‘Até quando?’: mulheres dizem basta aos feminicídios no 8 de Março em Porto Alegre
Milhares de mulheres de várias idades, além de homens, ocuparam as ruas de Porto Alegre neste domingo (8) para marcar o Dia Internacional da Mulher com um ato que reuniu celebração e reivindicação por direitos. Com faixas e cartazes, as manifestantes denunciaram a violência de gênero, cobraram ações pelo fim do feminicídio, criticaram a precarização do trabalho e defenderam pautas como soberania, dignidade menstrual, fim da escala 6×1 e das guerras do imperialismo.
A mobilização foi uma das maiores dos últimos tempos na cidade. Contou com apresentações artísticas e rodas de dança. Durante o ato, participantes destacaram o impacto coletivo da violência contra as mulheres. “Todas nós morremos um pouco também. Até quando vamos ter que noticiar esses horrores para que essa tortura acabe?”, questionaram manifestantes.
O ato na capital gaúcha teve a participação de movimentos feministas, sociais e sindicais, parlamentares e pessoas sem ligação a entidades. Entre as reivindicações estiveram também o fortalecimento da rede de proteção e a ampliação de políticas públicas para as mulheres no estado. Assim como a denúncia das guerras e conflitos internacionais envolvendo Estados Unidos, Israel, Palestina e Irã.
“Essa data carrega toda uma história atrás, carrega a história do movimento socialista, das mulheres que no início dos anos 1900 realizaram grandes marchas mundiais, internacionais, denunciando que sob o regime capitalista não existe saída para as mulheres. E hoje, com o neoliberalismo de guerra em crise no mundo, vemos o quanto as mulheres estão sendo massacradas. Lutar por uma sociedade onde não haja desigualdade econômica, social e política é o caminho. Estamos juntas até a vitória”, pontuou a jornalista e integrante do Levante Feminista contra o Feminicídio Télia Negrão.
Para a deputada federal e presidenta da Comissão Externa do Congresso Nacional sobre os feminicídios ocorridos no Rio Grande do Sul, Fernanda Melchionna (Psol/RS), a marcha é fundamental frente ao machismo e à misoginia, ao crescimento do discurso de ódio e ao recrudescimento e brutalidade do feminicídio no RS e em todo o Brasil. “Vamos precisar de muita luta para parar de enxugar gelo. Precisamos dar um basta no feminicídio.”
Na mesma linha, a deputada federal Maria do Rosário (PT/RS), relatora da Comissão Externa sobre os feminicídios, destacou a importância da marcha diante do cenário de fascismo no país e do ódio contra as mulheres, sobretudo na internet. “Isso aqui é o povo se manifestando por direito e dignidade.”
“É uma luta importante para as mulheres organizadas, para exigir justiça e denunciar a violência”, complementou a deputada federal Daiana Santos (PCdoB/RS), também integrante da comissão.

Pela vida das mulheres
As denúncias de feminicídio e violência contra as mulheres estiveram entre as principais pautas do protesto. O Brasil registrou 1.568 feminicídios em 2025, segundo a nota técnica Retrato dos Feminicídios no Brasil, divulgada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Desde a tipificação do crime, em 2015, mais de 13,7 mil mulheres foram assassinadas em razão do gênero no país.
Nos últimos cinco anos, o crescimento acumulado dos casos foi de 14,5%. Entre 2021 e 2024, mulheres negras representaram 62,6% das vítimas de feminicídio, enquanto mulheres brancas corresponderam a 36,8% dos casos. Metade das vítimas tinha entre 30 e 49 anos.
Entre 2021 e 2025, o Rio Grande do Sul concentrou o maior número de feminicídios da região Sul, com 444 registros, o equivalente a 38,8% das mortes. No mesmo período, foram contabilizados 429 casos no Paraná e 272 em Santa Catarina. Tanto em nível estadual quanto nacional, a maioria dos feminicídios foi cometida por companheiros ou ex-companheiros.

