Publicitário cria aplicativo que gera renda para audiência – 12/03/2026 – Folha Social+

Publicitário cria aplicativo que gera renda para audiência – 12/03/2026 – Folha Social+


Vilton Brito não tinha sobrenome importante em Brasília, como muitos de seus colegas de faculdade. Filho de professora, cria da periferia e bolsista do Prouni (Programa Universidade para Todos), foi fazer seu nome no mercado publicitário de São Paulo.

Tinha 28 anos quando se mudou para a capital paulista para empreender. Cinco anos depois, em 2024, vendeu sua parte em uma agência que tinha R$ 120 milhões em contratos com grandes empresas.

“Olha o que eu fiz com nada”, diz Brito, 35, hoje CEO da Core Midia, braço de comunicação da Arka Holding, sediada na av. Faria Lima. “Minha missão é deixar alguma coisa nessa passagem.”

Passagem marcada por gente que ficou pelo caminho —amigos do bairro perdidos para tráfico de drogas e o pai, que morreu quando Brito tinha 17 anos. Mas também por um bocado de sorte, como a chance de atender a conta da Secretaria de Comunicação da Presidência da República, aos 23 anos.

Época em que o publicitário ajudou a criar um glossário de comunicação cidadã para o governo federal. No lugar de ‘busque assistência médica’, ele sugeria ‘procure seu médico’, por exemplo. Logo depois, ele assumiu cargo de liderança no Twitter [hoje chamado X].

O jovem talentoso ainda tinha um atributo como poucos em agências: falava a língua da quebrada e a do asfalto e entendia a dinâmica de uma parcela da sociedade que há bem pouco tempo não era vista como mercado consumidor.

Em 2025, Brito junto esses mundos. Convidou Ricardo Podval, fundador do hub de impacto Civi-co, Pedro Alexandre, criador da moeda digital Wibx, e Raull Santiago, empreendedor social e ativista do Complexo do Alemão (RJ) para serem sócios de um projeto que buscava impacto social.

Era o Bora, aplicativo que recompensa a audiência e o engajamento com marcas. Ao cumprir tarefas como assistir vídeos ou compartilhar produtos nas redes sociais, usuários ganham criptomoedas que viram desconto em cursos, restaurantes, transporte, ingressos e até Pix.

“É a descentralização do marketing de influência. Tem muita gente experimentando no morro”, diz Santiago, que em novembro do ano passado usou suas redes para mostrar o impacto da ação policial que se tornou a mais letal da história do país, com 121 mortos.

O Complexo do Alemão foi laboratório para o Bora, que mira classes C, D e E para transformar a atenção e o engajamento digital em incremento de renda. A inovação do negócio está na inversão do fluxo de valor: o dinheiro de mídia vai para a ponta, em vez de ser capturado por plataformas como a Meta.

“Topei entrar porque é uma ferramenta de distribuição de renda. A juventude que todo dia bate na porta da ONG no Alemão pode usar o Bora para ter vantagens, economizar o que ia gastar em um hambúguer, por exemplo”, completa Santiago.

“Já virou um telefone sem fio aqui, todo mundo usa”, diz Tiago da Purificação, 37, articulador local. “É uma forma de ganhar dinheiro porque a gente assiste muito vídeo no Instagram e não ganha nada com isso.”

Tiago conquistou 4.000 moedas WibX no Bora —equivalente a cerca de R$ 30. “Pode trocar por desconto de R$ 20 no Mc Donald’s, R$ 15 no Uber e até Pix”, diz ele, que pretende resgatar seus benefícios quando chegar a 8.000 moedas.

A plataforma lançada em 3 de setembro do ano passado conta com 1 milhão de usuários e busca escala em parceria com o programa de pontos e vantagens da Caixa Econômica Federal, o UAU Caixa, da qual Brito também é diretor de marketing. São pelo menos 150 milhões de clientes do banco com acesso à plataforma.

Para Ricardo Podval, o aplicativo aproxima grandes marcas do que ele chama de Brasil real. “O Bora transforma pessoas comuns em microinfluenciadoras, com renda complementar que pode chegar a R$ 300 para quem ganha 1 ou 2 salários-mínimos.”

Desde novembro, mais de R$ 8 milhões foram distribuídos em benefícios na plataforma gamificada. No momento em que a reportagem acessou o app, no início de março, havia poucas ativações disponíveis. Segundo a empresa, algumas campanhas se encerraram no Carnaval e outras devem iniciar em breve.

A nova operação exigiu a reeestruturação do grupo que reúne empresas como a Minu, líder em marketing de recompensas, criada em 2007 para competir com programas de relacionamento baseados em pontos —considerados caros e pouco inclusivos à época. Em seu site, a Minu afirma entregar mensalmente R$ 80 milhões em recompensas, o que evidencia o potencial deste mercado.

“O Bora cria uma nova categoria, a da mídia recompensada, mistura de fidelidade com mídia digital”, explica Brito.

O meio-brasiliense-meio-paulistano apresentou o projeto-piloto do Alemão em Davos, na Suíça, durante o Fórum Econômico Mundial e, em maio, vai a Nova York (EUA). Ele quer tornar sua criação o próximo unicórnio brasileiro [startup avaliada em mais de US$ 1 bilhão].

“É uma coisa que o Vilton daquele glossário jamais ia entender”, diz ele.



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