Quem é Aída Quilcué, a senadora indígena que vai compor chapa de esquerda com Iván Cepeda na Colômbia
Aída Quilcué, senadora indígena do povo nasa e uma das principais lideranças do Cauca, no sudoeste do país, será a candidata à vice-presidência na chapa de Iván Cepeda na eleição colombiana de 31 de maio. O anúncio foi feito nesta semana, dias depois de o Pacto Histórico sair das eleições legislativas como a maior força do Senado, com 25 cadeiras.
A escolha leva para o centro da disputa presidencial uma trajetória marcada pela defesa dos direitos humanos, pela atuação nos processos de paz e pela luta dos povos indígenas por terra e reconhecimento político. Quilcué, de 53 anos, chegou ao Senado em 2022 pela circunscrição especial indígena — a Colômbia tem duas cadeiras reservadas para garantir representação política direta dos povos indígenas no Congresso — e se tornou uma das vozes mais conhecidas desse campo no Parlamento colombiano.
A decisão de Cepeda também sinaliza o rumo político da campanha. Em vez de buscar um nome de perfil mais moderado para dialogar com o centro, o candidato do Pacto Histórico optou por uma liderança identificada com a base social do progressismo. Para o analista político René Ayala, a escolha “evidencia a coerência do projeto” em torno da reivindicação de direitos e do que Aída representa “como mulher e indígena”.
Na avaliação de Ayala, a indicação funciona mais como um recado ao núcleo do Pacto Histórico do que como um movimento para atrair novos apoios eleitorais. Ele considera que parte do campo progressista esperava uma composição mais pragmática, voltada a ampliar alianças com o chamado centro político, mas pondera que esse cálculo talvez não seja decisivo nesta altura da campanha.
O anúncio também acontece num momento em que o governismo tenta transformar o avanço obtido no Legislativo em impulso para a corrida presidencial. Além de ter conquistado a maior bancada no Senado, o Pacto Histórico foi a força com mais mulheres eleitas para a Casa: 13 das 25 cadeiras ficaram com senadoras da coalizão.
Do território ao Congresso
A trajetória política de Quilcué, porém, começou muito antes de sua chegada ao Congresso. Nascida em 2 de fevereiro de 1973, em Páez, no departamento do Cauca, ela é integrante do povo nasa da reserva inídigena Piçkwe Tha Fiw e se projetou nacionalmente como liderança indígena em um dos territórios mais marcados pelo conflito armado, pela disputa por terra e pela violência contra comunidades organizadas na Colômbia.
Ao longo dos anos, passou por algumas das principais estruturas do movimento indígena colombiano. Além de liderança do seu povo, atuou no Conselho Regional Indígena do Cauca (Cric) e na Organização Nacional Indígena da Colômbia (Onic), onde ocupou funções de direção e representação diante de instâncias nacionais e internacionais. Nesse percurso, consolidou uma atuação ligada à defesa dos povos indígenas, dos direitos humanos e da autonomia dos territórios.
Essa trajetória ganhou projeção ainda maior durante o ciclo das negociações de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), principal guerrilha de esquerda do país, que se desmobilizou em 2016 após acordo com o governo. Quilcué participou, pelo Cric, da construção do capítulo étnico dos Acordos de Havana, ponto considerado central por organizações indígenas e afrocolombianas para garantir que os impactos do conflito e os direitos dos povos originários fossem reconhecidos no desenho do pós-acordo. Em 2021, recebeu o Prêmio Nacional de Direitos Humanos na categoria “Defesa por toda uma vida”.
Em 2022, foi eleita senadora pela circunscrição especial indígena com o aval do Movimento Alternativo Indígena e Social (Mais). Junto com Martha Peralta, tornou-se uma das primeiras mulheres indígenas a ocupar uma cadeira no Senado colombiano. No Congresso, passou a integrar a Comissão Primeira Constitucional e concentrou sua atuação em pautas ligadas aos direitos dos povos indígenas, à agenda de paz e aos direitos humanos.
No Senado, Quilcué também foi eleita presidenta da Comissão Legal de Paz e Pós-conflito em 2024, reforçando um perfil parlamentar diretamente ligado a um dos temas mais sensíveis da política colombiana. Sua proximidade com a agenda do governo Gustavo Petro aparece justamente nessa combinação entre defesa dos direitos dos povos originários, reconhecimento territorial e saída negociada para o conflito.
A escolha feita por Cepeda aponta para esse mesmo sentido político. Ao anunciá-la como companheira de chapa, o candidato do Pacto Histórico afirmou que o Cric e Aída representam “o melhor das tradições de resistência, luta social e construção de um país justo e democrático”. Também disse que sua presença simboliza a sabedoria de um país que reivindica justiça e reconhecimento de sua diversidade étnica e cultural.
Uma trajetória atravessada pela violência
A biografia de Quilcué é marcada pela violência política que atinge lideranças sociais e indígenas na Colômbia. O Cauca, de onde vem Quilcué, é um dos departamentos em que a disputa por terra, autonomia indígena e presença armada se expressa de forma mais aguda.
Em dezembro de 2008, seu marido, Edwin Legarda Vásquez, foi assassinado por militares na estrada entre Inzá e Popayán. O Estado colombiano reconheceu responsabilidade pelo crime, seis militares foram condenados e a Jurisdição Especial para a Paz abriu investigação sobre o caso.

As ameaças não cessaram depois disso. Quilcué e outros dirigentes do Cric passaram a sofrer perseguições por denunciar o assassinato, o que levou a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) a determinar medidas de proteção. Nos anos seguintes, ela seguiria denunciando a violência contra lideranças e comunidades indígenas em regiões atravessadas pelo conflito.
Em outubro de 2022, o veículo de seu esquema de segurança foi alvo de disparos quando ela percorria áreas de Guadualejo, Puerto Valencia e Tierradentro. Em agosto de 2025, denunciou que sua caravana foi obrigada a parar durante um deslocamento entre Cauca e Huila. Já em fevereiro deste ano, sofreu uma retenção ilegal quando se deslocava entre Inzá e Totoró, no Cauca.
