Folia de uma bet só: Esportes da Sorte patrocinou principais carnavais do país com contratos sem transparência
Neste ano, a Esportes da Sorte engoliu o patrocínio das outras casas de apostas e tornou-se a única empresa do setor a financiar os principais polos do Carnaval pelo país, deixando sua marca exposta na maior festa popular do Brasil.
Contudo, apesar de cidades como São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ), Belo Horizonte (MG), Salvador (BA), Recife e Olinda (PE) divulgarem a propaganda do patrocínio em postagens oficiais nas redes sociais, os contratos não possuem transparência e não estão disponíveis com livre acesso.
A reportagem procurou as assessorias de imprensa das respectivas cidades, mas os pedidos de informação não foram respondidos. O espaço, no entanto, segue aberto às manifestações. No caso da cidade de São Paulo, o acesso ao contrato foi possível via gabinete de uma deputada estadual.
Neste ano, a maior cidade do país, pela primeira vez, teve o Carnaval patrocinado por bets. Como de costume, a Ambev teve direito ao título de “patrocinadora oficial” após a proposta de R$ 29,2 milhões, o valor mínimo proposto no pregão anunciado pela prefeitura comandada por Ricardo Nunes (MDB).
O valor é R$ 1,4 milhão a mais do que o desembolsado no ano passado pelo direito de exibição das marcas. O termo assinado em 14 de novembro de 2025 firmou parceria entre a Ambev e o governo municipal. No contrato, a vigência é até 90 dias depois do término do Carnaval na cidade.
A cervejaria, desta vez, alterou a estratégia da marca: trocou a Brahma e indicou a Skol como produto nos pontos de venda de 15 mil ambulantes credenciados. Além disso, indicou outras oito marcas como patrocinadoras da festa, entre elas, a casa de apostas online Esportes da Sorte.
Em 2025, apesar de omitir os gastos com patrocínio, a Esportes da Sorte divulgou o apoio em mais de 100 blocos pelo país. Outras marcas, como a Betnacional, investiram em parcerias privadas. A empresa, que tem entre seus garotos-propagandas o apresentador Galvão Bueno e o jogador de futebol Vinny Júnior, conseguiu espaço publicitário no CarnaLau em São Paulo, da cantora sertaneja Lauana Prado.
A transparência da prestação de contas é ainda mais difícil de ser acessada por se tratar de uma atividade particular. Já em outro, e um dos maiores da cidade, o Casa Comigo, a bet Cassino patrocinou o bloco. Novamente, os comunicados do acordo não divulgaram valores. Desta vez, a visibilidade saiu de um bloco ou outro e ganhou a estampa principal no Carnaval de São Paulo.
Sem espaço no sambódromo
Saindo da rua e invadindo o Sambódromo do Anhembi, na zona norte da cidade, a Esportes da Sorte deixa de ser a patrocinadora master. Devido a um contrato firmado que já dura três anos e finaliza em 2027, a Galerabet assume a publicidade do evento, junto com outras marcas, como Pagbank e a Amstel. Antes disso, a marca já esteve presente como parceira no Camarote Bar Brahma do Sambódromo, onde as escolas de samba do grupo especial se apresentaram no final de semana pós-Carnaval. Nas redes sociais, a logo da bet aparece em todas as postagens da Liga das Escolas de Samba de São Paulo.
Enquanto isso, na Liga Independente das Escolas de Samba do Rio (Liesa), a Superbet repete o patrocínio iniciado em 2023. Desde o ano passado, foi vetada a exposição das marcas das bets nos abadás e nos espaços externos aos camarotes. A reportagem procurou a assessoria da Liesa, que não retornou até a publicação.
A reportagem apurou também que, dentre os 18 camarotes disponíveis à venda no site, dois deles fazem propagandas da Superbet. Os ingressos variam de R$ 2 mil a R$ 7 mil por dia de apresentação. A marca também é patrocinadora oficial dos times de futebol Fluminense e São Paulo.
Já no Carnaval de Rua do Rio de Janeiro, a Esportes da Sorte detém o patrocínio master, que se divide entre marcas do grupo Ambev, Airbnb e Zé Delivery.
Atualmente, tramita no Senado o Projeto de Lei 3.563/2024, que proíbe todas as modalidades de publicidade, patrocínios ou promoção de apostas esportivas e jogos de azar online. O texto do PL prevê proibição de campanhas publicitárias de empresas de apostas esportivas em rádio, televisão, jornais, revistas, sites e também cartazes. Também ficará proibida a pré-instalação de aplicativos de apostas em celular, tablets e smartTVs.
No dia 4 de fevereiro, a Comissão de Ciência e Tecnologia (CCT) aprovou o texto, que seguirá para análise da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). Caso seja aprovado, o projeto segue para votação no plenário do Senado e depois passa pela Câmara, seguindo, por fim, para a sanção presidencial. Enquanto isso não acontece, a farra das bets continua.
