Inteligência artificial: só 10% das empresas dizem que a implementação deu certo

Inteligência artificial: só 10% das empresas dizem que a implementação deu certo



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A inteligência artificial deixou de ser promessa e passou a fazer parte da rotina de grande parte das empresas brasileiras. Transformar essa adoção em vantagem competitiva, porém, ainda é um desafio. É o que mostra a terceira edição do Panorama de Sentimento das Lideranças 2026, estudo divulgado pela Newnew que ouviu mais de 300 líderes de médias e grandes organizações no país, para entender como a aceleração da IA tem impactado o trabalho, a cultura corporativa e as decisões estratégicas.

Segundo o levantamento, 80% das empresas afirmam utilizar algum tipo de aplicação de inteligência artificial. Apesar da ampla presença da tecnologia, o nível de maturidade organizacional ainda é limitado. Apenas 11% das lideranças avaliam que a implementação “deu super certo”, enquanto a maior parte das companhias permanece em estágio intermediário.

O estudo buscou mapear menos a tecnologia em si e mais a forma como as lideranças percebem esse momento de transição. A principal conclusão aponta que os entraves não são técnicos, mas humanos e estratégicos. Cerca de 70% dos gargalos identificados estão relacionados à cultura organizacional, à falta de habilidades críticas e à dificuldade de direcionamento da liderança. 

Para Mariana Achutti, CEO da Newnew, a inteligência artificial já deixou de ser vista como a principal fonte de tensão dentro das organizações. “A discussão saiu do campo da adoção e entrou no campo da gestão. O que ainda não está claro é como estruturar direção, critérios e responsabilidade para que ela gere vantagem competitiva real”, afirma.

Os fatores que mais pressionam os executivos, segundo os entrevistados:

  • Saúde mental – 41% . 
  • Produtividade que não acompanha o aumento das demandas – 31% 
  • Déficit de talentos qualificados – 28%.
  •  Dificuldade de implementar novas tecnologias – 22%.
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Falta de governança 

Outro ponto destacado pelo estudo é a falta de governança. Apesar da disseminação da tecnologia, 53% das empresas ainda estão em estágios inexistente ou embrionário quando o assunto é a criação de diretrizes, métricas e critérios para orientar o uso da IA. Na prática, a implementação da tecnologia avançou mais rapidamente do que a construção de estruturas capazes de orientar decisões e reduzir riscos operacionais e reputacionais.

Ao comparar os resultados com cenários projetados pelo Fórum Econômico Mundial para 2030, o levantamento sugere que o Brasil vive uma situação intermediária: há entusiasmo e rápida adoção da tecnologia, mas ainda falta estrutura para transformar essa inovação em ganhos competitivos duradouros. Para Achutti, o próximo salto não será apenas tecnológico, mas humano, exigindo mais pensamento crítico, capacidade de decisão e responsabilidade coletiva dentro das organizações. Abaixo entrevista com a CEO.

O que explica esse descompasso entre velocidade de adoção e capacidade real de implementação nas empresas? O que estamos vendo no Brasil é um fenômeno bastante típico de tecnologias disruptivas: a adoção começa pela experimentação, mas a transformação estrutural demora mais para acontecer. No nosso estudo, que ouviu mais de 300 lideranças, fica evidente que a IA entrou muito rapidamente no cotidiano das empresas, principalmente em tarefas operacionais e no ganho de produtividade. Mas transformar essa adoção em vantagem competitiva exige algo mais profundo: governança, estratégia clara e integração com o modelo de negócio.

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Existe também um fator organizacional importante. Muitas empresas adotaram ferramentas antes mesmo de definir processos, métricas ou prioridades estratégicas para o uso da IA. Isso cria um cenário em que a tecnologia está presente, mas ainda não está plenamente integrada à tomada de decisão, à estratégia ou à forma como o trabalho é estruturado.


 O problema apontado no estudo está na forma de conduzir essa transformação ou na falta de preparo dos profissionais? Na prática, é uma combinação dos dois fatores. Existe uma lacuna de preparo, mas ela não está apenas nas pessoas — ela também está nas organizações. Muitas empresas estão pedindo competências que ainda estão em formação no mercado, o que cria a impressão de escassez de talentos, quando na verdade estamos vivendo uma fase de transição. O relatório Future of Jobs mostra que estamos entrando em um momento de “fluxo de habilidades”, em que competências técnicas ficam obsoletas mais rapidamente e precisam ser constantemente atualizadas. Nesse contexto, esperar profissionais completamente prontos para uma tecnologia tão recente quanto a IA é pouco realista. As empresas que avançam mais rápido são justamente aquelas que colocam a aprendizagem contínua no centro da estratégia. Por isso, mais do que uma questão de capacitação individual, o grande desafio está em como as empresas estão conduzindo essa transformação. Organizações que estruturam programas de reskilling, criam espaços seguros de experimentação e conectam a IA aos problemas reais do negócio tendem a avançar mais rápido do que aquelas que tratam a tecnologia apenas como uma ferramenta isolada.

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Muitas empresas implantam IA apenas para  sinalizar ao mercado que são modernas? Em parte, sim. Existe um componente de sinalização. A inteligência artificial se tornou um símbolo de modernidade organizacional e muitas empresas sentem pressão para demonstrar que estão usando a tecnologia. O risco é que a adoção aconteça primeiro como discurso e só depois como transformação real. Nos dados que observamos, a IA já está bastante presente no dia a dia das empresas, mas muitas implementações ainda estão concentradas em ganhos incrementais, como automação de tarefas ou suporte a processos existentes. O salto estratégico acontece quando a tecnologia passa a influenciar decisões, modelos de negócio e o próprio desenho do trabalho. Esse é justamente o momento que estamos atravessando. A fase inicial foi marcada pela experimentação. A próxima etapa será definida pela maturidade. As organizações que conseguirem estruturar governança, métricas de impacto e desenvolvimento de habilidades terão condições de transformar a IA em vantagem competitiva. As demais provavelmente permanecerão no estágio de uso pontual, sem capturar todo o potencial da tecnologia.



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