Dados estaduais indicam que, em 2025, o Rio Grande do Sul registrou 80 mulheres assassinadas, além de 264 tentativas de feminicídio e mais de 52 mil ocorrências enquadradas na Lei Maria da Penha. Desde o início de 2026, foram registrados 20 casos de feminicídio no estado.
“É preciso acordar para essa situação que está se transformando em uma situação inaceitável. Se o homem tiver um pingo de moral, tem que se unir, estar junto nessa luta porque a barbárie se instaurou contra as mulheres”, destacou o diretor de teatro Roberto Oliveira, que lembrou a situação da casa de acolhimento Mirabal e o desmantelamento de políticas públicas referentes às mulheres.
De acordo com levantamento do Mapa do Feminicídio da Polícia Civil do RS, 78,8% dos feminicídios ocorreram dentro de casa e 21,3% em via pública. O relatório indica ainda que 89,9% dos crimes aconteceram no contexto de relações íntimas. A distribuição por vínculo mostra que 67,5% dos autores eram companheiros, 20% ex-companheiros e 3,8% filhos; os demais se enquadram em outros vínculos.
Para a militante do Movimento dos Trabalhadores por Direito (MTD), Lourdes Santin, a luta pela vida das mulheres é extremamente importante e precisa do engajamento dos homens. “Precisamos parar de matar as mulheres, nós nos queremos vivas, com direitos.”
Neste cenário, pontuou o professor da rede municipal de Educação de Porto Alegre Marco Mello, a escola se torna um espaço fundamental. “Sobretudo nesse momento em que o avanço do neofascismo em nível planetário coloca esse desafio, a escola como local de socialização, humanização, uma educação sobre igualdade de gênero que desconstrua o estereótipo, que problematize esse machismo que ainda está enraizado.”
Também presente ao ato, a professora Esther Pillar Grossi, 89 anos, frisou que o feminicídio precisa ser objeto de pesquisa muito séria, exemplificando a definição da palavra paixão e sua relação com a violência. “Para resolver isso tem que entrar na escola, na família, precisa muita pesquisa.” Ela também chamou atenção para fatores econômicos.

Violência também atinge o mundo do trabalho
Segundo boletim especial do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), divulgado em 2026, o Ministério da Saúde registrou 1.159 casos de acidentes de trabalho por agressão física contra mulheres em 2024, o que representa, em média, uma mulher agredida a cada oito horas durante o exercício da profissão.
Já o Ministério das Mulheres contabilizou, por meio do canal 180, 155.111 denúncias de violência contra mulheres em 2025. Desse total, 2.403 ocorreram no ambiente laboral. Entre os registros, 479 apontaram o patrão ou alguém em cargo de chefia como agressor, enquanto 414 indicaram colegas de trabalho.
Desigualdade de gênero persiste no mercado de trabalho
De acordo com o Dieese, apesar da melhora recente nos indicadores de emprego no Brasil, as desigualdades entre homens e mulheres permanecem no mercado de trabalho. Utilizando dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o levantamento aponta diferenças nas taxas de ocupação, na informalidade e também nos rendimentos.
Entre o quarto trimestre de 2022 e o quarto trimestre de 2025, o país registrou aumento do número de pessoas ocupadas e redução da desocupação. No caso das mulheres, o total de ocupadas passou de 42,1 milhões para 44,9 milhões no período, crescimento de 6,6%. A taxa de desocupação feminina caiu de 9,8% para 6,2%. Mesmo assim, o índice permanece acima do registrado entre os homens, que foi de 4,2% em 2025. Entre mulheres negras, a taxa chegou a 7,5%, enquanto entre mulheres não negras ficou em 4,7%.
Outro dado destacado pelo levantamento é o número de mulheres fora da força de trabalho. Em 2025, eram 42,7 milhões, cerca de 47,2% da população feminina em idade ativa. Entre elas, 30,5% afirmaram não procurar emprego devido aos afazeres domésticos e ao cuidado com familiares.