Negócio começou em Recife e dominou o país
A estratégia das casas de apostas em ter o domínio da publicidade segue sendo as mesmas dos outros carnavais. Primeiro, as bets se aproximam de artistas e influenciadores locais de relevância em eventos de grande destaque no país, como é o caso do Carnaval e das festas de São João. Depois disso, pleiteiam pregões de secretarias municipais de Cultura e, em alguns casos, tomam posse do patrocínio oficial, mas sem deixar rastros do valor milionário injetado.
A Esportes da Sorte, por exemplo, ao longo do ano passado, tem divulgado propagandas de jogos não apenas em times de futebol, como Corinthians e Náutico, em São Paulo e Pernambuco, respectivamente, mas também tem articulado uma estratégia de impulsionamento da marca através do cantor Léo Santana, que neste ano esteve presente nos carnavais da Bahia, Minas Gerais, São Paulo, Pernambuco e Rio de Janeiro.
No Recife, a casa de apostas renovou o patrocínio oficial do Galo da Madrugada, considerado o maior bloco carnavalesco de rua do mundo. Neste ano, a Esportes da Sorte bancou mais uma vez um show do cantor João Gomes no palco do Marco Zero, no dia 12 de fevereiro. Antes disso, desde o pós-Carnaval do ano passado, tem elaborado estratégias de impulsionamento com figuras locais, como as apresentadoras da TV Jornal, afiliada do SBT no estado, Jurema Fox e Amanda Maga. A cantora e influenciadora MC Loma também divulga frequentemente a marca.
A estratégia da Esportes da Sorte para dominar o Carnaval pernambucano ficou tão escancarada, que se tornou tema de um projeto da artista e ativista Catarina DeeJah. Reconhecida por sua criação musical e de artes visuais, como as famosas bandeirolas coloridas, feitas em tipografia própria, espalhadas por todos os cantos de Olinda, Deejah lançou o projeto “Bet, a feia”, uma alusão à personagem “Betty, a feia”, para criticar a casa de aposta. A empresa não gostou do deboche e enviou uma notificação extrajudicial para que as artes deixassem de ser divulgadas.
A reportagem questionou a prefeitura do Recife sobre o valor do patrocínio da bet, que não é divulgado nas comunicações oficiais. Contudo, até a publicação, a assessoria da prefeitura não havia retornado.
A reportagem também apurou que a marca tem fechado indiretamente com a TV Jornal, que divide suas funcionárias dos quadros de entretenimento com a marca. E também publieditorais com jornais locais da cidade, como o Diário de Pernambuco, que até a publicação desta reportagem anunciou três notícias só este ano envolvendo a casa de apostas.
“O Galo é um símbolo de identidade para Pernambuco e para o Brasil. Apoiar um bloco que reúne milhões de pessoas e que promove mensagens de sustentabilidade e inclusão é motivo de orgulho para o Esportes da Sorte. Queremos celebrar o frevo e a alegria do nosso povo, incentivando um Carnaval mais consciente, diverso e conectado ao futuro”, afirmou ao Diário de Pernambuco o CEO da Esportes da Sorte, Darwin Henrique da Silva Filho, que herdou do pai um império das apostas.
A reportagem procurou o jornal para questionar sobre essas relações, mas não obteve retorno.
A Esportes da Sorte integra a Esportes Gaming Brasil Ltda., com sede no Recife (PE). Darwin Henrique da Silva Filho e a irmã dele, Marcela Tavares Henrique da Silva Campos, também sócia da empresa, foram alvos da Operação Integration, da Polícia Civil de Pernambuco, em setembro de 2024. A investigação apurava suposto esquema de lavagem de dinheiro e prática ilegal do jogo do bicho. Na época, 19 pessoas foram presas. No inquérito policial consta que a organização criminosa usaria várias empresas de eventos, publicidades, casas de câmbio e seguros para lavagem de dinheiro por meio de depósitos e transações bancárias.
A investigação deu origem à CPI das Bets, instaurada no Senado, mas que foi encerrada em 12 de junho de 2025 com rejeição do parecer final por 4 votos a 3.
A reportagem também apurou a participação da Alpha Brasil Ltda., responsável por atuar como agenciadora de serviços, como sócia da Esportes da Sorte. A empresa tem patrimônio de R$ 92 milhões e tem, para além dos sócio-administradores Darwin e sua irmã, a empresa Alpharise, que possui sede em Luxemburgo. O administrador é o advogado Marcio Fam Gondim, que atuou como procurador do estado de Alagoas e atualmente é dono de escritório de advocacia especializado em direito tributário localizado no Recife e que leva seu sobrenome.
