Fim da escala 6×1: a luta por mais tempo para viver

Fim da escala 6×1: a luta por mais tempo para viver


Vivemos um momento histórico na organização da classe trabalhadora brasileira. O debate sobre a redução da jornada de trabalho sem corte de salários, com o fim da escala 6×1, restrito por décadas ao meio sindical, finalmente “furou a bolha” e tomou as ruas, as redes sociais e o Congresso Nacional.

No setor de comércio e de serviços, vemos diariamente trabalhadores e, sobretudo, trabalhadoras que enfrentam jornadas que beiram a escravidão moderna, num regime que não só consome a força de trabalho, mas promove um verdadeiro “roubo do tempo de vida”.

Para dar substância técnica a essa luta, lançamos o Atlas Comentado da Escala 6×1, baseado em uma pesquisa realizada com mais de quatro mil trabalhadores, que trouxe dados alarmantes. Os que trabalham no Centro do Rio, mas moram em outras cidades da região metropolitana, por exemplo, muitas vezes percorrem 50 km para ir de casa ao trabalho, chegando a gastar até três horas em cada deslocamento. Com a soma das longas jornadas, das horas extras quase obrigatórias no setor e do tempo perdido no transporte público, o trabalhador mal tem tempo para ver seus filhos crescerem ou cuidar da própria saúde.

Esta semana, fomos a Brasília levar essa realidade diretamente aos parlamentares. Acompanhado pela vice-presidente do nosso Sindicato, Ana Paula Costa, fomos acompanhar a votação, na Comissão de Trabalho da Câmara, do projeto de lei nº 67/2025, de autoria da deputada Daiana Santos (PCdoB-RS).

Embora a votação tenha sido adiada, nossa presença foi crucial para consolidar apoios e intensificar a articulação necessária para garantir uma base sólida de aprovação frente à resistência da bancada patronal. Durante nossa passagem pela Câmara, tivemos reuniões fundamentais com a autora da proposta e com o presidente da Comissão de Trabalho, deputado Max Lemos (PDT-RJ), dentre outros parlamentares – a quem entregamos exemplares do Atlas.

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Max Lemos destacou que tem mantido um diálogo muito positivo sobre a medida com o ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, reforçando que o Governo Federal é favorável ao projeto construído em conjunto com os sindicatos.

A vice-presidente Ana Paula levou a voz das comerciárias para estas reuniões, denunciando a exaustão da dupla e tripla jornada enfrentada pelas mulheres, para quem o descanso de apenas um dia por semana é uma sentença de esgotamento.

Para avançarmos nesse cenário para uma jornada que traga mais dignidade e tempo de vida para trabalhadoras e trabalhadores, precisamos ter estratégia e pé no chão no cenário legislativo. Embora sejam louváveis todas as iniciativas que visem a redução da jornada sem corte de salários, compreendemos que o PL nº 67/2025 se apresenta como o caminho mais viável e célere.

A razão é simples e política: uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC), como a apresentada pela deputada Erika Hilton (PSOL-SP), exige um quórum de aprovação altíssimo – três quintos na Câmara e no Senado, em dois turnos de votação. Dada a atual correlação de forças em um Congresso marcadamente conservador, tal trâmite impõe dificuldades hercúleas que podem paralisar a urgência da nossa demanda.

Já o PL nº 67/2025, que propõe a jornada de até 40 horas semanais em escala 5×2 sem redução salarial, exige apenas maioria simples e tem tido uma recepção positiva junto ao Governo. Trata-se de um projeto construído em diálogo direto com as bases sindicais, unindo o anseio popular à viabilidade real de aprovação.

Não aceitamos o discurso patronal de que a redução da jornada prejudica a produtividade. Estudos enviesados tentam prever catástrofes econômicas, mas a realidade de países desenvolvidos mostra o contrário. O trabalhador descansado produz melhor. Além disso, ao devolver o tempo de lazer à população, aquecemos setores vitais como o turismo e a cultura, fazendo a economia girar de forma mais humana e distributiva.

A luta pelo fim da escala 6×1 é, acima de tudo, uma luta em defesa da família e da vida. Queremos o direito de ir à igreja, estudar, praticar um exercício e, fundamentalmente, descansar. O regime 6×1 é desumano. Nossa mobilização em Brasília e nas bases continuará firme até que o tempo deixe de ser uma mercadoria roubada e volte a ser um direito de quem constrói a riqueza deste país.

*Márcio Ayer é presidente do Sindicato dos Comerciários do Rio de Janeiro e diretor nacional de Comércio e Serviços da CTB

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.



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