Informalidade e renda
A informalidade também permanece elevada entre as trabalhadoras. Em 2025, 35,5% das mulheres ocupadas estavam em trabalhos informais. Entre mulheres negras, a taxa chegou a 39,9%.
As diferenças também aparecem nos rendimentos. O salário médio das mulheres foi de R$ 3.042 em 2025, enquanto o dos homens chegou a R$ 3.864, cerca de 21% maior.
Entre profissionais com ensino superior, a desigualdade é ainda mais expressiva: homens receberam, em média, R$ 8.357, enquanto mulheres com a mesma escolaridade tiveram rendimento médio de R$ 5.409.
As mulheres também estão mais concentradas nas faixas de renda mais baixas. Em 2025, 38% das trabalhadoras recebiam até um salário mínimo, enquanto entre os homens esse percentual era de 28%.
“Estamos aqui pelo fim da violência, pelo fim da escala 6×1, mas também por mais trabalho, dignidade, renda para as mulheres camponesas. E a gente sabe que se nos meios urbanos as estatísticas sobre a violência são assustadoras, muitas vezes, no campo esses dados nem aparecem”, destacou a suplente do senador Paulo Paim e dirigente sindical da Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar do Rio Grande do Sul (Fetraf-RS/CUT), Cleonice Back.
Para a dirigente, é preciso trabalhar o empoderamento das mulheres, formação e geração de renda, porque infelizmente muitas mulheres no campo não têm autonomia financeira. “Estamos juntas, mulheres do campo e da cidade, pelo fim da violência, por mais dignidade, por mais trabalho, renda e autonomia financeira.”

“Nos queremos vivas”
Após a concentração, as manifestantes saíram em caminhada pelas ruas de Porto Alegre. Durante o trajeto, trabalhadoras da cultura carregaram sapatos em alusão às vítimas de feminicídio e realizaram uma intervenção cobertas de tinta vermelha para simbolizar o sangue das mulheres perdidas. Foram nominadas as 20 mulheres vítimas de feminicídio registradas desde o início do ano no estado.
Pela primeira vez no ato, Patrícia Farias disse que decidiu participar diante da gravidade da situação. “É assustador”, afirmou. Também em sua primeira participação em atos de rua, a integrante do grêmio estudantil de escola de Sapucaia do Sul, Isadora contou que foi à manifestação pela luta feminista e contra a violência contra as mulheres. “Vim pela luta, pelo feminismo, contra a violência contra a mulher, o abuso, o assédio”, disse.
Nicole, também integrante do grêmio estudantil, destacou a importância da mobilização. “É importante estar nas ruas para lutar pelas nossas vidas, pelas vidas das nossas amigas, nossas mães, tias”, completou.

A conselheira tutelar Vitória Santana chamou atenção para os impactos do feminicídio nas famílias, especialmente nas crianças que ficam. “A violência contra as mulheres atinge as famílias, principalmente as crianças. Por isso é muito importante lutarmos pela vida das mulheres e por mais políticas públicas também para as crianças que ficam”, afirmou. Em 2025, os feminicídios deixaram 116 órfãos no estado.
O ato também incluiu a escrita dos nomes das mulheres assassinadas no asfalto, em um gesto de memória e denúncia da violência de gênero. Além das intervenções culturais, a atividade contou com uma feira de economia solidária. A mobilização foi organizada por mais de 70 entidades, entre movimentos feministas e sindicais.
Pelo fim das desigualdades
A presidente da União Brasileira das Mulheres (UBM), Salete Souza, ressaltou o cansaço diante da violência e das desigualdades enfrentadas pelas mulheres. “Estamos exaustas por conta da violência, das cobranças que a sociedade faz sobre as mulheres, estamos exaustas de ter que sobreviver. Queremos dignidade. Somos a maioria, nós geramos, mexemos a economia. Não é certo receber menos que os homens.”
Representando o Movimento das Mulheres Camponesas (MMC), Larissa destacou a participação de mulheres do Litoral Norte no ato e as pautas defendidas pelo movimento. “Viemos com uma van e estamos aqui fortalecendo a luta contra a violência e também para trazer nossas bandeiras contra os transgênicos, pela reforma agrária, pela soberania alimentar e pelas sementes crioulas”, disse.