Todas as três empresas, a Esportes Gaming Brasil Ltda. – que possui as marcas Esportes da Sorte, Onabet e Lottubet —, a Alpha Brasil e a Alpharise abriram CNPJ no dia 24 de julho de 2024, período em que a Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) do Ministério da Fazenda instituiu cinco portarias regulatórias no país, sete meses depois da lei de regulação das casas de apostas ter sido instituída em dezembro de 2023 pelo governo Lula.
As bets foram autorizadas a atuar no Brasil durante o final do governo de Michel Temer (2018), quando o ex-presidente sancionou a Lei 13.756, que fala sobre os produtos de arrecadação das loterias. No entanto, até o governo Bolsonaro não havia regulação específica para a atuação do mercado no país, que ocupa o quinto lugar no mundo para o setor.
Das ladeiras aos camarotes
Na cidade vizinha a Recife, em Olinda, a Esportes da Sorte também conseguiu ganhar o edital que teve os vencedores divulgados dia 13 de janeiro. Além de ações da marca como distribuição de viseiras, chapéus e abanadores, as ladeiras do sítio histórico fazem referência à casa de apostas na tradicional decoração aérea na rua Bonfim, ao lado da praça do Carmo.
Às vésperas do Carnaval, e em meio a uma crise na gestão da prefeita Mirella Almeida (PSD), o edital de licitação da decoração na cidade foi publicado dias antes da abertura oficial do festejo, que possui mais de 1,5 mil blocos e troças carnavalescas cadastrados, segundo a Secretaria de Patrimônio e Cultura de Olinda. Postagens no site e nas redes sociais da prefeitura mostram a logo da Esportes da Sorte em todos os posts de divulgação do Carnaval 2026 da cidade.
Já em Salvador, no dia 4 de fevereiro, o prefeito Bruno Reis (União Brasil) e a vice-prefeita e secretária de Cultura, Ana Paula Matos (PDT), anunciaram a programação do Carnaval deste ano junto à lista de patrocinadores. Entre as oito empresas confirmadas, como Brahma, Beats, Guaraná Antártica – do grupo Ambev –, Mercado Pago, está também a Esportes da Sorte, que patrocina pela primeira vez o evento na capital baiana. No ano passado, quem assumiu o patrocínio master foi a Bet Nacional. A reportagem questionou a prefeitura sobre o valor do patrocínio, mas não obteve retorno até a publicação.
Diferentemente dos anos anteriores, as casas de apostas, não bancaram os camarotes do Carnaval de Salvador. No site, o patrocínio master mais uma vez ficou com a cervejaria Petra, que no ano passado dividiu espaço com a H2Bet, e em 2023, com a Bora Jogar. Produzida pela FunPlace, os preços dos ingressos para os três dias de festa variam de R$ 11 mil para homens e R$ 8 mil para mulheres.
A reportagem cruzou os dados de todas as participações musicais nos camarotes com a publicidade de bets. Entre os 18 cantores ou bandas, apenas Léo Santana faz propaganda direta com casas de apostas, sendo a Esportes da Sorte.
Ainda percorrendo uma trajetória para assumir um destaque no Sudeste, Belo Horizonte teve patrocínio de bets pela primeira vez no Carnaval 2026. Em contrapartida, os blocos de rua tiveram financiamento próprio. Apesar de o edital divulgar oito cotas de patrocínio, apenas três de quatro do espaço “colaboração” foram preenchidas. No valor de R$ 500 mil cada, Esportes da Sorte dividiu espaço com Supermercados BH e Belotur. A expectativa é que as outras cinco cotas pudessem injetar, no mínimo, mais R$ 14,5 milhões na cidade. Com isso, o evento não conta nem com “apresenta” nem “patrocínio master”.
Apostas em carnavais ainda locais
Em cidades onde o Carnaval ainda não carrega muito fôlego, a Esportes da Sorte também injetou dinheiro nas prefeituras, mas sem divulgar valores. A marca aparece estampada nas páginas dos carnavais de Maceió e Natal.
Na capital potiguar, a propaganda é explícita nas postagens fixadas na conta da prefeitura. A programação aconteceu de 12 a 18 de fevereiro, e contou com artistas e troças locais, além de nomes como Wesley Safadão, Márcia Felipe e Mari Fernandes. A logo da casa de apostas aparece nos outdoors de divulgação espalhados pela cidade como única anunciante.
As postagens não são feitas em parcerias com as atrações. No caso de Safadão, por exemplo, a Pixbet tem agenciado a agenda de Carnaval do cantor.
Enquanto isso, nas redes sociais da prefeitura da capital alagoana não há nenhuma menção à Esportes da Sorte. A última postagem explícita que a marca apareceu foi no réveillon. A propaganda no carnaval é verificada após uma busca no site oficial da Fundação Municipal de Cultura, em que anuncia um único polo do festejo com uma programação que contempla apenas artistas, afoxés e orquestras de frevos locais.
A reportagem tentou contato com a Esportes da Sorte, bem como seus representantes, mas, até a publicação, não houve retorno. O espaço segue aberto às manifestações.
