista que sustenta parte relevante da coalizão estadual. Ao mesmo tempo, consolidou o PSD como um ator com presença nas decisões do governo e na organização da base na Alesp.

O cenário “desequilibrou a balança dentro da aliança política do governo, transformando o PSD hoje no partido com mais capilaridade no interior”. Por isso, “todo mundo teme que o Kassab, com essa visão expansionista, possa reduzir ainda mais o peso de outras legendas, sobretudo do PL e do Republicanos, que é o partido do próprio Tarcísio e que não são muito grandes em São Paulo”. 

Do PSDB ao PSD, que vira a 3ª bancada da Alesp

Apesar da migração dos líderes do PSD na Alesp, seis deputados do PSDB anunciaram compromisso de filiação ao partido de Kassab. Integram o grupo Analice Fernandes, Barros Munhoz, Carlão Pignatari, Maria Lúcia Amary, Mauro Bragato e Rogério Nogueira. Também deixou o Cidadania o deputado Dirceu Dalben, que passou a integrar a sigla comandada por Gilberto Kassab. Em reação, o presidente do PSDB em São Paulo, Paulo Serra, classificou a movimentação como canibalismo.

Com a mudança, o PSD passou a ocupar a terceira maior bancada da Alesp, com 12 deputados. A sigla fica atrás do PL, que reúne 20 parlamentares, e do PT, com 17. A legenda também lidera o número de prefeituras no país, com 891 administrações municipais. No Congresso Nacional do Brasil, o partido mantém uma das maiores bancadas, com 47 deputados federais e 14 senadores.

“O fato de outros partidos da coalizão usarem expressões como canibalismo contra Kassab reflete a dificuldade de convivência. Isso desequilibra a balança em favor de um partido só, que passa a usar esses ativos políticos inclusive para pressionar e definir candidaturas e alianças. O uso da expressão já revela esse atrito”, afirma Grin. 

No entanto, o professor da FGV afirma que Kassab costuma atuar de forma pragmática, ajustando sua estratégia conforme o cenário de poder. Por isso, não descarta a possibilidade de o dirigente flexibilizar o alinhamento eleitoral de prefeitos e vereadores da sigla. Na prática, quadros locais poderiam receber sinal verde para apoiar diferentes candidaturas.

“É um cenário que teremos que acompanhar nos próximos meses. Se o Kassab perceber que está sofrendo uma rasteira do Tarcísio ou da coalizão, pode ser que isso crie fissuras na aliança, especialmente na região metropolitana, onde os partidos progressistas têm mais espaço. É uma incógnita como isso vai se comportar”, acrescenta. 

Na avaliação de Chaíde, as trocas partidárias são comuns no período de janela partidária, mas a saída de parlamentares do PSD ocorre em um momento em que a sigla ampliou sua bancada com adesões de deputados que estavam no PSDB. “Bancadas que crescem costumam exigir redistribuição de espaços políticos. Quando deputados optaram por migrar, isso pode indicar que o partido não conseguiu reacomodar plenamente esses interesses internos”, diz.

Segundo a cientista política, a força de Kassab ao longo da trajetória política foi construída justamente pela capacidade de organizar bancadas expressivas e negociar posições institucionais. A perda de parlamentares tende a reduzir o peso do partido nas negociações com a coalizão governista, ainda que de forma marginal. Neste caso, afirma, o impacto pode ser um pouco maior, sobretudo pela saída de Paulo Júnior, que teve papel relevante na articulação política no início do mandato de Tarcísio.



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