Petróleo passa de US$ 100 com Ormuz bloqueado e colapso da produção no Iraque
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- Petróleo Brent supera US$ 101 e WTI bate US$ 101,56 na segunda-feira 9/3, maior alta desde 2022, após bloqueio de Ormuz.
- Produção do Iraque despencou 70%, de 4,3 milhões para 1,3 milhão de barris por dia; Kuwait declarou força maior e Arabia Saudita suspendeu refinaria de 550 mil barris/dia.
- Ormuz responde por um quinto dos fluxos globais de petróleo e gás; analistas diziam que aperto de 3-4 semanas poderia elevar Brent acima de US$ 100.
- Brasil enfrenta pressão em fertilizantes, fretes e custos industriais; guerra ameaça cadeia de grãos e abastecimento de ureia para o agro.
O petróleo voltou a superar a marca de US$ 100 na noite deste domingo, 8 de março de 2026, na abertura dos mercados asiáticos de segunda-feira, 9 de março. O Brent foi a US$ 101,81 e o WTI a US$ 101,56, no maior salto desde 2022, em meio à guerra envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel e ao bloqueio do estreito de Ormuz, corredor estratégico para a energia mundial. No mesmo domingo, fontes do setor ouvidas pela Reuters relataram que a produção do Iraque despencou 70%, de 4,3 milhões para 1,3 milhão de barris por dia.
A disparada do barril não é apenas um movimento especulativo. O mercado passou a precificar uma ruptura real de oferta, porque Ormuz responde por cerca de um quinto dos fluxos globais de petróleo e gás natural liquefeito. Com o gargalo travado, o choque já saiu do terreno da ameaça e atingiu produção, exportação, seguros marítimos e logística em cadeia.
Iraque puxa a crise, e o Golfo entra na zona de risco
O caso iraquiano virou o sinal mais agudo da deterioração. Segundo a Reuters, os estoques de petróleo no sul do país chegaram ao limite, o que obrigou o redirecionamento da produção remanescente para refinarias domésticas. As exportações médias caíram para cerca de 800 mil barris por dia, muito abaixo dos 3,334 milhões de barris diários registrados em fevereiro nos campos do sul.
O problema já se espalha pelo Golfo. O Kuwait declarou força maior e iniciou cortes na produção em 7 de março. Os Emirados Árabes Unidos disseram que estão administrando seus níveis de bombeamento para preservar “flexibilidade operacional”. A Arábia Saudita, por sua vez, suspendeu a produção na refinaria de Ras Tanura, com capacidade de 550 mil barris por dia, e começou a redirecionar carregamentos para Yanbu, no Mar Vermelho.
Esse quadro confirma o cenário que o mercado vinha antecipando desde o fechamento de Ormuz. No início da crise, analistas já apontavam que um aperto de três a quatro semanas no estreito poderia empurrar o Brent acima de US$ 100. Na sexta-feira, 6 de março, o Brent já havia encerrado o dia a US$ 92,69 e o WTI a US$ 90,90, com altas semanais de 27% e 35,63%, respectivamente.
Por que Ormuz mexe com a economia mundial
O estreito de Ormuz não é apenas uma rota regional. É um dos principais pontos de passagem de energia do planeta. Quando a navegação trava ali, não sobem apenas as cotações do petróleo bruto. Sobem também os custos de frete, o preço do diesel, o valor do gás e o prêmio de risco embutido em toda a cadeia energética. A própria Reuters já havia mostrado, nos primeiros dias do conflito, que grandes petroleiras, tradings e armadores suspenderam embarques pela região.
Na cobertura da Fórum sobre o fechamento de Ormuz, o risco já havia sido antecipado quando os mercados futuros começaram a reagir. Depois, a escalada ganhou novos capítulos em “Ataque dos EUA ao Irã faz preço do petróleo disparar” e em “Irã fecha Estreito de Ormuz e ameaça incendiar embarcações que desafiarem bloqueio”. A dimensão geoeconômica da ofensiva também foi tema aqui na Fórum em “Os 6 pontos nevrálgicos que o Irã atacou para afetar a economia mundial”.
E o Brasil nessa conta
Para o Brasil, o impacto potencial vai além dos combustíveis. A crise também pressiona fertilizantes, fretes e custos industriais. A Reuters mostrou que a guerra ameaça a cadeia de grãos brasileira e o abastecimento de ureia, insumo importante para o agro, justamente porque parte relevante dessa logística depende da região. No campo político e econômico, a própria Fórum já reuniu as primeiras reações em “Brasil é autônomo o suficiente para se preparar”, diz Haddad sobre impactos do conflito no Oriente Médio e em “Guerra: Petroleiros alertam para necessidade de o Brasil ampliar investimentos”.
No curto prazo, a alta do barril recoloca no centro do debate inflação, custo do diesel, pressão sobre cadeias de alimentos e o papel de produtores fora da zona de guerra. Também ajuda a explicar por que o Brasil, que passou a integrar a Opep+, volta a ser observado como fornecedor relevante em um mercado submetido a choque geopolítico.
Se o bloqueio de Ormuz persistir e os cortes no Golfo avançarem, a barreira de US$ 100 pode deixar de ser pico momentâneo e se transformar em novo patamar de estresse para a economia global.