A presidenta do Centro dos Professores do Estado do Rio Grande do Sul – Sindicato dos Trabalhadores em Educação (Cpers Sindicato), Rosane Zan, destacou que a maioria da categoria é formada por mulheres, o que reforça a necessidade de políticas públicas voltadas a elas. “Isso mostra como precisamos lutar por políticas para as mulheres”, afirmou.
Para ela, os números de mortes de mulheres registrados até o momento indicam a urgência de medidas de proteção. “Nós, mulheres, principalmente educadoras, temos uma carga horária máxima, precisamos de valorização salarial. Trabalhamos muito mais que a jornada 6×1. Precisamos ser valorizadas. Parem de nos matar. Precisamos de direitos”, declarou.
A integrante da coordenação nacional do Levante Popular da Juventude, Juliana Bergmann, avaliou que a mobilização teve grande importância diante do aumento da violência contra as mulheres e do cenário político nacional e internacional. “Quando as mulheres marcham, o recado é claro: queremos seguir livres, para que nossos corpos não sejam mais violentados. Precisamos enfrentar o patriarcado e os discursos misóginos que hoje também avançam nas redes, como o discurso redpill.”
Para ela, o enfrentamento à violência exige o fortalecimento de políticas públicas e mecanismos de proteção. “Precisamos garantir que as mulheres estejam seguras em casa, no trabalho, nas ruas e também nas redes sociais. Isso passa por ampliar os espaços de denúncia e garantir que a justiça seja feita.”
A secretária da Mulher Trabalhadora da Central Única dos Trabalhadores do Rio Grande do Sul (CUT-RS) e secretária-geral do Cpers Sindicato, Suzana Cecília Lauermann, destacou a dimensão da mobilização. “Nossa reação é do tamanho da agressão que estamos assistindo contra as mulheres. Essa presença massiva mostra o quanto a nossa luta é importante e o quanto ela toca a vida das pessoas. Da rua a gente não se retira enquanto isso continuar”, afirmou.
Segundo ela, a mobilização também integra a campanha da CUT-RS. “Vamos seguir lutando em defesa da vida das mulheres, sem pestanejar”, disse, referindo-se à campanha “As mulheres na luta têm pressa porque nossa vida não tem hora extra”.
“Ficamos sem voz para poesia”

A atuadora Tânia Farias, integrante do grupo Ói Nóis Aqui Traveiz e organizadora da intervenção artística em memória das mulheres vítimas de feminicídio, explicou o significado da performance apresentada durante o ato. “A gente faz teatro, sabemos que a arte produz bens simbólicos. Queremos fazer poesia na cena, mas chega um momento que não é mais possível fazer poesia.”
Segundo Farias, a violência cotidiana contra as mulheres motivou a intervenção. “Todos os dias temos muitas camaradas que foram violadas. A cada seis minutos uma mulher é estuprada, a cada quatro dias uma de nós é assassinada. Ficamos sem voz para poesia. Então resolvemos botar o sangue na rua, no sapato, e trazer isso para a marcha do 8M”, disse.
Para a atuadora, a sociedade ainda se recusa a enfrentar o problema estrutural da violência de gênero. “É muito horrível pensar que o limite não chega nunca. Cada vez somos mais eliminadas e de forma mais cruel. Não podemos dizer que não vivemos em uma sociedade machista e misógina. Cada mulher que morre, nós morremos um pouquinho”, declarou.
Ela também cobrou responsabilidade coletiva diante da violência. “Mais uma vez, no 8 de Março, temos que falar de feminicídio. Oxalá a gente conquiste políticas públicas efetivas e contundentes para que um homem pense duas vezes antes de nos eliminar. Nós, mulheres, estamos na rua, mas precisamos que os homens percebam que somos assassinadas todos os dias por homens. Basta de homens dizerem que não conhecem abusadores, assassinos e violentos”, concluiu.
Atos no interior do RS

Na tarde de sábado (7), cerca de 500 pessoas participaram de um ato em Passo Fundo para marcar o Dia Internacional da Mulher. A mobilização teve como pauta central o enfrentamento à violência contra a mulher, tema que se impõe com urgência diante da escalada da violência de gênero no Rio Grande do Sul e também no município.
Embora Passo Fundo não tenha registrado feminicídios consumados em 2026 até o momento, os dados dos dois primeiros meses do ano já acendem um alerta: entre janeiro e fevereiro, foram contabilizados um caso de tentativa de feminicídio, sete estupros, 42 lesões corporais e 70 ameaças contra mulheres no município.
Além das marchas em Porto Alegre e em Passo Fundo, atos e atividades marcaram a data em municípios gaúchos como São Leopoldo, Pelotas, Santa Maria, Caxias do Sul e Rio Grande, reunindo movimentos feministas, sindicatos e organizações sociais em defesa da vida das mulheres e contra a violência de gênero.
Confira a transmissão ao vivo da marcha em Porto Alegre
