Sua Excelência a pé – 08/03/2026 – Ruy Castro

Sua Excelência a pé – 08/03/2026 – Ruy Castro


Outro dia, assisti na TV ao depoimento de uma juíza de primeira instância sobre as agruras dos profissionais do seu status, o mais inferior da categoria. Aflito, ouvi seu protesto contra o fato de que, ao contrário dos colegas de instâncias superiores, ela não dispunha de carro fornecido pelo Estado. Pela ênfase que dava ao tópico, não se sabe como conseguia dar conta de suas atribuições, sem um veículo que a levasse de casa para o trabalho e, ao fim do expediente, a devolvesse ao sacrossanto recesso.

Sem um carro à custa do erário, o que lhe restava? Ir a pé para o tribunal? Pegar uma carona com um vizinho? Chamar um táxi? Ir de bicicleta? Ou comprar um carro com seu salário e pagar pela gasolina assim como nós, os mortais, temos de fazer? E com a vantagem de seu salário gozar de penduricalhos a que os reles praticantes de outras profissões não fazem jus.

Sua Excelência dirá que os juízes precisam de carro por questão de segurança. De fato, se o sujeito de sua alçada for um arquivo vivo de algum big escândalo corrente, o juiz não deve ficar flanando pela cidade. Aliás, nesse caso, um simples carro oficial não será suficiente —precisará ser blindado, à prova de metralhadoras, e com escolta. Mas não acho que um juiz de primeira instância esteja exposto o tempo todo a tal perigo. Quero crer que a maioria das causas em suas mãos se refira a brigas de vizinhos, casais em litígio, ações contra planos de saúde e atropelamento de cachorro. Exigirão tanta proteção?

Fui informado de que os carros destinados aos juízes devem se limitar às funções do trabalho —é proibido usá-los para ir ao supermercado, buscar as crianças na escola ou ir vistoriar suas propriedades na roça. Parece, inclusive, que, nos fins de semana e feriados, os carros devem se conservar nas garagens oficiais. Mas você sabe como é o Brasil, não?

Incrivelmente, a ministra Cármen Lúcia, do STF, não vai de carro oficial para o trabalho. Vai de táxi e aproveita para bater papo com o taxista a respeito da vida real.

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